há 2 dias
Edgar Talevi

Houve um tempo em que brasileiros, sôfregos, não continham em si o lamento das desigualdades, tampouco a falta de liberdade inerente à repressão de uma época de torturas e agravos quanto à democracia. O regime militar, período que marcou a história brasileira com multifacetadas mazelas relacionadas ao descortino do autoritarismo no Brasil, abriu uma oportunidade sui generis de o povo aprender o significado de viver uma crise e empunhar bandeiras de luta, seja isso através do diálogo ou manifestações públicas de não-aceitação das censuras e fétidas tralhas de um sistema corrupto e ameaçador.
Estudantes validaram o sentido da cidadania ao arriscar gritos de liberdade dentro das universidades. Intelectuais desvendaram caminhos para que a sociedade percebesse a ignorância da alienação. Artistas, censurados, corromperam, no melhor sentido do termo, a arte, servindo de vanguarda à experiência da liberdade. Trabalhadores uniram-se nas paralisações, na esperança de que um dia o trabalho se tornasse digno.
A nação brasileira, desde então, viu nascer um horizonte de perspectivas. Éramos um povo.
Infelizmente, o lado dos que apostavam na transformação ideológica do brasileiro, fracassou. Estamos em meio a tantas crises e um estranho efeito “anestésico” parece tomar conta de nossa alma, se ainda temos, ou pior, se ainda pensamos nela.
Episódios como o “Fora Collor”, falsamente atribuído ao povo, criaram em nós o estigma da pseudodemocracia, em que erroneamente pensamos ter sido uma prova de força popular, mas não passou de “estratégia” partidarista e política. Desde então, mais e mais nos escondemos de nós mesmos, inferindo-se no plano social uma ideia de que somos uma nação comovida e alerta em relação às crises que nos cercam, sejam elas ético-políticas ou de cunho econômico.
A palavra crise, em última análise, significa desespero, indignação, movimento interior contrário. Estar em crise, portanto, evidencia um estado de espírito perplexo, reflexivo, arbitrário e acima de tudo libertário.
Não se pode estar em crise e ao mesmo tempo esgueirar-se de responsabilidades sociais como se tal crise não houvesse rompido a consciência do dever e da cidadania. A cada anúncio de corrupção, roubos, anomalias no sistema econômico e político do Brasil, engrossamos a fila da passividade a tal ponto de estarmos alienados e corroborando com tudo o que rezam os ditames.
Os estudantes, ávidos pelas “decorebas” para o vestibular, mal entendem o sistema político brasileiro. Vários intelectuais cederam à tentação de posições político-partidárias como fonte de inspiração ideológica. Muitos trabalhadores desconhecem e milhares aceitam as injustiças por que passam todos os dias. Estamos, de fato, incrédulos e atônitos em um mar de corrupção e cumplicidade com o erro.
A crise tomou conta da política, do fazer política, da democracia, das ruas, das universidades, do Brasil. Mas tristemente reconhecemos que esta crise não nos afetou. Estamos inertes, inseridos e pertencentes ao que melhor espelha a alienação e o comodismo.
Não há gritos nem rumores de que uma transformação ocorra em breve. Talvez possamos creditar às eleições deste ano uma nova oportunidade de manifestar desejos de mudança. O problema é saber se o voto será instrumento de cidadania ou mais uma vez de manutenção de status quo.
Em meio a tantos apelos para deixar tudo como está, o brasileiro vê-se politicamente correto, sem procurar perguntas para as respostas não encontradas. Parece que os “pacotes” assistenciais dos governos bastam e se bastam no convencimento do povo.
Quando este país despertar para a democracia e para a cidadania, o principal sentimento que deverá nos consumir é o de CRISE. Crise esta que inclui o instinto de luta, de desbravar, de empatia e de procurar perguntas além das respostas encontradas. Por fim, a esperança de tornar o Brasil uma grande NAÇÃO.