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Domingo, 25 de Fevereiro de 2024

D’P Agro: De Ponta Grossa para o Brasil

2023-10-16 às 13:48

Técnicas elaboradas e testadas na Fazenda Escola da UEPG para controle de pragas e doenças, com redução de impacto ambiental, são reproduzidas em lavouras de milho e soja de todo o país

Por Edilson Kernicki

A fim de amenizar a principal dor de cabeça do produtor de milho, a cigarrinha-do-milho (Dalbulus maidis), a Fazenda Escola Capão da Onça, da Universidade Estadual de Ponta Grossa (Fescon-UEPG), tem efetuado trabalhos de manejo dessa praga a partir da aplicação de agentes biológicos, com vistas à redução do impacto ambiental. A pesquisa é o carro-chefe do Laboratório de Entomologia, comandado pelo professor Orcial Ceolin Bortolotto, diretor administrativo da Fescon-UEPG.

As atividades integram um projeto em rede que envolve, além da UEPG, a UEL, a UENP, a Unicentro, a UTFPR, a UniCesumar, a Embrapa Milho e Sorgo, a Embrapa Cerrados, as cooperativas Coamo, Cocamar, Copacol e Integrada, e, ainda, o IDR-Paraná e a Agência de Defesa Agropecuária do Paraná. O inseto é o agente transmissor do vírus da risca e das bactérias fitoplasma e espiroplasma, conhecidas como “molicutes”. Por isso, os técnicos denominam a doença como “complexo do enfezamento”.

A Fundação Araucária e o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural devem aplicar quase R$ 4 milhões ao projeto, que será desenvolvido durante três anos. Segundo Bortolotto, boa parte desse valor será direcionado à UEPG ao longo do convênio de 38 meses, justamente por ser onde ocorrem pesquisas de monitoramento de pragas em nível estadual, em todas as regiões produtoras de milho, dos insetos infectados pelo patógeno do enfezamento, além de ser o local onde são desenvolvidas estratégias de manejo da praga. “Já fizemos, por três safras, atividades com o uso de drones agrícolas para o manejo da cigarrinha do milho, demonstrando a eficiência e a boa performance dessas ferramentas”, relata.

A pesquisa faz parte da linha de manejo fitossanitário, que estuda o manejo de pragas, doenças e plantas daninhas. “No manejo de pragas, tem sido bastante crescente o desenvolvimento de atividades com biológicos, principalmente sugadores”, explica. Na cultura da soja, esses biológicos são usados para o controle de percevejos e tripes, e, na do milho, da cigarrinha-do-milho.

A Fescon-UEPG tem realizado trabalhos de manejo da praga conhecida como cigarrinha-do-milho a partir da aplicação de agentes biológicos, com vistas à redução do impacto ambiental.

Interação

Os pesquisadores também realizam estudos com fungos, a fim de promover a morte dos insetos. “O interessante é que hoje verificamos que, em especial para essa praga, a mistura do produto biológico com o produto químico acaba dando efeito sinérgico de eficiência em algumas moléculas – claro, não em todas”, atesta o professor do curso de Agronomia, que desenvolve a linha de pesquisa de manejo integrado de pragas de grandes culturas.

Bortolotto relata que, inicialmente, duvidava-se da eficácia da interação entre agentes biológicos e químicos no manejo de pragas, mas o resultado foi surpreendente. “Temos observado no campo que a mistura do biológico com o químico, hoje, é fundamental e essencial para o manejo da cigarrinha-do-milho. Isso graças a atividades desenvolvidas aqui dentro da UEPG. Já tive oportunidade de estar no Paraguai e em diversos estados do Brasil para levar aos produtores essas informações”, destaca.

Drones

O uso de drones, “uma tecnologia que veio para ficar na agricultura”, também contribui para reduzir o impacto ambiental. “Um drone joga um volume de produto muito inferior do que uma aplicação por trator ou mesmo uma aplicação por avião”, salienta. Na Fescon-UEPG, os aparelhos têm sido aplicados no manejo de plantas daninhas, como a buva, e no manejo de pragas. “Já fizemos alguns estudos, como o manejo da cigarrinha-do-milho e de percevejos em soja, demonstrando que a aplicação aérea via drone também é bastante interessante, pertinente e viável ao uso do produtor, tendo aí uma expansão dessas observações feitas aqui na universidade para distintas regiões produtoras do Brasil”, acrescenta Bortolotto.

“Temos observado no campo que a mistura do biológico com o químico, hoje, é fundamental e essencial para o manejo da cigarrinha-do-milho. Isso graças a atividades desenvolvidas aqui dentro da UEPG” (Orcial Ceolin Bortolotto, diretor administrativo da Fescon-UEPG)

Outras pesquisas

Entre outras contribuições relevantes da Fescon-UEPG para a agricultura nacional, o diretor administrativo da instituição destaca um projeto via Fundação Araucária, em rede com outras instituições estaduais, que visa mensurar e quantificar as boas práticas de manejo de solo, que demonstram a importância da presença de palhada, de curvas de nível e de plantas de cobertura, que auxiliam na proteção do solo e reduzem a perda de nutrientes e de fração do solo por erosão, decorrentes de solo desprotegido ou onde há manejo inapropriado. “Chamamos de manejo inapropriado justamente aquilo que se caracteriza, hoje, como um revolvimento intensivo do solo, que acaba prejudicando a consolidação do sistema Plantio Direto dentro da esfera nacional”, explica.

A adoção de bioinoculantes – bactérias que favorecem o crescimento das plantas – também é objeto de estudo. “Em muitos casos, o uso dessas bactérias pode representar, inclusive, a redução do uso de nutrientes ou de adubo sintético, em especial, o nitrogênio”, destaca Bortolotto. Nessa área, os trabalhos mais consolidados envolvem a adoção das bactérias Bradyrhizobium e Azospirillum no cultivo da soja, mas também já existem trabalhos similares na cultura do milho e trigo. “Há vários trabalhos aqui, por exemplo, comparando a performance desses inoculantes em diferentes cultivares e em diferentes épocas de cultivo. O uso desses inoculantes como potenciais indutores de resistência, ou seja, que tornam a planta mais resiliente no meio ambiente, pode vir a reduzir a questão da ocorrência de doenças e pragas”, acrescenta.

O uso de inoculantes biológicos é uma linha que tem crescido amplamente no país, cita o professor. “O investimento desses inoculantes não é caro, e o retorno que eles proporcionam é bastante expressivo em termos de performance da planta que é desenvolvida e também em produtividade”, detalha.

Na fitopatologia – manejo de doenças –, a Fescon-UEPG desenvolveu diversos trabalhos em rede, em diferentes regiões do Brasil, para avaliar a performance de fungicidas em diferentes cultivares de soja, a fim de dar recomendações mais assertivas a produtores de todas as regiões que tenham os mesmos tipos de problemas observados nos Campos Gerais. Nessa área, cabe destacar o mofo branco, que atinge a soja e o feijão. “É uma doença que ocorre, geralmente, em regiões de altitude, podendo ocorrer não apenas no Brasil, mas até no continente europeu. Os trabalhos desenvolvidos aqui na fazenda dão subsídios e geram informações para resolver esse problema não só aqui no Paraná, mas também nas regiões centro-oeste, nordeste e sul. Podemos levar informações aos produtores e consultores dessas regiões”, frisa.

No manejo de plantas daninhas, além da investigação de novas moléculas de herbicidas para o manejo do azevém, que atinge lavouras de trigo, a Fescon-UEPG tem estudado a aplicação de plantas de cobertura, que protegem o solo, promovem o seu enriquecimento biológico e ainda inibem ou reduzem o surgimento de plantas daninhas, permitindo o espelhamento e a recomendação da técnica para outras regiões do país.

Conteúdo publicado originalmente na Revista D’Ponta #297