Quinta-feira, 07 de Julho de 2022

D’P Entrevista: Henrique de Oliveira Carneiro – Progresso para todos

17/06/2022 às 15:53

por Enrique Bayer

Descentralização de investimentos, integração logística e impulsionamento dos pequenos municípios: essa é a fórmula do novo presidente da Associação dos Municípios dos Campos Gerais, Henrique de Oliveira Carneiro, para promover o desenvolvimento da região

Descentralizar os investimentos para gerar desenvolvimento em todos os municípios da região dos Campos Gerais. Essa é uma das missões de Henrique de Oliveira Carneiro, prefeito de Piraí do Sul e mais novo presidente da Associação dos Municípios dos Campos Gerais (AMCG). Carneiro, de 34 anos, conta que já chegou a ter aversão à política, mas, depois de 16 anos trabalhando como contador na Prefeitura da cidade que agora comanda, viu que “algumas coisas precisavam mudar”. Para ele, que é pós-graduado em Gestão Pública, o foco das gestões municipais e da AMCG agora é planejamento – especialmente para superar os desafios do pós-pandemia – e o fortalecimento da cooperação entre os municípios. A cooperação, na visão dele, é a chave para o desenvolvimento, que ainda passa por incrementos nas áreas da saúde e da educação – as mais afetadas pela COVID-19 –, mas deve atingir setores estratégicos como a indústria, o turismo e a rede de infraestrutura das cidades, potencializando as cadeias produtivas. Na entrevista a seguir, Carneiro dá mais detalhes sobre os seus planos como presidente da entidade e sobre como ele enxerga a região dos Campos Gerais.

O senhor estreou na vida pública em 2020, quando foi eleito prefeito de Piraí do Sul. Como o senhor chegou na política?

A nossa campanha foi pautada em cima de uma ideia nova. Eu sou contador da Prefeitura, concursado, há 16 anos. Afastei-me do cargo para concorrer à Prefeitura, mas, antes disso, eu nunca tinha me filiado a nenhum partido político. Havia pouquíssimos apoiadores que acreditaram na nossa ideia de tentar retomar alguns objetivos que estavam esquecidos pelo município. Nós estamos em um desafio grandioso, que é uma recessão, uma pandemia que maltratou bastante a população, que deixou resquícios principalmente nas áreas da saúde e da educação. Agora nós temos o desafio de fazer a população acreditar na nossa proposta. Eu venho do interior. Temos uma noção dos problemas de toda a sociedade piraiense. E esse despertar para a política veio através de conversas. Com 16 anos dentro da Prefeitura, você acaba convivendo com os prefeitos e sentindo os anseios deles. Foi aí que nasceu a ideia de que algumas coisas deveriam mudar e que eu me interessei por política.

Essa proximidade com a política lhe deu um panorama do desenvolvimento de Piraí do Sul e dos Campos Gerais. Como o senhor analisa o desenvolvimento de ambos?

Piraí ficou aquém dos Campos Gerais. Nós temos municípios do porte de Piraí que se desenvolveram mais. Tivemos alguns projetos que se desenvolveram em cidades vizinhas, mas não aqui. Acreditamos que isso é por falta de planejamento, ou seja, nós não tínhamos uma visão de que as coisas poderiam ser melhores. Não existia investimento em infraestrutura. Hoje nós estamos fazendo esse planejamento para colher os frutos no futuro. Passei a ter essa visão depois da pós-graduação em Gestão Pública. Lá a gente percebe que os municípios que estão se desenvolvendo agora criaram os mecanismos para isso lá atrás, no tempo das vacas gordas, atraindo investimentos.

Foi pensando nisso que o senhor decidiu se candidatar à presidência da AMCG?

Na verdade, eu já fazia parte da diretoria. Eu era tesoureiro da gestão do Moacyr [Fadel, ex-prefeito de Castro e ex-presidente da AMCG] e queríamos dar continuidade ao trabalho dele. A ideia é intensificar o desenvolvimento e trazer ainda mais investimentos para a região.

O senhor já afirmou que deseja desenvolver igualmente todos os municípios que integram a AMCG. Como pretende fazer isso?

Nós precisamos fazer com que os municípios pequenos sejam vistos. Temos potencial para trabalhar especialmente o pequeno produtor e a pequena indústria. São eles que movem a economia. Não são apenas as grandes indústrias e empresas que geram emprego e renda. Essa visão sobre os pequenos precisa ser aprimorada. Por isso nos reunimos com órgãos de fomento e certificadores, para que os pequenos tenham visibilidade. Piraí, Ventania, Tibagi são exemplos disso. Têm uma ou duas indústrias grandes e o resto são todas pequenas. No fundo, nós temos que valorizar o que já temos em casa para ter a credibilidade que vai nos ajudar a trazer novos investimentos.

Uma das coisas que tem estado em pauta é o desenvolvimento sustentável da economia. A AMCG participou recentemente de um encontro debatendo os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU. Quais foram as conclusões que vocês tiraram desse encontro e como pretendem implementar isso na região?

A questão do desenvolvimento sustentável agora já é obrigatória. E temos que começar a fazer isso pelos municípios, com projetos que fomentem esse desenvolvimento. Mas, antes disso, temos que criar estratégias para esse desenvolvimento, em conjunto. Também precisamos melhorar a gestão. Muitos municípios querem recursos, mas não apresentam projetos sólidos. Acho que falta um pouco de conhecimento de como buscar financiamentos e parcerias para desenvolver projetos que sejam viáveis Nas entidades públicas também é fundamental ter certificações, ter o “nome limpo”, e criar um banco de projetos para captar recursos.

E como a AMCG pode ajudar os municípios a fazerem isso?

Eu propus à nossa diretoria que criássemos consultorias em diversas áreas. Na área de projetos, nós temos um servidor específico para desenvolvimento e análise de convênios e projetos, mas podemos buscar muito mais, inclusive parcerias com outras entidades que nos ajudem nas áreas empresariais e de gestão pública, especialmente.

O senhor também já falou sobre geração de emprego. Como gerar mais empregos na região?

O emprego gera renda. E uma pessoa empregada normalmente desonera outros gastos da administração pública, como assistência social, por exemplo. Aí é possível investir em capacitação dos trabalhadores. Aqui em Piraí temos uma parceria com o Senai. Isso é uma demonstração de como fazer o dever de casa. Não adianta querer trazer uma empresa se não temos mão de obra qualificada. Isso também se aplica ao investimento em infraestrutura. Gerar infraestrutura é mais do que só fazer uma estrada: é saber reverter isso em arrecadação, é capacitar os munícipes para que sejam inseridos com dignidade no mercado de trabalho. Tudo isso pensando em atrair investimentos.

O senhor falou no início da entrevista em saúde e educação. Nesses setores, quais são os principais desafios da região?

Nós inauguramos em Castro uma nova subsede do Consórcio Intermunicipal de Saúde dos Campos Gerais. A ideia é descentralizar os atendimentos especializados na saúde. Agora temos subsedes em Castro e Telêmaco Borba. Além de oferecer melhor atendimento, isso diminui o nosso custo. A descentralização na saúde é fundamental, e a COVID deixou isso claro, não só no que se refere ao número de leitos nos hospitais, mas também na integração dos setores. Cuidar da saúde significa também ter a oportunidade de ofertar educação de qualidade.

Um dos setores de destaque da economia dos Campos Gerais é o turismo. Como o senhor pretende continuar o desenvolvimento desse setor na região?

Nós temos que trabalhar o potencial turístico dos Campos Gerais. O Parque Vila Velha é um exemplo, mas temos uma rota de turismo muito grande, que envolve vários municípios. Temos que fortalecer a cadeia produtiva do setor, os restaurantes, os hotéis. Recentemente, tivemos a informação de que o Parque Vila Velha recebeu um grupo de turistas estrangeiros que veio de Curitiba somente para conhecer o parque e logo em seguida retornou a Curitiba. Ou seja: não há, no momento, essa cadeia que envolve o turismo e retém o visitante na região. Isso nós podemos fomentar através da AMCG. Quando você vai fazer turismo, geralmente, você compra um pacote, e esse pacote pode abranger vários municípios. As conversas para fazer isso já estão em andamento. Em 2023 vamos intensificar essa questão.

“Municípios que estão se desenvolvendo agora criaram os mecanismos para isso lá atrás, no tempo das vacas gordas, atraindo investimentos”

Uma das coisas que tem estado em pauta é o desenvolvimento sustentável da economia. A AMCG participou recentemente de um encontro debatendo os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU. Quais foram as conclusões que vocês tiraram desse encontro e como pretendem implementar isso na região?

A questão do desenvolvimento sustentável agora já é obrigatória. E temos que começar a fazer isso pelos municípios, com projetos que fomentem esse desenvolvimento. Mas, antes disso, temos que criar estratégias para esse desenvolvimento, em conjunto. Também precisamos melhorar a gestão. Muitos municípios querem recursos, mas não apresentam projetos sólidos. Acho que falta um pouco de conhecimento de como buscar financiamentos e parcerias para desenvolver projetos que sejam viáveis Nas entidades públicas também é fundamental ter certificações, ter o “nome limpo”, e criar um banco de projetos para captar recursos.

E como a AMCG pode ajudar os municípios a fazerem isso?

Eu propus à nossa diretoria que criássemos consultorias em diversas áreas. Na área de projetos, nós temos um servidor específico para desenvolvimento e análise de convênios e projetos, mas podemos buscar muito mais, inclusive parcerias com outras entidades que nos ajudem nas áreas empresariais e de gestão pública, especialmente.

O senhor também já falou sobre geração de emprego. Como gerar mais empregos na região?

O emprego gera renda. E uma pessoa empregada normalmente desonera outros gastos da administração pública, como assistência social, por exemplo. Aí é possível investir em capacitação dos trabalhadores. Aqui em Piraí temos uma parceria com o Senai. Isso é uma demonstração de como fazer o dever de casa. Não adianta querer trazer uma empresa se não temos mão de obra qualificada. Isso também se aplica ao investimento em infraestrutura. Gerar infraestrutura é mais do que só fazer uma estrada: é saber reverter isso em arrecadação, é capacitar os munícipes para que sejam inseridos com dignidade no mercado de trabalho. Tudo isso pensando em atrair investimentos.

O senhor falou no início da entrevista em saúde e educação. Nesses setores, quais são os principais desafios da região?

Nós inauguramos em Castro uma nova subsede do Consórcio Intermunicipal de Saúde dos Campos Gerais. A ideia é descentralizar os atendimentos especializados na saúde. Agora temos subsedes em Castro e Telêmaco Borba. Além de oferecer melhor atendimento, isso diminui o nosso custo. A descentralização na saúde é fundamental, e a COVID deixou isso claro, não só no que se refere ao número de leitos nos hospitais, mas também na integração dos setores. Cuidar da saúde significa também ter a oportunidade de ofertar educação de qualidade.

Um dos setores de destaque da economia dos Campos Gerais é o turismo. Como o senhor pretende continuar o desenvolvimento desse setor na região?

Nós temos que trabalhar o potencial turístico dos Campos Gerais. O Parque Vila Velha é um exemplo, mas temos uma rota de turismo muito grande, que envolve vários municípios. Temos que fortalecer a cadeia produtiva do setor, os restaurantes, os hotéis. Recentemente, tivemos a informação de que o Parque Vila Velha recebeu um grupo de turistas estrangeiros que veio de Curitiba somente para conhecer o parque e logo em seguida retornou a Curitiba. Ou seja: não há, no momento, essa cadeia que envolve o turismo e retém o visitante na região. Isso nós podemos fomentar através da AMCG. Quando você vai fazer turismo, geralmente, você compra um pacote, e esse pacote pode abranger vários municípios. As conversas para fazer isso já estão em andamento. Em 2023 vamos intensificar essa questão.

“Nós precisamos fazer com que os municípios pequenos sejam vistos”

Já falamos de emprego, saúde, educação e turismo. Se o senhor fosse elencar mais um setor para priorizar na sua gestão, qual seria?

A infraestrutura. Essa questão abrange a maioria dos nossos municípios. Facilitar a integração desses municípios com o entroncamento rodoferroviário de Ponta Grossa trará investimentos. A gente percebe que o Governo do Estado está trabalhando nesse sentido, no escoamento da produção, e precisamos intensificar isso aqui na região também.

Durante a gestão Moacyr Fadel, a AMCG estreitou laços com o mundo árabe. O senhor pretende continuar esse movimento?

Eu estive em várias reuniões. Firmamos um termo de cooperação para exportação e certificação. Recentemente, nós tivemos outra reunião. A demanda deles pelos nossos produtos é grande, mas precisamos enviar qualidade, com produtos certificados, que atendam as exigências deles. O nosso trabalho é qualificar todas as etapas do processo produtivo aqui na região. Podemos fazer isso através do Invest Paraná ou da captação de recursos de outras formas. Agora estamos buscando soluções, que estarão mais maduras no futuro.

O senhor comentou sobre as etapas do processo produtivo. Beneficiar commodities é uma preocupação para a AMCG?

Sim. Nós tivemos algumas conversas nesse sentido. Muitas vezes, a gente produz a matéria-prima, mas, se formos pensar em todo o processo que faz com que o produto chegue ao mercado, nós não temos aqui. Já tivemos algumas ideias, mas isso não depende só de nós. É necessário engajamento do Governo Estadual e do Governo Federal.

Na visão do senhor, como Ponta Grossa pode contribuir para o desenvolvimento da região?

Ponta Grossa é o nosso polo. Os investimentos estão concentrados aqui. Então estamos trabalhando com Ponta Grossa para que isso resulte em algo bom para os municípios do entorno, os pequenos. Temos que entender que Ponta Grossa se tornou esse polo porque teve planejamento e investimento. Esse é o nosso maior desafio junto ao Governo do Estado: descentralizar o investimento. Não só na área da saúde, mas na área produtiva, para que a gente possa fortalecer as nossas cadeias. Hoje, o que os pequenos municípios mais exportam são os filhos. Eles são educados aqui e vão embora. Nós não temos uma produção industrial suficiente para absorver a mão de obra qualificada que eles acabam se tornando.

O senhor está começando a gestão agora. O que te faria olhar para trás, no final da gestão, e concluir que fez um bom trabalho?

Ficarei muito feliz em proporcionar um pouco mais de dignidade à nossa população, e aqui incluo emprego, serviços de saúde com qualidade e mais educação. Poder propiciar um rumo e autonomia para o nosso povo, para que não fique dependendo sempre dos políticos e suas vontades, é isso que eu quero.

Conteúdo publicado originalmente na Revista D’Ponta #290 Junho de 2022.