Domingo, 17 de Outubro de 2021
foto: Clebert Gustavo

Coluna Draft: ‘O arrefecer da democracia’, por Edgar Talevi

17/09/2021 às 10:39

O arrefecer da democracia

O atual establishment da sociedade brasileira chatina no espectro do neoliberalismo americano, pós-consenso de Washington, com todas as vicissitudes antidemocráticas que agadanham a libertária utopia de independência.

O poder constituído tem se materializado em manutenção de status quo proveniente de estratagemas político-eleitorais, de modo a amuar a conhecença da irretratável necessidade de estabelecimento de formação de identidade subjetiva do indivíduo e formação de perspectiva de cidadania nos estamentos e tratos sociais no arcabouço de círculos de influência de que constam os tutelados pelo Estado, quais sejam, os mais vulneráveis e ultrajados pela opressão do capitalismo especulativo exacerbado e potencializado pela sanha do globalismo.

Notório é o fato de que as instituições alvitradas pela Constituição de 1988 estão sofrendo processo imorredouro de erosão e, destarte, pressionadas pela fereza das opugnações do obscurantismo despótico e acéfalo de insurreições ditas populares que barafustam pela intervenção militar.

A democracia, neste ínterim, não pode arrefecer, mas manter-se em constante estado de ebulição, de tal modo que haja contumaz ressignificação de suas bases, fundamentalmente no respeitante à constância da representação popular por meio de eleições livres, incólumes de cesarismos e aventuras arbitrárias de quaisquer poderes atascados em desvarios excêntricos e desassisados.

Deste modo, o senso de poder precisa se valer da construção de uma ontologia que vaticine o clamor do equilíbrio social mediante a dialética do plural, da acessão, da aquiescência das minorias e suas suscetibilidades históricas e culturais.

Pensar o coletivo, desta forma, é deixar de obstar à imprescindível reflexão da inclusão de todas as classes sociais, etnias, crenças, orientações sexuais e demais avenças que singrem a boma do bem-estar social em multifacetadas esferas do cotidiano.

Neste diapasão, é percebido o valor inegociável da epistemologia filosófica a partir de seus axiomas corroborativos no tangente à fenomenologia da práxis do social. Hobbes, assim afirma: “Por filosofia se entende o conhecimento adquirido por raciocínio a partir do modo de geração de qualquer coisa para as propriedades”. Isso, segundo o autor, valida a pragmática irrefutável da corporificação de uma estratificação que decante a vanguarda das garantias individuais.

Aos imprecatados que chafurdam os galanteios golpistas, devem ser implicadas, à revelia de inextrincáveis coalhaduras legais, a robustez da ciência do certame democrático, meio pelo qual a sociedade se perpetua e hegemoniza sua liberdade.

Nesta perspectiva, não se pode desvanecer da militância pelas prerrogativas tão ávida e bravamente conquistadas, em meio ao tautocronismo de sangue e suor de estudantes, intelectuais e camadas populares que litigaram pela democracia.

O filósofo espanhol Ortega y Gasset afirmou: “Eu sou eu e a minha circunstância”. Esse pensamento nos outorga a crença nas liberdades individuais que são valores inegociáveis e inalienáveis, pois inerentes à pessoa humana.

Para Bobbio, “O Estado não é apenas um instrumento, um aparelho, um conjunto de aparelhos, entre os quais o principal e o determinante é o monopólio do exercício da força”. Para o eminente autor, fica manifesto que um Estado deve, irremediavelmente, prover, não somente a subsistência, mas a existência de uma coletividade que permita o sentimento de pertença aos indivíduos em suas especificidades, na preservação da equidade e singularidade de suas necessidades de foro íntimo.

Sendo assim, não se pode impedir o engajamento da arte, da cultura, da construção de conhecimento, dos adregos de uma horizontalidade verossímil com a realidade de cada contexto étnico e social. Desconstruir a prática da cátedra e do exercício do magistério, tal como retorquido pelos ex-ministros da Educação, fere de chaga morrediça a esteira da ciência, universo avultado de agnição, intelecção e percepção de um holístico, disruptivo e, às vezes, niilista, espaço de fomento da civilização.

A esse ponto, prezado leitor, busquemos inspiração na frase do célebre filósofo Leandro Karnal: “Quanto mais frágil a sociedade julga ser uma pessoa, mais a atacará” É deste modo que ocorre, paulatinamente, a corrosão da democracia, motivo pelo qual não se pode dissipar a luta e manifestação do livre arbítrio social, fecundo nas tratativas de manutenção de direitos e conquistas históricas populares.

Não se permita o arrefecimento da democracia pelo ataque às instituições, pelas chicanas e demonstrações de desprezo pelo Estado democrático de Direito, mas se comungue das expensas de desobstruções de pautas que, sabidamente, contemplem as individualidades e nutram o que de maior valor se pode erigir em uma sociedade, a saber, a experiência do ser quem quer que sejamos, em nossas diferenças e subjetividades.

Multipliquemos, em coro, a experiência afável de existir no coletivo, sem deixar de considerar a multiplicidade de nossas identidades. Assim, fiquemos com o pensamento do filósofo Arthur Schopenhauer: “As pessoas comuns pensam apenas como passar o tempo. Uma pessoa inteligente tenta usar o tempo”.

Coluna Draft

por Edgar Talevi

Edgar Talevi de Oliveira é licenciado em Letras pela UEPG. Pós-graduado em Linguística, Neuropedagogia e Educação Especial. Bacharel e Mestre em Teologia. Atualmente Professor do Quadro Próprio do Magistério da Rede Pública do Paraná, na disciplina de Língua Portuguesa. Começou carreira como docente em Produção de texto e Gramática, em 2005, em diversos cursos pré-vestibulares da região, bem como possui experiência em docência no Ensino Superior em instituições privadas de Ensino de Ponta Grossa. É revisor de textos e autor do livro “Domine a Língua – o novo acordo ortográfico de um jeito simples”, em parceria com o professor Pablo Alex Laroca Gomes. Ao longo de sua carreira no magistério, coordenou inúmeros projetos pedagógicos, tais como Júri Simulado, Semana Literária dentre outros. Como articulista, teve seus textos publicados em jornais impressos e eletrônicos, sempre com posicionamentos relevantes e de caráter democrático, prezando pela ética, pluralidade de ideias e valores republicanos.