Quarta-feira, 12 de Junho de 2024

Coluna Draft: ‘Não seja a bola da vez!’, por Edgar Talevi

2024-05-10 às 10:04

O clichê e a elegância de estilo raramente andam juntos, afirmava o saudoso jornalista Eduardo Martins, ex-editor de O Estado de São Paulo. Pois bem, isso é devido à senescência de expressões de que lançamos mão diante da necessidade comunicativa, seja em discursos orais ou escritos. A inópia linguística se dá à medida que aviltamos, deslustramos e detratamos nosso idioma por meio de enunciados desgastados, que não passam de frases feitas ou de um lugar-comum.

Para evitarmos a lazeira nos epítomes, ressignifiquemos nosso “briefing” com o correto uso sintático-vocabular para que possamos estilizar nossas asserções com clareza argumentativa e fluidez na textualidade, que envolve coesão e coerência.

Se não, vejamos alguns exemplos que rondam as tergiversações estapafúrdias da linguagem do dia a dia, nos arroubos de retórica constantes do cabedal lexical em uso amplo no espectro popular.

Quantos de nós já lemos/ouvimos a frase: “O Brasil é a bola da vez”! Ou, ainda: “As autoridades precisam fazer o dever de casa”. Não menos comum: “Temos segredos guardados a sete chaves”.

Notemos o quão abundantes são os sintagmas que carregam a pecha de se notabilizarem por inércia semântica. Prossigamos com mais exemplos.

“Devemos agradar a gregos e troianos”; “Conhecemos o Brasil do Oiapoque ao Chuí”; “O chefe age sempre em grande estilo”; “Ele apareceu depois de um longo e tenebroso inverno”.

As elucubrações não param por aqui! Soframos um pouco mais com as seguintes construções frasais: “O time precisa ocupar seu espaço”; Os gerentes chegaram a um denominador comum”. Poderíamos acrescentar etc. etc. etc.

Não obstante, sempre que necessitamos de uma frase em que caiba um conteúdo cujo mérito é imprescindível à construção de sentido, e precisemos de poucas palavras, corriqueiramente recorremos ao senso comum (sem hífen, segundo o dicionário Houaiss, de 2001, p. 2547). Nada contra, desde que observemos o contexto em que a alocução está envolvida, para que não corramos o risco de sermos simplistas, com uma multiplicidade de arengas que tanto depreciam nossa amada Língua Portuguesa.

Sendo assim, para “fecharmos com chave de ouro” – Ops!, lembremos dos versos escaldantes de Clarice Lispector:
“Esta é uma confissão de amor: amo a Língua Portuguesa. Ela não é fácil. Não é maleável. (…) A Língua Portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve”.

Coluna Draft

por Edgar Talevi

Edgar Talevi de Oliveira é licenciado em Letras pela UEPG. Pós-graduado em Linguística, Neuropedagogia e Educação Especial. Bacharel e Mestre em Teologia. Atualmente Professor do Quadro Próprio do Magistério da Rede Pública do Paraná, na disciplina de Língua Portuguesa. Começou carreira como docente em Produção de texto e Gramática, em 2005, em diversos cursos pré-vestibulares da região, bem como possui experiência em docência no Ensino Superior em instituições privadas de Ensino de Ponta Grossa. É revisor de textos e autor do livro “Domine a Língua – o novo acordo ortográfico de um jeito simples”, em parceria com o professor Pablo Alex Laroca Gomes. Também autor do livro "Sintaxe à Vontade: crônicas sobre a Língua Portuguesa". Membro da Academia Ponta-grossense de Letras e Artes. Ao longo de sua carreira no magistério, coordenou inúmeros projetos pedagógicos, tais como Júri Simulado, Semana Literária dentre outros. Como articulista, teve seus textos publicados em jornais impressos e eletrônicos, sempre com posicionamentos relevantes e de caráter democrático, prezando pela ética, pluralidade de ideias e valores republicanos.