Mais uma brincadeira de quinta série que está a se perder no tempo. O 1º de abril, conhecido como o Dia da Mentira, era aguardado por todos na escola, com produção de roteiros das melhores “fake news” que pudessem levar o outro a acreditar, para que a conversa fosse encerrada com o chavão do dia: “Primeiro de abril, seu bobão.” Alguns diriam: “Seu trouxa.”
Do dia de hoje, em 2025, me transportei ao meu ambiente escolar no ano de 1977. Estou na Escola Estadual Alcebíades Azeredo dos Santos, conhecida como Colégio Polivalente, em Viamão, no Rio Grande do Sul, sentado com um grupo de colegas sob os eucaliptos plantados pelos próprios alunos e que nos recebem no pátio com suas sombras, a refrescar aquele dia de veranico em pleno início de outono. Junta-se a nós um colega que, com certeza, geraria bolsonaristas de hoje. À época, não posso negar, não imaginava que isso viria a acontecer.
Sem mesmo desejar uma boa tarde, lança a sua primeira do dia:
— “Os milicos defendem a liberdade.”
Os colegas se entreolharam, cansados que estavam de ter que decorar os nomes dos ministros daquele governo. Não reagimos.
Sem perder o rebolado, com o silêncio sepulcral que lhe fora imposto, emendou com a próxima:
— “Com a ditadura militar não há corrupção.”
Seguiu-se o silêncio, agora com os olhos arregalados de guris e gurias cada vez mais sem acreditar no que ouviam.
Como quem vive em seu mundo paralelo, sem qualquer diagnóstico clínico, saiu-se com mais uma:
— “Os militares defendem a pátria e a família.”
E, para falar essa frase, encheu o peito de ar, como se um pombo fosse. A troca de olhares entre os colegas se acelerou. As expressões de incredulidade se instalaram em todos os rostos.
Voltando aos dias de hoje, seria como um exemplar gerado a partir daquele colega falar que o ocorrido em 8 de janeiro foi o ponto máximo de uma tentativa de defesa de Deus, da pátria, da família e da liberdade. Da família até podemos concordar: da família Bolsonaro, assim como da sua liberdade. Mas, na verdade, sabemos que se tratou de um golpe contra a democracia, a partir de um plano pensado e executado durante meses, com a participação da família — a deles — e que incluía os assassinatos de Lula, Alckmin e Alexandre de Moraes.
Por isso, essa gente merece — assim como aquele meu colega mereceu — ouvir um sonoro:
“É primeiro de abril, seu mané, e você perdeu.”
Oliveiros Marques é sociólogo, publicitário e comunicador político.