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Terça-feira, 27 de Fevereiro de 2024

Coluna Draft: ‘Em quem eu votei!’, por Edgar Talevi

2022-11-02 às 11:10

Passadas as eleições, chega de mistério! É hora de contar toda a verdade, e ela começa pela exclamação: ‘Em quem eu votei!’

Sim, a exclamação é pertinente, pois quem vota, vota em algum candidato, JAMAIS “PARA” algum candidato. Portanto, digamos e escrevamos sempre: ‘votei em fulano’, nunca: ‘votei para fulano’, pois votar “para” alguém, em Língua Portuguesa, equivale a votar em lugar de alguém, portanto configurando crime eleitoral!

Sigamos nossa aventura pelo país das desmitologizações linguísticas. Quando falamos em eleições, já que é o clima ainda de nossa nação, estamos nos referindo, primacialmente, à Constituição, e a ela devemos obediência.

Combinemos o seguinte, então: ‘obedeçamos à Constituição em todos os seus versos’. Notem, prezados leitores, que lancei mão da crase antes do termo ‘Constituição’, e isso é devido ao fato de que o verbo ‘obedecer’ é transitivo indireto. Trocando em miúdos: o verbo ‘obedecer’ rege a preposição ‘a’ após ele. Sendo assim, quem obedece, obedece “A” alguém ou “A” algum mandamento.

O mesmo fato ocorre com o verbo desobedecer. Assim, temos: ‘quem desobedece, desobedece “A” alguém ou “A” algum mandamento. Ex. ‘Desobedecemos à ordem expressa da direção’. Simples, não é mesmo?

Outra curiosidade se dá com o verbo ‘assistir’. Quando usado no sentido de ‘ver’, ele é indireto, portanto exige preposição “A” após. Ex. Assistimos ao filme; assisti à novela.

No entanto, se o sentido atribuído ao verbo assistir for o de ajudar, auxiliar, ele será transitivo direto, ou seja, sem preposição. Ex. O médico assistiu o doente.

Semelhantemente temos outro verbo muito comum no dia a dia da escrita e da fala: ‘aspirar’. Quando a intenção do verbo for de ‘inalar’, será direto, sem preposição: ‘Aspiramos o odor das flores campesinas’. Se, no entanto, o sentido for de ‘almejar’, ‘pretender’, devemos usá-lo com preposição: Aspiramos a um cargo superior em nosso emprego.

Mas bom mesmo é fugir um pouco do entorno das eleições para poder falar de Linguagem e suas vicissitudes, concordam?

Encerro nossa crônica desta quarta-feira com a sabedoria de João Guimarães Rosa, o tapeceiro linguístico de nosso idioma. Aprendamos e reflitamos com ele:

“Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor (…)”

Coluna Draft

por Edgar Talevi

Edgar Talevi de Oliveira é licenciado em Letras pela UEPG. Pós-graduado em Linguística, Neuropedagogia e Educação Especial. Bacharel e Mestre em Teologia. Atualmente Professor do Quadro Próprio do Magistério da Rede Pública do Paraná, na disciplina de Língua Portuguesa. Começou carreira como docente em Produção de texto e Gramática, em 2005, em diversos cursos pré-vestibulares da região, bem como possui experiência em docência no Ensino Superior em instituições privadas de Ensino de Ponta Grossa. É revisor de textos e autor do livro “Domine a Língua – o novo acordo ortográfico de um jeito simples”, em parceria com o professor Pablo Alex Laroca Gomes. Também autor do livro "Sintaxe à Vontade: crônicas sobre a Língua Portuguesa". Membro da Academia Ponta-grossense de Letras e Artes. Ao longo de sua carreira no magistério, coordenou inúmeros projetos pedagógicos, tais como Júri Simulado, Semana Literária dentre outros. Como articulista, teve seus textos publicados em jornais impressos e eletrônicos, sempre com posicionamentos relevantes e de caráter democrático, prezando pela ética, pluralidade de ideias e valores republicanos.