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Coluna Draft: 'Estamos em crise?', por Edgar Talevi

há 2 dias

Edgar Talevi

Coluna Draft: 'Estamos em crise?', por Edgar Talevi
Movimento dos "caras-pintadas", em 1992, que pedia o impeachment de Collor - Foto: Sergio Lima/Agência Brasil
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Houve um tempo em que brasileiros, sôfregos, não continham em si o lamento das desigualdades, tampouco a falta de liberdade inerente à repressão de uma época de torturas e agravos quanto à democracia. O regime militar, período que marcou a história brasileira com multifacetadas mazelas relacionadas ao descortino do autoritarismo no Brasil, abriu uma oportunidade sui generis de o povo aprender o significado de viver uma crise e empunhar bandeiras de luta, seja isso através do diálogo ou manifestações públicas de não-aceitação das censuras e fétidas tralhas de um sistema corrupto e ameaçador.

Estudantes validaram o sentido da cidadania ao arriscar gritos de liberdade dentro das universidades. Intelectuais desvendaram caminhos para que a sociedade percebesse a ignorância da alienação. Artistas, censurados, corromperam, no melhor sentido do termo, a arte, servindo de vanguarda à experiência da liberdade. Trabalhadores uniram-se nas paralisações, na esperança de que um dia o trabalho se tornasse digno.

A nação brasileira, desde então, viu nascer um horizonte de perspectivas. Éramos um povo.

Infelizmente, o lado dos que apostavam na transformação ideológica do brasileiro, fracassou. Estamos em meio a tantas crises e um estranho efeito “anestésico” parece tomar conta de nossa alma, se ainda temos, ou pior, se ainda pensamos nela.

Episódios como o “Fora Collor”, falsamente atribuído ao povo, criaram em nós o estigma da pseudodemocracia, em que erroneamente pensamos ter sido uma prova de força popular, mas não passou de “estratégia” partidarista e política. Desde então, mais e mais nos escondemos de nós mesmos, inferindo-se no plano social uma ideia de que somos uma nação comovida e alerta em relação às crises que nos cercam, sejam elas ético-políticas ou de cunho econômico.

A palavra crise, em última análise, significa desespero, indignação, movimento interior contrário. Estar em crise, portanto, evidencia um estado de espírito perplexo, reflexivo, arbitrário e acima de tudo libertário.

Não se pode estar em crise e ao mesmo tempo esgueirar-se de responsabilidades sociais como se tal crise não houvesse rompido a consciência do dever e da cidadania. A cada anúncio de corrupção, roubos, anomalias no sistema econômico e político do Brasil, engrossamos a fila da passividade a tal ponto de estarmos alienados e corroborando com tudo o que rezam os ditames.

Os estudantes, ávidos pelas “decorebas” para o vestibular, mal entendem o sistema político brasileiro. Vários intelectuais cederam à tentação de posições político-partidárias como fonte de inspiração ideológica. Muitos trabalhadores desconhecem e milhares aceitam as injustiças por que passam todos os dias. Estamos, de fato, incrédulos e atônitos em um mar de corrupção e cumplicidade com o erro.

A crise tomou conta da política, do fazer política, da democracia, das ruas, das universidades, do Brasil. Mas tristemente reconhecemos que esta crise não nos afetou. Estamos inertes, inseridos e pertencentes ao que melhor espelha a alienação e o comodismo.

Não há gritos nem rumores de que uma transformação ocorra em breve. Talvez possamos creditar às eleições deste ano uma nova oportunidade de manifestar desejos de mudança. O problema é saber se o voto será instrumento de cidadania ou mais uma vez de manutenção de status quo.

Em meio a tantos apelos para deixar tudo como está, o brasileiro vê-se politicamente correto, sem procurar perguntas para as respostas não encontradas. Parece que os “pacotes” assistenciais dos governos bastam e se bastam no convencimento do povo.

Quando este país despertar para a democracia e para a cidadania, o principal sentimento que deverá nos consumir é o de CRISE. Crise esta que inclui o instinto de luta, de desbravar, de empatia e de procurar perguntas além das respostas encontradas. Por fim, a esperança de tornar o Brasil uma grande NAÇÃO.

Coluna Draft
por Edgar Talevi
Edgar Talevi de Oliveira é licenciado em Letras pela UEPG. Pós-graduado em Linguística, Neuropedagogia e Educação Especial. Bacharel e Mestre em Teologia. Atualmente Professor do Quadro Próprio do Magistério da Rede Pública do Paraná, na disciplina de Língua Portuguesa. Começou carreira como docente em Produção de texto e Gramática, em 2005, em diversos cursos pré-vestibulares da região, bem como possui experiência em docência no Ensino Superior em instituições privadas de Ensino de Ponta Grossa. É revisor de textos e autor do livro “Domine a Língua – o novo acordo ortográfico de um jeito simples”, em parceria com o professor Pablo Alex Laroca Gomes. Também autor do livro "Sintaxe à Vontade: crônicas sobre a Língua Portuguesa". Membro da Academia Ponta-grossense de Letras e Artes. Ao longo de sua carreira no magistério, coordenou inúmeros projetos pedagógicos, tais como Júri Simulado, Semana Literária dentre outros. Como articulista, teve seus textos publicados em jornais impressos e eletrônicos, sempre com posicionamentos relevantes e de caráter democrático, prezando pela ética, pluralidade de ideias e valores republicanos.

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