Quinta-feira, 07 de Julho de 2022

Entenda por que fertilizantes são fundamentais para a agricultura brasileira

24/04/2022 às 09:37

Para manter altas produtividades de alimentos e fibras é importante que as plantas tenham quantidades adequadas de nutrientes disponíveis para absorverem. Mas a maioria dos solos cultivados no planeta, e em especial os brasileiros, são pouco férteis e ácidos, ou seja, pobres em nutrientes. Caso sejam cultivados da forma como estão, as produtividades seriam muito baixas. A única forma de corrigir estas deficiências e aumentar a oferta dos nutrientes para as plantas é com a aplicação dos fertilizantes. Essa é a explicação que dão os professores Antônio Carlos Vargas Motta e Volnei Pauletti, do Departamento de Solos e Engenharia Agrícola da Universidade Federal do Paraná, ao analisar a crise atual dos fertilizantes (preço alto e possibilidade de baixa oferta).

Por motivos que os professores apontam a seguir, o Brasil é o quarto maior consumidor de fertilizantes do planeta. E o país que mais aumenta anualmente o consumo desses produtos, com crescimento médio anual nos últimos anos (2015 a 2020) de aproximadamente 6,2%. A expectativa é que esta tendência de aumento continue, devido às maiores produtividades e incorporação de áreas de pastagens à produção de grãos.

Segundo os professores, a crise pós-guerra da Ucrânia destacou a importância do uso destes insumos na manutenção da sustentabilidade da vida moderna, tanto quanto o uso dos computadores, internet e GPS, embora seja uma técnica já centenária. E deve ter um grande impacto na agricultura brasileira, isto porque o país depende da importação de fertilizantes (cerda de 86% do que é consumido). As razões principais para esta dependência são que o Brasil se tornou um celeiro mundial de produção grãos e proteína animal utilizando, em sua maioria, solos pobres quanto à disponibilidade de nutrientes para as plantas.

Os professores explicam que regiões de solos extremamente pobres, como o cerrado brasileiro, são hoje grandes responsáveis pelo Brasil ser um grande produtor de alimentos do planeta. Principalmente porque se viabilizou a produção de grãos com o fornecimento de nutrientes através da calagem e do uso de fertilizantes. “Mesmo quando o solo já tem teores altos de nutrientes, é necessário aplicar fertilizante para repor os nutrientes exportados”, destaca o professor Volnei Pauletti.

Questões químicas

Todas as plantas precisam de 17 elementos químicos, os chamados nutrientes, para o seu desenvolvimento. Destes, 14 vem do solo (nitrogênio – N, fósforo – P, potássio – K, cálcio – Ca, magnésio – Mg, enxofre – S, ferro – Fe, cobre – Cu, manganês – Mn, zinco – Zn, boro – B, molibdênio – Mo, cloro – Cl e níquel – Ni) e três (carbono –C, hidrogênio – H e oxigênio – O) do ar ou da água. Mas não é preciso aplicar todos estes nutrientes através dos fertilizantes. Os amplamente aplicados e anualmente são o nitrogênio, fósforo e o potássio, por serem exigidos em maior quantidade e serem bastante deficientes no solo. O cálcio e o magnésio também são frequentemente aplicados com os calcários, produtos usados para corrigir a acidez do solo para níveis favoráveis às plantas.

“Mais cedo ou mais tarde será preciso aplicar fertilizantes e calcários nas lavouras. Não tem como fugir. Se isso não for feito, ocorre o esgotamento da reserva dos nutrientes que está no solo e a produtividade diminui”, diz o professor Motta. Este esgotamento ocorre devido a fatores naturais como a lavagem pela chuva mas também pela própria colheita de alimentos ou de fibras. Por exemplo, uma tonelada de frutos de banana que sai da lavoura e vai para a prateleira dos mercados ou feiras, leva consigo 0,38 kg de fósforo e 6,4 kg de potássio. No caso da soja, para cada tonelada de grãos são retirados 4,6 kg de fósforo e 14 kg de potássio. E assim por diante. Então estas quantidades multiplicadas pela produtividade são o mínimo que deve ser reposto ao solo com a aplicação de fertilizantes.

Em função das baixas reservas e falta de investimento, o Brasil importa aproximadamente 54% do fósforo, 97% do nitrogênio e 96% do potássio que utiliza em suas lavouras. Do leste europeu, região da invasão da Ucrânia pela Rússia, vem 25% desta importação.  As reservas de fósforo brasileiras são baixas e em geral de baixa qualidade comparativamente às encontradas em outras regiões do planeta. No caso do potássio, recentemente foi divulgado uma jazida de minério estimada em 3,2 bilhões de toneladas, na divisa entre os estados do Amazonas e Pará. Caso fossem exploradas, o Brasil passaria da situação de maior importador para um dos maiores exportadores do produto. O nitrogênio é retirado do ar e uma fábrica de fertilizantes nitrogenados pode ser montada em qualquer lugar do Brasil, mas são necessários vultuosos investimentos e alta disponibilidade de energia e gás natural. Logo, o Brasil que é um país continental e quer se manter como um grande produtor mundial a partir de solos pobres, não tem reservas significativas de fontes de nutrientes para as plantas que são os fertilizantes. Este cenário merece muita reflexão e planejamento para que sejam adotadas medidas que resultem em maior segurança à produção de alimentos e fibras a longo prazo.

Segundo os professores da UFPR, a utilização de adubos orgânicos, como os estercos de frango, suínos e bovinos, pode ajudar, mas não substitui totalmente os adubos minerais. Os adubos orgânicos contêm os nutrientes que estavam na ração, composta principalmente por produtos vindos da lavoura, como milho e soja.  A aplicação no solo destes estercos simplesmente retorna parte dos nutrientes retirados do próprio solo.  Uma outra alternativa poderia ser a aplicação de rochas moídas (remineralizadores), mas em geral são de baixo teor e de baixa eficiência, não sendo tecnicamente recomendadas ou então exigem a aplicação de altas doses, muitas vezes acima de uma centena de vezes a dose dos adubos minerais solúveis.

O ideal seria retornar os nutrientes retirados com os cultivos para as lavouras onde foram produzidos. Mas, como colocado anteriormente, parte dos alimentos que produzimos retiram os nutrientes do solo e vai alimentar os animais e dali retornam na forma de adubo orgânico para as lavouras. Contudo, a maior parte dos nutrientes é exportada do campo e transportada para as cidades. Parte é absorvida e permanece nos nossos corpos ou no dos animais, e parte se torna resíduo na forma de lodo de esgoto ou depositado em aterros. Ou seja, os nutrientes transportados na forma de alimentos para as cidades não retornam para o solo de onde foram extraídos, e o ciclo não se completa. Reforçando que não são só as plantas, mas, carne, fibras, carvão, bebidas (café, chá), etc, são resultado de alguma produção agropecuária que utiliza os nutrientes absorvidos dos solos e que, portanto, não retornam aos solos. Podemos ampliar este raciocínio considerando os alimentos que são exportados do Brasil para os mais de 150 países mundo afora. É possível concluir que o solo exporta nutrientes via alimentos e recebe nutrientes via fertilizante, principalmente os minerais. Sem esta contribuição dos fertilizantes, haveria o rápido esgotamento dos solos e consequente menor produção. Deste modo, a fertilização é uma excelente ferramenta para poupar florestas e áreas nativas.

Percebe-se, assim, que a quantidade de fertilizante a ser aplicada em cada área depende do balanço entre entrada e saída de nutrientes da área que está sendo cultivada.  Por tudo isso, a tendência é que o país continue aumentando seu consumo de fertilizantes.

Para mais informações sobre o tema, acesse o artigo completo dos professores neste link.

da UFPR