Sexta-feira, 04 de Abril de 2025

Artigo: ‘Evo de novo’, por Oliveiros Marques

2025-03-30 às 15:49

Pouco mais de seis anos se passaram. Então, me vejo por horas em uma carretera, sob chuva constante, em direção ao Trópico. Impossível não lembrar daquele primeiro dia. Lá, no final de 2018, quando descia no aeroporto de El Alto, ao lado de La Paz, a primeira vez em que pisei em solo boliviano.

Desta vez, seguia rumo a Villa Tunari para acompanhar a comemoração dos 30 anos de um movimento político que transformou a realidade da Bolívia, sob a liderança de Evo Morales Ayma, o primeiro indígena a presidir o país, entre 2006 e 2019, quando sofreu um golpe que o retirou do comando da nação.

Durante o caminho, filas imensas de veículos nos postos de combustível chamavam atenção. Remetiam imediatamente àquelas cenas comuns para nós, brasileiros, nos tempos em que os aumentos dos combustíveis eram frequentes. No país andino, contudo, a questão é outra. Há uma crise de abastecimento de gasolina e diesel. A espera se estende por horas, estimulando o mercado paralelo. O que custa 3,70 bolivianos nos postos pode chegar a 15 bolivianos em bancas montadas nas ruas.

Mas assegurar que teríamos combustível suficiente para o retorno a Santa Cruz não foi o único desafio. Ao chegarmos próximo ao local do evento, uma multidão caminhava em direção ao estádio onde ocorreria o Congresso, tornando difícil avançar. Gente simples, quase a totalidade representantes dos povos originários da Bolívia.

Ao entrar no estádio, uma sensação de admiração tomou conta de mim. Uma cena impressionante. Uma aula de capacidade de mobilização política. Arquibancadas e gramado tomados por um povo animado, representando os 9 departamentos do País, que gritava palavras de ordem e empunhava suas Whipalas, a bandeira quadriculada e colorida que representa o Estado Plurinacional da Bolívia, como demonstração de sua determinação em fazer acontecer.

Com participação por vídeo de Adolfo Pérez Esquivel, Nobel da Paz; Rafael Correa, ex-presidente do Equador; e Cristina Kirchner, ex-presidenta da Argentina, reforçaram-se os discursos das inúmeras lideranças sindicais e populares no sentido de apresentar a candidatura de Evo Morales para mais um mandato como presidente.

A crise no fornecimento de combustíveis e o aumento dos preços dos alimentos — uma crítica direta ao atual governo de Luis Arce, a quem todas as lideranças que falaram no evento chamaram de traidor — serviram de ponto de partida para o próprio Evo defender sua candidatura. Ele recordou seus 14 anos de mandato, quando a Bolívia experimentou, a partir do El processo de cambio, os maiores índices de crescimento econômico e inclusão social de toda a América Latina.

O ato de inauguração do Congresso do Instrumento Político para a Soberania dos Povos, que apresentará um programa ao povo boliviano como base para a candidatura de Evo Morales, terminou com o grito de palavras de ordem: ganhou destaque ¡Evo no está solo, carajo! O que ficou evidente para quem estava lá e para quem não teve esse privilégio, pode perceber a multidão que caminha com Evo.

Eu arriscaria, conhecendo um pouco a política na Bolívia, que resolvidos os obstáculos jurídicos que seus opositores querem impor, se o Evo del pueblo, presidente de nuevo!

Oliveiros Marques é sociólogo, publicitário e comunicador político.