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Domingo, 25 de Fevereiro de 2024

D’P Agro: O solo ensinou

2023-10-16 às 14:05

Graças à inteligência, audácia e esforço de dois produtores dos Campos Gerais – Franke Djikstra, de Carambeí, e Nonô Pereira, de Ponta Grossa –, o Plantio Direto se difundiu pelo Brasil e revolucionou a agricultura nacional. No aniversário de 200 anos de Ponta Grossa, vale resgatar essa valiosa contribuição da região para o país

Por Edilson Kernicki

“Não vale a pena ficar tentando identificar quem é o pai dessa criança chamada Plantio Direto. Não se chegará a uma conclusão com consenso. O importante é reconhecer que muitas pessoas trabalharam para desenvolver e aprimorar o sistema ao longo do tempo, em várias regiões do mundo”, afirma o produtor rural Franke Djikstra, proprietário da Fazenda FrankAnna, em Carambeí. Autor do livro “O Solo Ensinou: Plantio Direto, Um Caminho Para o Futuro” (Inter Art, 2020), Djikstra é considerado um dos precursores e maiores incentivadores dessa prática, tendo contribuído para difundir e aprimorar o Plantio Direto entre produtores dos Campos Gerais e do país.

Segundo especialistas, a técnica estabeleceu um “antes e depois” na agricultura, principalmente no que se refere ao manejo do solo. Antes da criação do Plantio Direto, os produtores tinham um problema em mãos: resolver o alto potencial erosivo ocasionado pelas chuvas de primavera e verão, que era intensificado pelo desmatamento e a mecanização intensiva para a preparação do solo. Em busca de uma alternativa para evitar a erosão, o produtor Herbert Arnold Bartz, de Rolândia, conheceu em 1971 a técnica batizada de Plantio Direto, no Instituto de Pesquisa de Experimentação Agropecuária Meridional (Ipeame), em Londrina. A prática consistia na abertura de sulcos para a deposição de sementes e fertilizantes sem revolver o solo.

De forma pioneira, Dijkstra e o ponta-grossense Manoel Henrique Pereira (o Nonô Pereira, falecido em 2015) se basearam na experiência de Bartz e adotaram o Plantio Direto. Em reconhecimento ao trabalho realizado em prol da agricultura paranaense, os três receberam a comenda da Ordem Estadual do Pinheiro do Paraná, no grau de Grande Oficial. Em Brasília (DF), Nonô e Dijkstra também receberam o certificado e a comenda da Ordem Nacional do Mérito Científico.

Grande impulso

Foi Nonô Pereira, presidente por três gestões da Federação Brasileira de Plantio Direto e Irrigação (outrora Federação de Plantio Direto na Palha), quem deu o grande impulso na divulgação do Plantio Direto, desenvolvendo a técnica entre pequenos produtores no Brasil e no Paraguai, com a ajuda de Bartz. Em 1979, Nonô criou o Clube da Minhoca de Ponta Grossa, para disseminar o sistema, inspirado pela viagem que fez com Dijkstra a Lexington, no Kentucky (EUA), em 1979, para falar com Shirley H. Phillips, considerado o “pai mundial do Plantio Direto”, que já acompanhava o sistema há 28 anos.

Em busca de um aval para a técnica, ambos foram acolhidos na cidade onde Phillips trabalhava, bem como na fazenda de Harry Young, que praticava o sistema No-Till (sem preparo de solo). Phillips os tranquilizou, dizendo que, àquela altura, já devia ter minhocas no solo – fato confirmado no retorno ao Brasil. A presença de minhocas no solo significava que os produtores não dependeriam mais do arado. Mais tarde, em 1992, o Clube da Minhoca deu origem à Federação Brasileira de Plantio Direto na Palha (FEBRAPDP), que congrega e representa associações que aplicam, estimulam e difundem o sistema do Plantio Direto, a fim de propagar os seus benefícios ao maior número possível de agricultores.

A introdução do Plantio Direto na região, com rotatividade de culturas e produtividade em constante crescimento, deu-se a partir de 1976. Cerca de 40 anos antes, Walter Clay Lowdermilk já constatara que, nas antigas civilizações, a improdutividade, erosão e desertificação dos solos, mediante contínua extração, forçava os habitantes a se tornarem nômades em busca de novos locais para plantar. Por aqui, os primeiros colonos persistiram nesse mesmo erro, queimando madeira e material orgânico – a “gordura” da terra – até esgotar a produtividade do solo.

Franke Dijkstra com o americano Shirley Philips, pai mundial do Plantio Direto.

A loucura do lavrador

Uma das inspirações de Dijkstra para buscar informações sobre o Plantio Direto veio do livro “Plowman’s Folly” (A Loucura do Lavrador, 1943, de Edward H. Faulkner), recomendado pelo amigo Jan Heesterman, ex-combatente da Segunda Guerra Mundial que veio morar na região. O autor mencionava que “jamais alguém apresentou uma razão científica para se lavrar o solo” e, assim, lançava o maior desafio do século XX à agricultura convencional.

Foi em 1975, a partir da Comissão Agrícola Central das Cooperativas ABC – Arapoti, Batavo e Castrolanda – que o agrônomo holandês Hans Peeten foi convidado a desenvolver um sistema produtivo viável para o solo dos Campos Gerais. Com pós-graduação sobre os efeitos do uso de máquinas no solo, ele já havia experimentado o Plantio Direto. Dele, vieram duas grandes contribuições para consolidar o sistema: a indicação da necessidade de rotação de culturas e a cobertura do solo, que permite a reciclagem de nutrientes.

Perenidade: área da Fazenda FrankAnna opera com Plantio Direto desde 1976.

O Plantio Direto, então, demonstrou-se a alternativa mais adequada para evitar a degradação do solo ocasionada pela erosão, que era reflexo de manejo de solo intenso, contínuo e múltiplo. A Comissão Central Agrícola das Cooperativas ABC contratou o agrônomo e agrimensor Richard Biersteker para atender à área de conservação de solo. O primeiro esforço foi o de priorizar a conservação do solo com preparo mínimo e curvas de nível, com uso de gradientes para escoar água, algo que não se mostrou tão eficaz, porque surgiam valetas de até 30 metros de profundidade.

No início dos anos 1970, Djikstra viajou por diferentes regiões do Paraná e do país, observando as consequências de se lavrar a terra no Cerrado, onde, mesmo com áreas quase planas, a terra flutuava e assoreava os rios. Também notou, nos Estados Unidos, que, sozinho, o preparo do solo com curvas de nível não evitava a erosão.Convênios com o Instituto Agronômico do Paraná (IAPAR) permitiram que, desde a sua adoção, existisse embasamento técnico-científico para o sistema de Plantio Direto, que se mostrou a melhor saída para a agricultura no Segundo Planalto. Os efeitos benéficos do sistema levaram os produtores da região a organizar o Primeiro, Segundo e Terceiro Encontro Nacional de Plantio Direto na Palha.

“Quanto mais mexemos no solo, mais ele se desagrega e a terra é levada pelas enxurradas. Mesmo nas áreas quase planas, ela flutua, assoreando rios, como que pedindo socorro. Com as condições de nosso clima, logo estávamos convictos de que o preparo era o grande vilão. Era somente afofar a terra e a água a levava morro abaixo”, observa Djikstra.

Franke Dijkstra, Manoel Henrique Pereira (Nonô) e Herbert Bartz recebem comenda da Ordem Estadual do Pinheiro do Paraná.

Resultados

A conservação do solo alcançada a partir da técnica gerou significativo ganho de produtividade de grãos, além de promover a fixação no solo do dióxido de carbono (CO2) retirado da atmosfera, o que contribui para reduzir o efeito estufa. “Nos primeiros 15 anos, a diferença do Plantio Direto já foi perceptível, produzindo 30% a mais do que no preparo mínimo”, compara Dijkstra.

O Plantio Direto também permitiu menor temperatura na superfície do solo, em relação à terra lavrada, e redução da perda de água, o que criou um “berço ideal” para a germinação da soja. A cobertura de palha, além de evitar que o solo atinja altas temperaturas, também impede a compactação da superfície através da gota de chuva, fatores que prejudicam a germinação da planta. Junto a isso, a colheita com plantio simultâneo representou ganho de dez a 20 dias de mão de obra. Além de manter a umidade do solo, agilizou o trabalho e gerou economia de combustível e equipamentos.

Com a adoção do Plantio Direto, verificou-se ainda um acréscimo de 250% na eficiência do uso da água; 99% de redução de erosão do solo; 47% de redução de perda de água durante as chuvas; e 180% de aumento de matéria orgânica (carbono) no solo. “O Plantio Direto não é apenas uma ‘técnica diferente’. É, antes de tudo, uma questão de sobrevivência”, sintetiza Dijkstra.

Desde a criação da FEBRAPDP, a área cultivada com o Plantio Direto aumentou de um para 40 milhões de hectares no Brasil, ocupando mais da metade da área plantada do país e tornando o Brasil líder mundial no uso da técnica.

Franke Dijkstra: “Nos primeiros 15 anos, a diferença do Plantio Direto já foi perceptível, produzindo 30% a mais do que no preparo mínimo”.

Conteúdo publicado originalmente na Revista D’Ponta #297