Sábado, 04 de Dezembro de 2021
foto: Clebert Gustavo

Confidências Econômicas: ‘O monstro (in)controlável chamado inflação’, por Celso Costa

28/09/2021 às 12:04

O monstro (in)controlável chamado inflação

Se você tem 40 anos ou mais, vai entender bem o assunto deste artigo. Pois, na década de 1980, a inflação brasileira atingiu valor superior a 80% ao mês. Assim, é importante discutir este tema. Mas, antes de uma análise da situação atual do Brasil, é conveniente explicar o que é inflação e que problemas causa.

Inflação é o aumento continuado e generalizado dos preços. Ou seja, é uma situação que corrói o valor do dinheiro que você tem no bolso. Por ser um aumento generalizado, muitas vezes, a percepção sobre a inflação é diferente para cada pessoa. Por exemplo, uma dona de casa pode reclamar que o preço do arroz dobrou e que a taxa de inflação divulgada não corresponde com a realidade. Então, perceba que a inflação é uma medida de variação de preços de vários produtos ao mesmo tempo, não apenas do arroz. O preço do arroz pode subir ou cair dependendo de condições particulares, como uma eventual quebra de safra. Portanto, a demanda e a oferta de um produto podem variar por razões muito específicas. Essas oscilações de preços individuais não dizem muita coisa sobre a trajetória da inflação, pois pode acontecer que o arroz esteja com o preço subindo, enquanto outro produto esteja com o preço caindo.

Mas a inflação começa a incomodar quando é bastante elevada (com dois dígitos ao menos), pois dificulta o planejamento orçamentário, já que é difícil prever onde os preços estarão daqui a, digamos, uns cinco ou dez anos. A inflação muito alta também tem o problema de as empresas terem que gastar tempo e energia demais na tarefa de se protegerem da deterioração dos seus lucros e, portanto, tempo e energia de menos cuidando do negócio delas. Outra coisa é a redistribuição de riqueza de credores para devedores, uma vez que o valor real da dívida diminui com a inflação. Além do mais, corrói os salários, principalmente do trabalhador de menor renda, que não consegue proteger o poder de compra do dinheiro. Ainda, a inflação desestimula as aplicações financeiras e estimula as aquisições de imóveis, diminuindo o dinheiro para investimentos.

O longo período de convivência com a inflação levou o Brasil a criar diversos índices de preço. O principal deles é o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) utilizado como meta de inflação oficial brasileira. A cesta de bens que compõe o IPCA, entre outras coisas, considera variações nos preços dos alimentos, das habitações, do vestuário, do transporte e da educação. Fato preocupante é que o IPCA acumulado nos últimos doze meses está em quase 10% ao ano, bem acima da meta que é de 3,75%. Além disso, um outro índice de preços, o IGP-M (Índice Geral de Preços do Mercado), usado para corrigir os contratos de aluguel, ganhou os “holofotes” nos últimos tempos, pois pegou os inquilinos desprevenidos ao atingir 23,14% ao ano, em 2020, principalmente pelo aumento dos preços no atacado.

Mas o Brasil corre o risco de ter um processo inflacionário preocupante? Primeiro, é preciso olhar para a crise da pandemia. A China é o grande fornecedor de insumos para o mundo todo, e para o Brasil, não é diferente. Com a quebra da cadeia de fornecimento desses insumos, as firmas precisaram buscar alternativas, e isso, em geral, encareceu muito a produção. Por outro lado, a demanda por bens diminuiu, mas não foi suficiente para reduzir os preços dos produtos, e o resultado líquido foi um aumento nos preços. Um terceiro canal de inflação é que o governo utiliza o chamado imposto inflacionário para “fechar suas contas”, uma vez que, para o governo gastar mais, as pessoas precisam gastar menos. Normalmente, isso é feito por meio de impostos convencionais, como o imposto de renda, ICMS, etc. Mas, se a tributação já é alta e o nível da dívida pública atinge seu limite de endividamento, o governo pode imprimir moeda para pagar suas despesas, o que diminui a renda real privada. Sem ser muito técnico aqui, isso funciona, mais ou menos, da seguinte forma: o governo emite uma dívida que é adquirida pelo Banco Central, em contrapartida, este coloca moeda em circulação, isto é, “imprime moeda”.

As pressões inflacionárias da atual crise devem passar com o tempo, mas o comportamento do governo preocupa. Pois, segundo os estudiosos dos ciclos de negócios políticos, o governo costuma gastar demais para ter reeleições ou eleger um sucessor e, 2022, é ano de eleição. Juntando ao fato de que nenhum país em desenvolvimento tem uma dívida pública bruta como a brasileira, a ameaça de um processo inflacionário não pode ser descartada. Na verdade, vai depender muito do quanto o Banco Central acomodará do aumento do gasto público, pois ao aumentar a taxa de juros, aumenta o gasto do governo com a rolagem da dívida, diminuindo o espaço para outros gastos. Assim, combater a inflação limita o “apetite por gastos” do governo. Resumindo, se o Banco Central comprar briga com o Governo Federal, o brasileiro não terá que se preocupar com uma aceleração da taxa de inflação, como observado na década de 1980.

Coluna Confidências Econômicas

por Celso Costa

Celso Costa possui pós-doutorado em economia pela FGV/EESP, é professor adjunto do departamento de economia da UEPG, trabalhou como coordenador geral de modelagem econômica no Ministério da Economia, lecionou no mestrado em economia da FGV/EPPG, também atuou como consultor para o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) e para a Tendências - Consultoria Integrada e é autor do livro "Understanding DSGE models”.