Sábado, 25 de Junho de 2022

Coluna Confidências Econômicas: “Rússia, mesmo ganhando, perderá”, por Celso Costa

08/03/2022 às 16:24
Ilustração: Pixabay

Há dois anos, o mundo presenciou algo inimaginável: uma pandemia capaz de parar o mundo todo durante meses. Se isso já não fosse roteiro suficiente para muitos filmes de Hollywood, neste ano, estamos presenciando algo tão impressionante quanto o covid-19. Pois, não haveria no mundo moderno, espaço para imperialismo, onde nações são invadidas como no Jogo War, da Grow.

A ideia deste artigo é tentar explicar o motivo dos países manterem arsenal nuclear mesmo a um custo muito alto. Para tanto, usaremos a teoria dos jogos. Para quem não sabe, teoria dos jogos não envolve (diretamente) esportes ou jogos de tabuleiro, mas representa a tomada de decisão interativa, em que, o resultado de uma decisão depende da decisão tomada pelo seu oponente, sendo os jogadores pessoas, firmas, países, instituições etc.

Conhecendo o que é a teoria dos jogos, então, vamos definir o nosso jogo. Suponhamos que este jogo seja simultâneo, ou seja, os jogadores tomam decisões sem saber a decisão do seu oponente. Teremos dois jogadores: Estados Unidos e Rússia. Já as estratégias são manter um arsenal nuclear e não manter um arsenal nuclear, assim, os resultados podem ser: (MANTER, MANTER); (MANTER, NÃO-MANTER); (NÃO-MANTER, MANTER); e (NÃO-MANTER, NÃO-MANTER). Por fim, precisamos apresentar as recompensas de cada estratégia. Manter um arsenal nuclear tem um custo de 10 unidades (ou seja, -10). Mas com um arsenal nuclear, o país é capaz de ameaçar o seu oponente, e assim, obter um resultado que supere o gasto militar em 10 unidades (ou seja, 20-10=10). Por fim, se o país não mantém armas nucleares, não tem custo, mas se for pressionado por um país com esse tipo de arma, tem um custo de 20 unidades (ou seja, -20).

Tendo definido o jogo, estamos em condições de analisá-lo. Se os Estados Unidos escolherem MANTER, há duas opções para a Rússia: MANTER; ou NÃO-MANTER. Se escolher MANTER, os dois países têm um gasto militar de 10 unidades, mas nenhum consegue ameaçar seu oponente, pois ambos possuem armas nucleares. Assim, neste caso, o resultado seria (-10,-10). Se a Rússia escolher NÃO-MANTER, não terá custo militar, mas os Estados Unidos podem ameaçá-la, e o resultado seria (10, -20). Resumindo, se os Estados Unidos escolherem MANTER, o melhor para a Rússia é MANTER, pois estará em melhores condições.

Agora, vamos supor que os Estados Unidos escolham NÃO-MANTER. A Rússia continua tendo as duas opções. Se ela escolher NÃO-MANTER, nenhum dos dois países terão gastos militares, ou seja, o resultado será (0;0). Mas se escolher MANTER, poderá pressionar os Estados Unidos, e assim, ter um retorno positivo de 10 unidades, com resultado, neste caso, de (-20,10). Resumindo, se os Estados Unidos escolherem NÃO-MANTER, o melhor para a Rússia é MANTER, pois estará em melhores condições. Percebemos que não importa a escolha feita pelos Estados Unidos, para a Rússia, sempre será melhor escolher MANTER. Por fim, podemos inverter o raciocínio, então, não importa a escolha da Rússia, para os Estados Unidos, sempre será melhor escolher MANTER. Isto é, Estados Unidos e Rússia sempre vão escolher manter o arsenal nuclear.

Pois bem, o equilíbrio é aquele em que ambos os países escolhem manter as armas nucleares, arcando, cada um, com um custo de 10 unidades, ou seja, o resultado é (-10,-10). O leitor atento perceberá que apesar de (MANTER, MANTER) ser o equilíbrio do jogo, este não é o melhor resultado para ambos, pois, se houvesse uma forma de coordenarem as suas ações para escolherem (NÃO-MANTER, NÃO-MANTER), o resultado seria (0,0), este é melhor do que (-10,-10).

EUREKA! Se nenhum país do mundo tiver armas nucleares, será melhor para todos. Mas há um problema nisso. Vamos supor que os dois países concordem em não manterem um arsenal nuclear, é racional que o outro país não sustente o acordo, e isto também vale para o outro país. Assim, ambos possuem um estímulo muito grande para trair o acordo. Este tipo de estratégia, em teoria dos jogos, é denominada de estratégia estritamente dominante.

Isto significa que o mundo está condenado a viver em tensão eterna, com ameaças constantes de uma guerra nuclear? A resposta é não. Por isso, foram criadas instituições internacionais como a ONU (Organização das Nações Unidas). Assim, instituições desse tipo são capazes de pressionarem os países que violam acordos, muitas vezes, com sanções que podem durar anos, levando o país infrator a uma asfixia econômica.

Por fim, o Vladimir Putin buscou o que pensava ser o momento certo para atacar a Ucrânia, pois a Europa é dependente da importação do gás russo e o mundo ainda sofre com a crise (sanitária e econômica) da pandemia. Mas o que não estava nos planos dele, era a valentia do povo ucraniano e a empatia de pessoas do mundo todo, criando uma rede de solidariedade que vai desde pessoas indo até a Ucrânia para lutar ao lado dos soldados ucranianos até sanções nunca vistas, ou seja, “mecanismos” criados com base na teoria dos jogos funcionam. Assim, a Ucrânia, mesmo devastada, ficará em pé. E a democracia chegará à Rússia quando o povo russo perceber que esta é a guerra de uma única pessoa. Então, fica o aviso aos autocratas do mundo todo: “no mundo moderno, não existe força maior do que a democracia”.

Coluna Confidências Econômicas

por Celso Costa

Celso Costa possui pós-doutorado em economia pela FGV/EESP, é professor adjunto do departamento de economia da UEPG, trabalhou como coordenador geral de modelagem econômica no Ministério da Economia, lecionou no mestrado em economia da FGV/EPPG, também atuou como consultor para o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) e para a Tendências - Consultoria Integrada e é autor do livro "Understanding DSGE models”.