Segunda-feira, 27 de Maio de 2024

D’P Agro: Marlene Kaiut – Rainha do Jersey

2022-08-22 às 12:07

Aos 24 anos de idade, a castrense Marlene Kaiut deixou uma bem-sucedida carreira como modelo para assumir a produção leiteira da propriedade da família, em Carambeí. Após muito trabalho e aprendizado, a pecuarista e empresária, hoje com 35 anos, revolucionou a produção da chácara e ficou conhecida como “Rainha do Jersey”

Por Michelle de Geus

Mãe, esposa e filha. Modelo, empresária e pecuarista. A castrense Marlene Kaiut é uma dessas mulheres versáteis que surpreendem pela visão de negócio e pela persistência. Em 2011, ela deixou o mundo da moda para assumir o rebanho leiteiro na chácara São João, em Carambeí, revolucionando a propriedade e ficando conhecida como “Rainha do Jersey”. Após trabalhar como modelo para as maiores grifes do país, ela assumiu, aos 24 anos, o desafio de aumentar a rentabilidade da produção de leite na fazenda da família. Com inovação e empreendedorismo, Marlene, que é formada em Administração de Empresas, transformou o perfil da propriedade que hoje é referência tanto na genética dos animais quanto na qualidade do leite.

Na época que assumiu o comando da produção, o rebanho da chácara contava 60 vacas e, por questões financeiras, o negócio estava prestes a ser encerrado. Marlene venceu a resistência do marido, que não queria dar continuidade à atividade, começou a aprender sobre o assunto e passou por cima de preconceitos. Graças ao seu pulso firme, coragem e ousadia, a propriedade conta, hoje, com quase 400 vacas e produz mais de 3 mil litros de leite por dia, produção totalmente entregue para a cooperativa Frísia.

Mudança radical

Marlene não esconde que mudar radicalmente de vida foi desafiador. “Quando eu comecei, tudo era novidade para mim. Eu não entendia nada do negócio da pecuária leiteira. Eu via o meu marido fazendo e gostava da atividade, tinha carinho pelas vacas, mas não sabia fazer nada”, conta. Diante disso, ela montou um plano de trabalho, buscou ajuda de profissionais especializados e começou a aprender na prática a nova profissão. “Para quem acordava todo dia às 10h, ter que acordar às 4h30 e já ir trabalhar era muito desafiador”, brinca.

Primeiro passo

A primeira decisão dela foi mudar a gestão da propriedade. “Simplesmente não existia gestão e muito menos um programa financeiro. Além disso, o leite produzido não tinha qualidade nem volume. Isso foi uma das principais coisas que eu mudei já no início”, lembra. A pecuarista também fez um financiamento para modernizar as instalações e ampliar o barracão dos animais, que ganharam sala de ordenha e alojamento para bezerros. A meta inicial era abrigar 75 vacas e, com mais animais em lactação, a produção também aumentou.

No entanto, ainda havia mais um desafio pela frente: era preciso investir na qualidade do leite. “Nós tínhamos desconto em tudo quando entregávamos o produto na cooperativa. Então eu comecei a trabalhar em cima disso e passei a ter bonificação, um dinheiro que me ajudava muito na época”, lembra. Essa avaliação é realizada pela Contagem de Células Somáticas (CCS), que indicam a presença de patógenos e revelam a situação da vaca e do leite produzido.

Melhora na qualidade

O passo seguinte foi melhorar a qualidade da alimentação do rebanho. “Uma das minhas primeiras decisões foi começar a trabalhar com um nutricionista para elaborar uma dieta balanceada para as vacas começarem a produzir mais”, explica. Com a ajuda do nutricionista Fernando Solano, da Frísia, as vacas passaram a comer três vezes ao dia. Nutricionistas, zootecnistas e veterinários também ajudaram a mudar o manejo dos animais. “As vacas passaram a ter horário para entrar e sair do barracão, e começaram a comer comida fresca e de boa qualidade. São coisinhas que fazem a diferença”, ensina.

Atualmente, as vacas passam por exame de ultrassom periodicamente, durante a ordenha, que ocorre logo cedo. A higienização é impecável, com desinfecção de úberes, exame de mastite e equipamento lavado após cada animal ordenhado. Com isso, o leite passou a ter menos contaminação e Marlene passou a receber mais por litro.

Mais gordura e proteína

O bônus por litro de leite também leva em consideração o percentual de gordura, que é naturalmente maior nos animais da raça Jersey. “Quando eu assumi o negócio, a propriedade tinha gado Jersey, Holandês e Jersolanda. Eu fui me identificando mais com o gado Jersey, que é bem mais rústico, tem mais gordura e a parte reprodutiva também é bem melhor do que os demais”, aponta.

Além disso, a pecuarista ressalta que uma das maiores vantagens do Jersey é a possibilidade de ter um incremento no preço do leite. “Como nós produzimos hoje um leite de boa qualidade e a raça Jersey já tem mais gordura e mais proteína, então nós conseguimos um valor bem mais elevado do que as pessoas que trabalham com a raça holandesa, por exemplo”, compara.

A paixão pelos animais dessa raça fez com que Marlene ficasse conhecida como “Rainha do Jersey”.

“Eu me identifiquei mais com o gado Jersey, que é mais rústico, tem mais gordura e a parte reprodutiva também é melhor do que nas demais raças” (Marlene Kaiut)

 

Para marcar os dez anos de atuação como pecuarista, Marlene lançou a própria grife de macacões, chamada Rainha do Jersey Marlene Kaiut

Parto no dia do casamento

Desde que assumiu o comando da produção de leite da fazenda, os dias foram de trabalho intenso para Marlene. Ela conta que, nos primeiros anos, não tinha funcionários e trabalhava de segunda a segunda. “Há três anos, eu realizei um dos meus sonhos, que era fazer a festa do meu casamento. Eu sempre sonhei em casar na igreja, vestida de noiva e tudo mais”, revela. Ela conta que passou o ano inteiro planejando e aguardando pelo dia do evento. “Duas horas antes do casamento, eu já estava com o cabelo cheio de bobes e tive que fazer o parto de uma vaca. Então, até no dia do casamento o trabalho não para”, comenta, aos risos.

Manejo dos animais

Atualmente, a propriedade conta com três funcionários que ajudam no manejo dos animais e, apesar de a rotina não ser mais tão intensa, Marlene continua envolvida em todas as atividades “Eu cuido dos cascos e chifres das vacas, dou de mamar para os bezerros, preparo os medicamentos e cubro a folga dos funcionários”, lista. “Hoje é mais tranquilo, porque temos um confinamento para 270 vacas em lactação e somente as novilhas ficam fora do barracão, então corre super bem o nosso trabalho”, relata.

Marlene ainda divide a atividade na chácara com o marido. Enquanto ela comanda a pecuária leiteira, ele se concentra na agricultura. “Nós temos atividades separadas, mas somos parceiros. Cada um está tocando uma atividade e se saindo muito bem naquilo que faz”, aponta. “É um trabalho diário, faça chuva ou faça sol. Mas, para quem gosta, é muito gratificante”, acrescenta.

Grife própria

Para marcar os dez anos de atuação como pecuarista, Marlene lançou, em 2011, a própria linha de macacões de serviço, chamada Rainha do Jersey Marlene Kaiut. Ela conta que costuma usar a peça diariamente no trabalho e que recebia muitas mensagens perguntando onde comprar. Por isso decidiu criar uma linha própria de roupas mais confortáveis, duráveis e que também fossem charmosas e elegantes. “Eu queria fazer alguma coisa que representasse o meu nome e ficasse marcado para sempre. Agora, em 2022, eu fiz a segunda coleção, que é de jardineiras, e está sendo muito bem aceita. É muito bom que onde você passe tenha alguém que conhece”, comemora.

Reconhecimento nacional

Marlene admite que não esperava chegar tão longe. “Eu comecei do nada e só aceitei o desafio porque a minha filha tinha saído do colégio particular para uma escola pública e sofrido demais. A minha meta, na época, era ganhar R$ 2 mil por mês para poder pagar o colégio dela”, confessa. Foi com isso em mente que ela começou a trabalhar e, em pouco tempo, o retorno financeiro começou a aparecer. “Eu não quero falar em números, mas hoje eu tenho uma vida superconfortável. As crianças estudam em escola particular e nós temos um financeiro bem legal”, afirma.

Marlene foi campeã estadual do Prêmio Sebrae Mulher de Negócios na categoria Produtora Rural em 2014 e vice-campeã em 2015. “Receber esses prêmios foi uma satisfação muito grande, porque eu realmente não estava esperando. É muito gratificante ver o nosso trabalho e o nosso esforço sendo reconhecidos”, destaca. As premiações foram um incentivo para que Marlene começasse a ministrar palestras, e hoje ela viaja pelo Brasil todo falando sobre sucessão familiar, empreendedorismo e empoderamento feminino no agronegócio. “É uma satisfação indescritível, pois eu ensino muitas coisas para as pessoas, mas aprendo muito também”, relata.

Lugar de mulher

“Preconceito existe até hoje, ainda mais em um universo predominantemente masculino”, desabafa Marlene. Ela conta que enfrentou várias situações desagradáveis e que precisou se impor para ser respeitada. “Teve um dia que eu fui comprar um trator, e o rapaz veio perguntar se eu tinha levado um currículo para deixar na loja. Expliquei o que eu precisava e a primeira coisa que ele me perguntou foi como eu ia pagar”, lembra a pecuarista, acrescentando que preferiu ser atendida por outro funcionário.

Outra situação semelhante ocorreu no ano passado, quando ela decidiu trocar de caminhonete. “Eu estava de bota de borracha e de macacão quando fui na loja, e o rapaz não me deu atenção, simplesmente escreveu em um papel o valor da caminhonete”, conta. Ela recorda que voltou ao local alguns dias depois, desta vez usando vestido e bem maquiada, e percebeu na hora uma mudança de atitude no vendedor. “Eu pedi para ser atendida por outra vendedora, que eu nem conhecia. Ela me levou para fazer um test-drive, eu comprei a caminhonete e o rapaz perdeu a venda”, observa.

Com toda essa experiência, Marlene garante que encontrou o seu espaço e desenvolveu a autoconfiança. “Não é porque aqui em casa eu ando cheia de estrume, de bota de borracha, de macacão e cabelo preso que eu vou deixar de ser uma mulher mais feminina. Eu faço questão de fazer a unha e o cabelo toda semana e continuo fazendo trabalho de publicidade. Lugar de mulher é onde ela quiser”, conclui.

Marlene ainda realiza trabalhos de publicidade: “Não é porque em casa eu ando cheia de estrume, de bota de borracha, de macacão e cabelo preso que eu vou deixar de ser mais feminina”

Conteúdo publicado originalmente na Revista D’Ponta #291 Agosto de 2022.