Quinta-feira, 13 de Junho de 2024

Coluna Draft: ‘Afinal, o Palmeiras é Campeão Mundial?’, por Edgar Talevi

2022-07-08 às 10:59
Foto: Reprodução/Palmeiras

Quem é o melhor/maior jogador de todos os tempos? Pelé ou Messi? Há quem diga que Pelé é de outro mundo, mas há os pragmáticos que levam em conta as seis bolas de ouro do argentino e o elevam ao patamar de semideus.

Existem ainda aqueles que asseguram que é impossível comparar em virtude de terem jogado em épocas distintas e muito distantes. Mas há quem afirme que o futebol é o mesmo, apenas mudando de estilo e técnica. Mas, afinal, qual seria o critério mais justo para a comparação? Rapidamente dou minha opinião: não há critério mais justo ou menos justo. Mesmo que procuremos equidade, não a encontraremos em um universo em que paixões são postas em prática, como é o ufanismo e o clubismo no futebol.

Porém, a dúvida a que esta crônica se refere é: O Palmeiras pode ser considerado Campeão Mundial pelo Título da Taça Rio de 1951? A resposta é Sim e Não. Explicarei…

Sim: o Brasil havia recém-sediado uma Copa do Mundo, tendo chegado à final, dependendo apenas de um empate, diante de um público Dantesco, no mítico Estádio do Maracanã, construído para abrigar o evento, e perdeu diante dos olhos de milhares de torcedores. A festa que estava preparada tornou-se em pranto e lágrimas. A tragédia recebeu a alcunha de “Maracanazzo”.

No entanto, uma ideia pós-Copa do Mundo ascendeu aos clubes mais importantes do Mundo à época. Segundo o historiador Fernando Galuppo, o formato da competição de 1951, que ocorreu entre 30 de junho e 22 de julho, era o seguinte: oito equipes divididas em dois grupos. As sedes foram o Pacaembu, em São Paulo, e o Maracanã, no Rio de Janeiro.

No grupo do Rio, Vasco (campeão carioca de 1950) e Áustria Viena (campeão Austríaco de 1949/1950) se classificaram para a semifinal, eliminando Nacional – URU (campeão uruguaio de 1950, país Campeão do Mundo em 1950), e Sporting (campeão português de 1950/1951).

Já no grupo de São Paulo, os semifinalistas foram Juventus (campeã italiana 1949/1950) e Palmeiras (campeão paulista de 1950), tendo ambos eliminado, respectivamente, Estrela Vermelha (campeão iugoslavo de 1950) e Nice (campeão francês de 1950/1951).

O status do Palmeiras era de atual campeão paulista de 1950 e atual campeão do torneio Rio-São Paulo. Vale lembrar de que não havia Libertadores à época. Lembremo-nos, de igual modo, de que o torneio continental que hoje se venera tinha menor consideração, em seu início, do que recebe hoje. Os paulistões valiam muito na década de 60. O Santos de Pelé que o diga!

Para fim de história, após as semifinais, Palmeiras e Juventus se enfrentaram na grande final, para um público de cerca de 100 mil torcedores, no Maracanã. O Palmeiras saiu coroado com a Taça Rio de 1951, considerado à época como Mundial de Clubes pelos principais jornais esportivos do Brasil.

Entretanto, a competição foi organizada pela Fifa? Não. Mas, segundo Jules Rimet, em entrevista ao Jornal dos Sports, por se tratar de torneio de clubes, e não de seleções, dispensaria tal deferência. Entretanto, segundo o próprio, havia a crença de que o torneio seria um grande sucesso.

A Copa Rio foi a primeira competição Intercontinental de que se tem notícia no Mundo do futebol entre clubes.

Segundo o jornal “Última Hora” – “não se pode comparar a Copa Rio, que quer ser um verdadeiro Campeonato Mundial de Clubes Campeões, com qualquer tournée”. O artilheiro da competição, Giampiero Boniperti, da Juventus, afirmou que seus colegas e o clube trataram a Copa como um verdadeiro torneio Mundial de Clubes.

Na FIFA a recepção do torneio foi altamente positiva, principalmente entre os membros da alta cúpula, a saber, Ottorino Barassi, Jules Rimet e Stanley Rous.

Segundo o site da FIFA, em mais de uma vez, o Palmeiras foi erigido como Campeão Mundial pelo que fez na Taça Rio 1951.

De acordo com o jornalista Rodolfo Rodrigues, tendo sido Mundial ou não, a Taça Rio foi precursora dos “mundiais” de clubes “modernos”.

Vale lembrar também que, por ocasião do título do Palmeiras, uma verdadeira multidão tomou as ruas de São Paulo e Rio de Janeiro para comemorar o título “brasileiro”, que lavou uma alma angustiada pela derrota na Copa de 1950.

Agora, vejamos o porquê de a Copa Rio de 1951 não dever ser considerada como Mundial de Clubes.

A Fifa não esteve presente na organização do evento, como hoje está, aliás, desde o ano 2000, em que o Corinthians sagrou-se Campeão. Ademais, nem todos os países que estiveram no Mundial de 1950, no Brasil, enviaram clubes representantes, o que era a ideia inicial, ou seja, que todos os países participantes da Copa de 1950 estivessem presentes com seus principais clubes. Mas isso não ocorreu. Existe aí uma lacuna que jamais poderá ser preenchida.

Outro fator preponderante é o poder de chancela da FIFA como “cartorária”. Isso se dá de modo a qualificar o que é e o que não é oficial. Aliás, movida pelo lobby da Conmebol, a entidade máxima do futebol considerou a Taça Intercontinental como Mundial Interclubes. Estranheza causa o fato de que no site da FIFA não apareçam os clubes campeões da Intercontinental como campeões Mundiais, apenas validando o Mundial disputado a partir do ano 2000. Afinal, é ou não é Mundial Interclubes a Taça Intercontinental? O site da FIFA parece não reconhecer.

Ao transportarmos para os tempos atuais, existe o vacilo de se considerar válidas apenas as decisões de gabinete, tomadas dentre quatro paredes. Ora vale, ora não vale. O Site do Ministério do Esporte, sob o comando de Aldo Rebelo, recebeu um documento da FIFA, assinado pelo então secretário-geral da FIFA, Urs Linsi, dizendo: “Após minuciosa pesquisa, temos o prazer em anuciar que a FIFA concorda com sua proposta e aceita a Copa Rio 1951 como a Primeira Copa Mundial dos Clubes (…)”.

Tempos mais tarde, sob nova direção, a FIFA alterou seu conceito de Campeão Mundial e deixou de reconhecer o título do Palmeiras.

E quanto à comparação entre um torneio organizado pela FIFA e outro independente, como se tratava da copa Rio de 1951? É o mesmo que ocorre entre dois jogadores, tais como os supracitados Pelé e Messi. Em uma época em que não havia um torneio Continental como hoje há, uma Taça Rio compreendia o que de maior existia no futebol de clubes no mundo.

Destarte, entre idas e vindas, fica a dúvida: seria o Palmeiras Campeão Mundial? Ao torcedor alviverde não há dúvida de que sim! Mas aos adversários, fica a piada e a cantiga: “O Palmeiras não tem Mundial”… isso porque a Copinha foi conquistada, senão a musiquinha seria ainda mais infernal aos Palmeirenses, como a este colunista que escreve esta coluna.

E quanto a você, prezado leitor, acredita que o Palmeiras é ou não Campeão Mundial?

“O futebol é a coisa mais importante dentre as coisas menos importantes!” (Arrigo Sacchi).

Coluna Draft

por Edgar Talevi

Edgar Talevi de Oliveira é licenciado em Letras pela UEPG. Pós-graduado em Linguística, Neuropedagogia e Educação Especial. Bacharel e Mestre em Teologia. Atualmente Professor do Quadro Próprio do Magistério da Rede Pública do Paraná, na disciplina de Língua Portuguesa. Começou carreira como docente em Produção de texto e Gramática, em 2005, em diversos cursos pré-vestibulares da região, bem como possui experiência em docência no Ensino Superior em instituições privadas de Ensino de Ponta Grossa. É revisor de textos e autor do livro “Domine a Língua – o novo acordo ortográfico de um jeito simples”, em parceria com o professor Pablo Alex Laroca Gomes. Também autor do livro "Sintaxe à Vontade: crônicas sobre a Língua Portuguesa". Membro da Academia Ponta-grossense de Letras e Artes. Ao longo de sua carreira no magistério, coordenou inúmeros projetos pedagógicos, tais como Júri Simulado, Semana Literária dentre outros. Como articulista, teve seus textos publicados em jornais impressos e eletrônicos, sempre com posicionamentos relevantes e de caráter democrático, prezando pela ética, pluralidade de ideias e valores republicanos.