Sábado, 04 de Dezembro de 2021
foto: Clebert Gustavo

Confidências Econômicas: ‘O Brasil deveria se preocupar com a bolha imobiliária chinesa?’, por Celso Costa

05/10/2021 às 10:28

O Brasil deveria se preocupar com a bolha imobiliária chinesa?

Nas últimas semanas, o mundo financeiro global estremeceu com o anúncio que a incorporadora chinesa Evergrande não iria pagar as suas dívidas que estavam vencendo. O mundo temeu por uma nova crise financeira como a de 2008. Antes de falar sobre as consequências que uma possível crise imobiliária na China teria no Brasil, é bom saber do que se trata uma bolha especulativa e quais as chances desta crise ocorrer.

Uma bolha especulativa, bolha financeira, bolha econômica, entre outros nomes, é uma situação na qual o valor de um ativo se desvia do seu valor de fundamento, isto é, se desvia da regra que atribui valor a este ativo. Por exemplo, suponha que uma pessoa tenha R$1.000,00 para receber em um ano, e que a taxa de juros seja 20% ao ano. Logo, hoje R$1.000,00 vale R$833,33, ou seja, se alguém aplicasse, em um banco, R$833,33, a uma taxa de 20% ao ano, receberia R$1.000,00 no final do período.

Agora, suponha que uma segunda pessoa queira comprar esse direito de receber (comprar esse ativo), pagando R$850,00. Veja bem, alguém oferece pagar R$850,00 por algo que vale R$833,33. Surge a pergunta: isto não é racional? Não é mesmo, mas acontece, e o motivo dessa falta de racionalidade (ou como é denominado em economia, racionalidade limitada) pode ser por falta de informação, por algum tipo de preferência, ou simplesmente, porque a pessoa acha que sempre aparecerá alguém disposto a comprar esse ativo por um valor superior ao pago. Em seguida, pense que uma terceira pessoa queira comprar esse ativo por R$900,00, e que uma quarta queira comprar por R$950,00. Isso poderia não parar aí, mas suponha que pare neste último valor. Resumindo o que aconteceu, um ativo que deveria custar R$833,33 atinge um valor de R$950,00, ou seja, o valor do ativo está superior ao seu fundamento, logo, surge uma bolha especulativa.

A princípio, isso não é nada além do que um negócio ruim, mas acontece que muita coisa pode estar no “bastidor” de uma bolha.  Suponha que cada um desses agentes acima não tivesse dinheiro para realizar a operação, e que cada um tenha contratado um empréstimo a uma taxa de juros de 20% ao ano. Assim, a pessoa que comprou o ativo por R$950,00 está perdendo R$116,67 (R$950,00 – R$833,33).

Agora, suponha que ele não encontre comprador que pague um valor superior a R$950,00, então, oferece por R$833,33 (valor de fundamento do ativo) para tentar diminuir o seu prejuízo. Mas, também não consegue vender. Pois, neste momento, todos esperam que o valor do ativo despencará, e isso é “autorrealizável”, despencará porque todos acreditam que despencará. Portanto, neste instante, não há comprador que queira pagar um valor razoável por esse ativo. Por fim, pense que isto pode acontecer com muitas pessoas ao mesmo tempo. Em consequência, a inadimplência aumenta, os bancos deixam de emprestar, mesmo para aqueles que não estavam envolvidos diretamente na bolha. Esses que precisam do empréstimo deixam de pagar seus fornecedores, que deixam de pagar outros fornecedores, e assim por diante. Logo, o que era apenas uma bolha especulativa vira uma crise financeira.

Se trocar esse ativo financeiro, que promete pagar R$1.000,00 em um ano, por um imóvel, esta história poderia ser um resumo do que aconteceu nos EUA, no final da década de 2000, que aconteceu no Japão, na década de 1990, e o que pode estar acontecendo na China. A crise da dívida da chinesa Evergrande – incorporadora imobiliária mais endividada do mundo – deixou o mundo apreensivo sobre a saúde do mercado imobiliário chinês. Mas não é somente isso, o preço de um imóvel em Shenzhen e em Pequim são 57 e 55 vezes a renda média anual chinesa, respectivamente. Para se ter ideia do problema chinês, quando o Japão enfrentou uma bolha especulativa, os imóveis em Tóquio eram 18 vezes a renda média anual japonesa. Além disso, na China, com imóveis fora do alcance das famílias da classe média, os investidores temem que o governo chinês tome medidas para “esvaziar a bolha”, já que está em curso no gigante asiático uma nova campanha chamada “prosperidade comum” que prevê uma economia mais justa, na qual os frutos do desenvolvimento sejam mais amplamente compartilhados. Uma vez que, um dos principais elementos da desigualdade chinesa é o dinheiro que os ricos ganham com a especulação imobiliária.

Recentemente, o Banco do Povo da China (Banco Central chinês) traçou três limites que as grandes incorporadoras imobiliárias precisam observar em termos de sua situação financeira para diminuir a alavancagem do mercado imobiliário aquecido. Dado esse aperto monetário e o nível da dívida da Evergrande, os investidores estão percebendo que o endividamento dessa incorporadora é algo insustentável. Mas mesmo que um colapso imediato seja evitado, hoje, a preocupação é que há sinais na China semelhantes aos vistos antes do estouro da bolha japonesa. Por exemplo, a proporção da dívida privada em aberto em comparação com o produto interno bruto (PIB) está em 220% na China, valor superior aos 218% do Japão no auge de sua bolha. Por ora, o governo chinês disse que um dos seus principais objetivos econômicos é manter a estabilidade dos preços dos imóveis para evitar um enfraquecimento repentino na economia. Pois, um ajuste no mercado imobiliário, como experimentado no Japão, poderia desacelerar fortemente a economia chinesa, já que 25% do PIB chinês vem desse setor.

Dos anos 2000 em diante, o crescimento do Brasil esteve cada vez mais ligado à economia chinesa – para se ter ideia, em 2019, 34% das exportações brasileiras foram para a China. Assim, investidores começaram a ver o Brasil não tanto como uma proposta de investimento independente, mas sim como estruturalmente ligado à China, chamando o Brasil de “derivativo” chinês. Sem dúvida alguma, uma desaceleração chinesa enfraqueceria o já “anêmico” crescimento do PIB brasileiro nos próximos anos, que, segundo o Boletim Focus desta semana, o Brasil deve crescer apenas 1,5% em 2022. Resumindo, as evidências mostram uma bolha imobiliária na China, assim, resta aos brasileiros torcerem para que esta bolha não estore de forma repentina e neste momento de tanta fragilidade.

Coluna Confidências Econômicas

por Celso Costa

Celso Costa possui pós-doutorado em economia pela FGV/EESP, é professor adjunto do departamento de economia da UEPG, trabalhou como coordenador geral de modelagem econômica no Ministério da Economia, lecionou no mestrado em economia da FGV/EPPG, também atuou como consultor para o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) e para a Tendências - Consultoria Integrada e é autor do livro "Understanding DSGE models”.