Sexta-feira, 12 de Abril de 2024

Coluna Draft: ‘Big Brother Brasil: a corrida dos ratos!’, por Edgar Talevi

2024-02-14 às 11:27
Foto: Reprodução/Freepik

Estática, extática, resignada e tantos adjetivos quantos possamos elencar neste artigo constam da psique coletiva ao digerirmos a propensão que muitos têm ao cultuar o famoso Reality Show, cuja origem remonta à ideia de John de Mol, em 1999, com o formato em que pessoas convivem dentro de uma casa, vigiadas por câmeras, 24h por dia.

Se recorrermos a Carl Jung, em sua teoria do inconsciente coletivo e inconsciente pessoal, em que, segundo esta, o inconsciente coletivo contém experiências e informações que todos nós compartilhamos como espécie, o fenômeno global do Reality, ou melhor, da telerrealidade, alcança os níveis mais profundos de nossa inquirição como seres biopsicossociais.

O formato ganha notoriedade à medida que avança determinadas fronteiras dentro do espectro do “politicamente correto”, arguindo a respeito de pautas comportamentais, identitárias e endereçando à sociedade uma reflexão do modus operandi desta, haja vista sua extensão, dentro da casa “mais vigiada do país”, nos mais diversos temas – sensíveis e cruciais – de análise, muitas vezes não tão crítica, de assuntos estruturais imprescindíveis à leitura do mundo contemporâneo.

A metáfora a que o título deste artigo se refere é consoante ao termo cunhado da obra “Pai Rico, Pai Pobre”, escrito em 1997, por Robert Kiyosaki e Sharon Lechter. A obra critica o modelo tradicional de educação e enfatiza a busca pela independência financeira por meio de estratégias diversas.

Por ocasião da obra supracitada, temos a expressão “Corrida dos Ratos”. Para os autores, a metáfora é condizente com os roedores que, trancados em suas gaiolas, correm para movimentar uma roda, mas, por mais que se esforcem, nunca saem do lugar. Ainda poderíamos sugerir, como contemplação macro dessa metáfora, os ratos de laboratório, cujas ações são estudadas e, com certa plausibilidade, previsíveis pelos cientistas, que condicionam os movimentos dos roedores para fins de estudos comportamentais e científicos.

Mas, afinal, o que o BBB tem a ver com isso? Tudo! Em primeiro lugar, a ideia central do programa, além do crédito financeiro exuberante para as emissoras que contratam o formato (não é exclusividade brasileira), através da exposição de marcas e produtos dos anunciantes, é a diversão, entretenimento ao público cada vez maior que abastece a audiência da TV. Aqui, nenhum problema. Pelo contrário! O entretenimento nunca será invasivo, pois a tutela sobre seu mérito e conteúdo e a decisão de consumi-lo ou não sempre será do telespectador.

Entretanto, o que se percebe é a falta de capacidade de propalar a verdade dentro do círculo social em que os “Brothers” estão inseridos. O fato de os participantes identificarem constantemente o programa a um jogo – o que é verdade! -, não os exime de nutrirem uma inverdade quanto à concepção de vida, de convivência e, por fim, de imagem que eles têm de si próprios e dos demais “jogadores”.

Alianças são formadas por mera casualidade, a fim de se manter “vivo(a)” por, quem sabe, mais uma semana na casa. Conchavos nem sempre bem digeridos pelo público são vistos dentro das quatro paredes da casa para que o jogo siga conforme o planejado para isolar ou eliminar (pena capital) o “adversário”.

O modelo de gestão pessoal de cada participante se enquadra perfeitamente no conceito behaviorista, principalmente na ressignificação de Clark Hull, em meados da década de 40, em que a explicação do comportamento humano se dava pela teoria da redução do impulso. Segundo Hull, são os impulsos que motivam nossos comportamentos e criam estados desagradáveis.

O autor behaviorista Clark Hull, influenciado pelo pensamento de Ivan Pavlov, Charles Darwin e John B. Watson concebe a teoria da redução do impulso, baseando sua propositura na explicação de que o comportamento pode ser explicado a partir do condicionamento e reforço.

Parte dessa teoria pode ser plenamente percebida na condução da produção/roteiro do programa, pois a busca por polêmica é fundamental para manter a avidez da audiência, sendo que as “plantas” devem ser eliminadas para garantir o espetáculo e as disputas das torcidas fora da casa.

Não à toa mais e mais famosos, versão “camarote”, têm entrado na casa, movendo seus seguidores de modo a propagar ideias, promover carreiras e, em diversos casos, voltar à mídia, dando “a volta por cima”.

Exemplos bem-sucedidos que saíram do BBB não faltam. Porém, existem casos de “notórios” que passaram a ser cancelados por atitudes mal interpretadas e mal pensadas na esfera do jogo e, até mesmo “pipocas” que não atingem o propósito da fama pelas escolhas erradas feitas no programa. São múltiplos fatores que ascendem à visão do público e geram expectativas variadas.

Em tudo isso, a metáfora da “Corrida dos Ratos” está presente. Se não, vejamos: mesmo com a imprevisibilidade do comportamento humano, o jogo tende a manter razoavelmente seus “gamers” sob controle. O jogo da discórdia lança mão de importante estratégia para eliminar as “plantas” e erigir polêmicas, desavenças e fortalecer a divisão dentro da casa, sem a qual não haveria grupos distintos nem alianças para troca de votos ao paredão.

A escolha por um modelo em que os jogadores votem em aberto também lança setas em desfavor de um ambiente amigável dentro da casa ao expor os participantes, incitando uns contra os outros. Ressalto que nada disso é eticamente errado, nem serve para se opor ao programa, pois se trata, como dito acima, de um jogo. Mas, a “Corrida dos Ratos” é muito bem controlada e não sai da “roda” sem que haja capacidade de se estatelar algum imprevisto. Novamente percebemos a teoria behaviorista na prática.

Ademais, determinados participantes assumem o protagonismo, liderando grupos, com poder dialético de jogar para o coletivo, mas minando aos poucos os demais concorrentes a ponto de se manter no jogo pelo maior tempo possível. Isso nos faz lembrar a teoria do “Grande Homem”, do historiador Thomas Carlyle. A liderança dentro do jogo depende das contingências, dos traços de personalidade de cada participante, das situações de jogo dentre outros.

Entrementes, o imprescindível dentro do jogo são as polêmicas em torno das pautas comportamentais e identitárias. A exímia filósofa Djamila Ribeiro, em sua obra “O que é lugar de fala”, de 2017, afirma: “O lugar social não determina uma consciência discursiva sobre esse lugar. Porém, o lugar que ocupamos socialmente nos faz ter experiências distintas e outras perspectivas”.

O lugar de fala é, indubitavelmente, o ponto em que se encontram teoria e prática de uma sociedade no respeitante à identidade do humano. Aqui residem prós e contras ao BBB.

Devemos celebrar a inclusão/participação fundamental da multiplicidade étnica, de gênero, social e afins em um programa cuja visibilidade se dá em horário nobre e com vultosa audiência. A representação plural dentro da casa dá voz e vez a minorias injustamente violentadas por uma sociedade que ainda possui indivíduos misóginos, racistas, homofóbicos, transfóbicos e que são míopes quanto ao significado do “SER” humano. Daí a importância de se discutir plena e abertamente sobre temas sensíveis à sociedade contemporânea.

Não obstante, a reflexão dentro da casa e engajada no formato do programa padece de uma reflexão mais acurada, menos “politicamente correta”, que transcenda as barreiras impetradas pelo conservadorismo retrógrado que norteia a própria edição do programa que vai ao ar.

Devemos salvaguardar os direitos humanos para, com afinco, crescermos como espécie e como pessoas, sem que, para isso, tenhamos de tolher propósitos e ideais com o simplista intuito de entreter, sem “mexer” com a estrutura da sociedade.

O maior receio em relação à forma de como as pautas polêmicas são conduzidas dentro da edição das exibições do programa é o fortalecimento de arquétipos que possam mais causar danos que vitórias ao constructo social.

O BBB, além de uma “Corrida dos Ratos”, pode surpreender, desde que perceba que há pessoas reais dentro da casa e estas são muito mais que jogadores. Pode ser que alguma peça não se encaixe dentro do jogo, mas a vida, o maior jogo de todos nós, jamais se resignou a meros encaixes.

Somos todos jogadores, mas, acima de tudo, pessoas, diferentes, imperfeitas, perfeitas, jogando a vida como o jogo da vida deve ser: imprevisível!

Coluna Draft

por Edgar Talevi

Edgar Talevi de Oliveira é licenciado em Letras pela UEPG. Pós-graduado em Linguística, Neuropedagogia e Educação Especial. Bacharel e Mestre em Teologia. Atualmente Professor do Quadro Próprio do Magistério da Rede Pública do Paraná, na disciplina de Língua Portuguesa. Começou carreira como docente em Produção de texto e Gramática, em 2005, em diversos cursos pré-vestibulares da região, bem como possui experiência em docência no Ensino Superior em instituições privadas de Ensino de Ponta Grossa. É revisor de textos e autor do livro “Domine a Língua – o novo acordo ortográfico de um jeito simples”, em parceria com o professor Pablo Alex Laroca Gomes. Também autor do livro "Sintaxe à Vontade: crônicas sobre a Língua Portuguesa". Membro da Academia Ponta-grossense de Letras e Artes. Ao longo de sua carreira no magistério, coordenou inúmeros projetos pedagógicos, tais como Júri Simulado, Semana Literária dentre outros. Como articulista, teve seus textos publicados em jornais impressos e eletrônicos, sempre com posicionamentos relevantes e de caráter democrático, prezando pela ética, pluralidade de ideias e valores republicanos.