Domingo, 17 de Outubro de 2021
foto: Clebert Gustavo

Coluna Draft: ‘Não corra atrás do Prejuízo!’, por Edgar Talevi

15/09/2021 às 10:30

Costumeiramente dizemos, como clichê, que vamos correr atrás do prejuízo. Mas, cuidado! Pode ser que nós o alcancemos, portanto, o preferível, ao bom paladar dos puristas da norma culta da Língua Portuguesa, é correr atrás do lucro, pois, este, certamente, alegrar-nos-ia, concordam?

No entanto, não se preocupem com míseros adereços linguísticos, pois o que vale mesmo é saudar a linguagem de um modo leve e descontraído. Mas, nesse quesito, não se enganem; saudar não equivale a saldar. Saldar, com “l”, significa pagar. Senão, vejamos: “Preciso saldar uma dívida”, ao passo que saudar, com “u”, exprime sentido de cumprimentar. Ex. “Eles saudaram um amigo”.

Com uma coisa todos concordamos: vivemos saudando novos compromissos que necessitam de que os saldemos! Haja paciência! Mas, também, sempre teremos uma nova chance na vida. E isso só se for coisa boa, porque a palavra Chance, advinda do francês, entrou na Língua Portuguesa, conforme registram o minidicionário Luft, o Aurélio e o Michaelis, com sentido positivo.

Sendo assim, podemos dizer que nosso time tem chance de vencer a partida, mas nunca de ser derrotado. Podemos ter a chance da conquista, mas não da frustração!

Porém, vamos estar aprendendo a cada dia, não é mesmo? Opa! Aqui vai outra dica: A frase vamos estar aprendendo, vamos estar fazendo, ou seja lá o que for, não encontra apoio na linguagem dos bons escritores. Tornou-se, deste modo, um modismo. Trata-se, possivelmente, de uma influência da língua inglesa, com o agrupamento de verbos, como I will be doing, só que essa forma se traduz, em português, por vou fazer e não por estarei fazendo. Interessante nossa capacidade inventiva!

Se bem que, certo ou errado, não custa nada tentar escrever e falar melhor, afinal, é gratuito! Isso mesmo, gratuito, sem acento, pois a forma adequada da pronúncia é com ditongo, não hiato.

Evitemos o mau gosto na hora de grafar as palavras; usemos mau, em oposição a bom, e bem, em oposição a mal. Desta forma: “Eles têm mau gosto em relação a roupas”. E, ainda: “Todos estavam mal-humorados”.

Dúvidas se avolumam e chegamos a ficar cara a cara com elas. E, notem que o termo em que há palavras repetidas não tem acento grave indicativo de crase. Mais uma para nossa coleção!

Neste contexto, nada me impede de convidá-los a participar comigo de minhas aventuras gramaticais. E, vejam, que fiz o convite da forma gramaticalmente considerada correta. O verbo convidar é transitivo direto, comportando o pronome “los”, em vez de “lhes”, que cabe somente como objeto indireto. Nisso aqui, quantos e quantos convites já foram feitos, muitos de formatura universitária, de modo incorreto! Valha-nos, Evanildo Bechara!

Entrementes, se eu quero visar a alguma conquista, terei de lutar por isso, até mesmo no conhecimento gramatical. E, aqui vem mais uma peripécia normativa: Visar, no sentido de pretender, almejar, sonhar, é transitivo indireto, sendo necessário o uso da preposição “a”.

Ah! Como é bom namorar nossa Língua Portuguesa! Exatamente isso: namorar a Língua Portuguesa, e não namorar com a Língua Portuguesa, pois o verbo namorar é transitivo direto, não regendo preposição. Quem namora, namora alguém: “João namora Maria”, e não com Maria. Simples assim!

Perceberam que uma coisa acarreta outra? E lá vem mais uma de nossa gramática: O verbo acarretar é transitivo direto, por isso: A decisão acarretou prejuízos. Notem, senhores leitores, que não há regência de preposição “em” após o verbo acarretar.

São tantas dicas que já estamos a fazer hora extra. Ou seria hora-extra? Com ou sem hífen? Bem, prezados leitores, o adjetivo extra liga-se sem hífen a um substantivo. Ex. “Os funcionários faziam hora extra aos sábados”.

E, se pudéssemos mensurar o quanto aprendemos aqui, hoje, seriam muitos gramas ou muitas gramas de conhecimento? Esclareço:  quando se tratar de medida, o adequado é “o grama”. Mas, se falarmos de mato, aí fica por conta da grama mesmo!

Bela aventura esta nossa pelo universo da gramática! Porém, até mesmo a norma culta se prostra aos encantos de uma bela licença poética, quando bem aplicada.

Guardemos a frase célebre de Victor Hugo: “Tudo se rende ao sucesso, até a gramática”.

Coluna Draft

por Edgar Talevi

Edgar Talevi de Oliveira é licenciado em Letras pela UEPG. Pós-graduado em Linguística, Neuropedagogia e Educação Especial. Bacharel e Mestre em Teologia. Atualmente Professor do Quadro Próprio do Magistério da Rede Pública do Paraná, na disciplina de Língua Portuguesa. Começou carreira como docente em Produção de texto e Gramática, em 2005, em diversos cursos pré-vestibulares da região, bem como possui experiência em docência no Ensino Superior em instituições privadas de Ensino de Ponta Grossa. É revisor de textos e autor do livro “Domine a Língua – o novo acordo ortográfico de um jeito simples”, em parceria com o professor Pablo Alex Laroca Gomes. Ao longo de sua carreira no magistério, coordenou inúmeros projetos pedagógicos, tais como Júri Simulado, Semana Literária dentre outros. Como articulista, teve seus textos publicados em jornais impressos e eletrônicos, sempre com posicionamentos relevantes e de caráter democrático, prezando pela ética, pluralidade de ideias e valores republicanos.