Terça-feira, 16 de Julho de 2024

D’P Agro: (In) segurança no campo

2023-05-01 às 15:37

Moradores e fazendeiros vivem clima de insegurança constante nas áreas rurais, que em Ponta Grossa chegaram a registrar 300 ocorrências policiais somente em 2022. Diante desse cenário, forças policiais e cidadãos buscam formas de aumentar a segurança nessas regiões

Por Michelle de Geus

Em janeiro deste ano, a comunidade do distrito de Itaiacoca, área rural de Ponta Grossa, foi surpreendida com a derrubada de uma torre de telecomunicações. Embora estivesse inativa há cerca de seis meses, a estrutura era considerada um ponto de referência na região. Um grupo de pessoas teria invadido a propriedade, serrado a base da torre e utilizado um guindaste para derrubá-la enquanto não havia ninguém no local. A suspeita é que a estrutura seria desmontada e teria as suas partes vendidas. A Polícia Civil abriu um inquérito para investigar o caso e espera chegar até os envolvidos com a ajuda das imagens das câmeras de segurança das propriedades vizinhas.

O caso reacendeu a discussão sobre a insegurança vivida pelos produtores rurais e as dificuldades do policiamento no campo. A estrutura estava localizada em uma propriedade às margens da PR-513 e o responsável pelo terreno é o agropecuarista e presidente do Sindicato Rural de Ponta Grossa, Gustavo Ribas Netto, que registrou Boletim de Ocorrência (B.O.). “Esse não foi o único caso, e são vários os problemas que nós já passamos, alguns até inacreditáveis. Nós já tivemos, por exemplo, problemas de furto de gado em grandes quantidades, além de equipamentos, ferramentas e cabos de cobre. Também temos uma propriedade onde desativamos a casa e a estrutura, tirando a fi ação, as portas, as janelas, as coisas que poderíamos reaproveitar em outros lugares, devido ao fato de assaltos constantes. Então chegamos ao ponto de ter que desativar um local”, aponta.

Desafios da segurança

Segundo o presidente da entidade, as regiões rurais não são mais seguras, e a grande preocupação reside no fato de o agronegócio movimentar valores vultuosos. Conforme Ribas Netto, os desafios para a segurança no campo envolvem a extensão territorial e a ampliação do efetivo para atender a demanda. Na visão dele, para melhorar a segurança nessas áreas, é necessário um policiamento preventivo maior, boa sinalização e a inteligência policial funcionando. “Em alguns casos, nós temos grupos no WhatsApp para monitorar as pessoas estranhas que passam nas estradas, mas é preciso cuidado para não movimentar a polícia para algo que não é um problema. É um conjunto grande de ações que nos ajuda a melhorar um pouquinho a proteção”, diz.

Preocupante

Conforme o tenente-coronel Marcos Ginotti Pires, comandante do 1° Batalhão de Polícia Militar (1o BPM), o número de ocorrências na área rural é numericamente menor do que na área urbana, mas não menos preocupante. Somente em 2022, foram registradas cerca de 300 ocorrências na área rural, envolvendo furtos, roubos e crimes ambientais. O comandante explica que nessas ocorrências costumam ser levados bens característicos das áreas rurais e que têm grande valor de mercado, como máquinas agrícolas, gado, fi ações elétricas e até árvores destinadas ao corte. “Não existe um perfil específico desses criminosos, mas a forma de agir acaba sendo muito semelhante.

Eles atuam em grupos, estudam o terreno, sabem o que buscam e se preparam para levar os objetos que querem. Além disso, normalmente, eles já possuem locais para a destinação dos materiais roubados ou furtados, e rotas de fuga definidas”, detalha.
Pires lembra que a Polícia Militar (PM) conta com a Patrulha Rural, formada por equipes especializadas no patrulhamento rural. “Esses policiais receberam treinamento específi co para a atuar nessas áreas. Eles fazem diariamente o mapeamento da região e conversam com os moradores, permitindo com que as suas ações sejam bem-sucedidas e benefi ciem o morador do campo”, aponta, ressaltando que a Patrulha Rural atua em todos os municípios pertencentes ao 1º BPM: Ponta Grossa, Castro, Carambeí, Arapoti, Sengés, Jaguariaíva e Piraí do Sul.

Ampliação do policiamento

Embora reconheça a qualidade do serviço prestado pela Patrulha Rural, Ribas Netto reforça que é necessário ampliar esse trabalho. “O serviço da Patrulha Rural é um serviço bem-feito, mas nós precisamos de uma ampliação desse serviço. Basta observar a quantidade de municípios que são atendidos por ela. Quando a Patrulha precisa se deslocar, por exemplo, de Ponta Grossa a Sengés, lá se vão cerca de 150 quilômetros para se chegar até lá. Então, é uma extensão muito grande e precisa ampliar o efetivo nesse sentido”, sugere.

Medidas

Na visão do delegado Maurício Souza da Luz, da 13ª Subdivisão Policial (13ª SDP), é justamente a distância entre as bases policiais e as propriedades que facilita a ação criminosa. “A maior dificuldade de fazer policiamento e apreensões em áreas rurais é a extensão territorial somada à capilaridade das vias de acesso que existem no interior”, observa, comentando ainda que a falta de tecnologias nesses locais, como câmeras de monitoramento e redes de celular, dificulta a coleta de informações pelas equipes policiais. “A ausência de testemunhas e o tempo de deslocamento policial para atendimento das ocorrências reforça a importância de um sistema de monitoramento por câmeras de qualidade, salvando o conteúdo em nuvem”, aponta.

Da Luz recomenda o investimento em sistemas de iluminação e equipamentos de segurança, como câmeras, alarmes e monitoramento, como forma de aumentar a segurança nessas áreas. “Um bom sistema de iluminação e o acompanhamento em tempo real de imagens dos arredores da sede minimiza o risco dos moradores serem pegos de surpresa durante uma ação criminosa. Delimitar a propriedade rural com cercas também ajuda o eventual infrator a ter conhecimento de que está invadindo uma área privada”, indica, alertando que não é recomendável deixar maquinários e implementos agrícolas expostos.

Outra sugestão do delegado é, conforme Ribas Netto já apontou no início desta matéria, a criação de grupos de WhatsApp com os vizinhos, nos quais seja possível solicitar auxílio e informar movimentações estranhas. “O produtor rural deve procurar conhecer os seus vizinhos e colaboradores, formando uma rede integrada de proteção na região, observando sempre a eventual circulação de pessoas estranhas”, explica.

O que fazer?

Caso seja vítima de crime, o morador deve registrar o Boletim de Ocorrência (B.O.) pela internet ou diretamente na Polícia Civil, Polícia Militar ou Guarda Municipal. Também é importante repassar todas as informações do ocorrido, de preferência com imagens de câmeras de segurança, e, no caso dos delitos de maior gravidade, preservar o local para que os investigadores possam coletar elementos que ajudem a identificar os criminosos e chegar até eles.

Conteúdo publicado originalmente na Revista D’Ponta #294 Março/Abril de 2023