há uma hora
Oliveiros Marques

A nova pesquisa do instituto Datafolha sobre a eleição presidencial de 2026, publicada neste sábado, foi rapidamente apresentada por alguns analistas e pelo “mancheteiro” do UOL/Folha como sinal de alerta para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O argumento é simples: o senador Flávio Bolsonaro teria crescido e agora aparece tecnicamente empatado com Lula em um eventual segundo turno. Mas uma leitura mais cuidadosa dos números aponta para uma interpretação bem diferente - e, na verdade, bastante positiva para o atual presidente.
No cenário de segundo turno testado pelo Datafolha, Lula aparece com 46% das intenções de voto contra 43% de Flávio Bolsonaro. A diferença de três pontos configura empate técnico dentro da margem de erro, mas o dado central permanece: Lula continua numericamente à frente.
Mais importante do que isso é observar a estrutura da disputa. No primeiro turno, Lula mantém liderança consistente em todos os cenários testados, com 38% e 39% das intenções de voto conforme o cenário, enquanto Flávio Bolsonaro oscila entre 32% e 34%. Ou seja: mesmo após a consolidação de sua candidatura no campo bolsonarista, o senador ainda aparece alguns pontos atrás.
Quando se olha para a dinâmica eleitoral brasileira, esse tipo de quadro costuma indicar algo bastante claro: o jogo já está majoritariamente definido.
Se Lula parte de algo próximo a 40% e o principal adversário da direita aparece pouco acima de 30%, o espaço real de disputa eleitoral fica restrito a uma faixa relativamente pequena do eleitorado. Em termos práticos, significa algo em torno de 20% dos eleitores estão efetivamente em disputa entre os dois polos políticos.
É justamente nesse terreno que as campanhas eleitorais produzem seus efeitos.
E nesse ponto o presidente Lula possui uma vantagem estrutural importante. Para uma parcela significativa desses eleitores ainda indecisos ou voláteis, o atual presidente representa algo muito valorizado em períodos de incerteza: estabilidade na vida cotidiana. Em um país marcado por crises políticas recentes, essa percepção tende a pesar mais do que discursos de confronto permanente.
Enquanto isso, o campo bolsonarista enfrenta um desafio mais complexo. O senador Flávio Bolsonaro tenta construir uma imagem própria, menos marcada pelos conflitos que caracterizaram o período do governo de seu pai. Mas campanhas eleitorais raramente permitem reinvenções completas de biografia. Esse verniz que está sendo buscado impor à imagem de Flávio será trincado.
À medida que o debate eleitoral avançar, as tentativas de reconstrução de imagem inevitavelmente serão confrontadas com episódios do passado político do senador. As rachadinhas, Queiroz, imóveis comprados com dinheiro vivo virão a tona. Em disputas polarizadas, a narrativa sobre trajetória e credibilidade, que sustentam a história que está sendo vendida, pesa mais do que propostas programáticas.
Nesse contexto, a atual diferença registrada pela pesquisa tende a ganhar outro significado. Se hoje Lula aparece três pontos à frente dentro da margem de erro, é plausível imaginar que, com a campanha em andamento e com maior exposição das biografias dos candidatos, essa vantagem se consolide.
Historicamente, eleições brasileiras mostram que quando um candidato chega à campanha com liderança consistente e base eleitoral consolidada, a tendência é que a disputa se estabilize com pequena vantagem para quem já ocupa a dianteira.
Por isso, longe de indicar fragilidade, os números do Datafolha devem ser lidos como sinal de um cenário relativamente favorável ao atual presidente. O campo oposicionista conseguiu organizar um nome (ou melhor, sobrenome) competitivo, mas ainda precisa demonstrar capacidade de ampliar seu eleitorado para além do núcleo bolsonarista. E não vejo que isso acontecerá.
Se a campanha seguir essa lógica, não seria surpreendente que a disputa termine com uma diferença semelhante à registrada em outras eleições recentes: algo em torno de cinco pontos percentuais de vantagem para Lula.
Em política, pesquisas não são fotografia do resultado. Mas elas indicam tendências. E a tendência que emerge dessa nova rodada do Datafolha é a de uma eleição disputada - porém ainda com o atual presidente chegando alguns passos à frente.
Oliveiros Marques é sociólogo, publicitário e comunicador político