Domingo, 17 de Outubro de 2021
foto: Clebert Gustavo

Coluna Draft: ‘O Poder da Resiliência’, por Edgar Talevi

08/09/2021 às 09:56

O poder da Resiliência

Voltar a si mesmo, ditoso, bem-afortunado, apesar das intempéries da vida, é para poucos, e exige perene exercício de desprendimento e abnegação.

Em razão disso, por muito tempo em nossas vidas, somos compelidos a simplesmente existir, causando torpor em relação à abjeta necessidade de subsistir, reptar, mesmo em circunstância antagônica e que nos impõe o desafio de sobrepujar os obstáculos.

Chamo à baila o exemplo da novela de José, filho de Jacó e Raquel, patriarcas hebreus, cuja narrativa é descrita nas páginas das escrituras sagradas, no livro do Gênesis.

Filho dileto de Jacó, José sempre foi promissor, o que, constantemente, suscitava a inveja em seus irmãos, levando-os a, em certo momento, em atitude de impropícia estultícia, vendê-lo a mercadores ismaelitas, escondendo o fato de Jacó. Estava escrito o primeiro encarceramento de José, a exclusão do seio familiar.

O enredo segue, com tratos e distratos, tendo José servido como escravo do Faraó  Apopi I. Possuindo beleza inefável e presença gentil, José foi elevado ao mister do cuidado da casa e administração de bens do regente monarca do Egito. Isso entorpeceu de desejos a Potifar, a esposa do rei, que, com galanteios, tentou seduzi-lo, ao que José negou.

A novela, em seu universo diegético, segue, com José sendo traído por Potifar. A prisão, a esta altura, foi seu segundo encarceramento. José estava, mais uma vez, privado de sua prerrogativa mais basilar, a liberdade.

Os anos passam, e José prova lealdade ao interpretar os sonhos de Faraó, conquistando novamente o coração do monarca. Estava sendo gestado o gran finale. Como todos sabemos, José teve o privilégio de, após áridos anos de sofreguidão e encarceramento, alimentar seus outrora traidores irmãos e tornar-se governador do Egito.

Mas, perguntariam os prezados leitores: – Em que se encaixa o perfilamento da supracitada personagem bíblica ao tema em pauta? A resposta é objetiva: o exemplo retirado do contexto escriturístico é o fausto ensejo de catarse para derriscar nossos infortúnios e aplainar nosso sentimento de pertença à vida.

Os encarceramentos a que a vida nos leva não podem aprisionar mentes e corações, pois são nosso mundo imaterial mais fértil e poderoso. Nietzsche, lúcido filósofo alemão, propõe: “As grandes épocas de nossa vida são aquelas em que temos a coragem de rebatizar nosso lado mau de nosso lado melhor”. A escola filosófica alemã premia, no contexto pós-moderno, principalmente pós-segunda guerra mundial, em que houve crescimento exponencial do existencialismo filosófico, a humanidade com holísticos exemplos de prosperidade da alma em sua nudez, simplicidade e crueza.

Viajemos juntos na história, ao lembrarmos de Alfred Bernhard Nobel, que iniciou seus experimentos científicos na empresa de seu pai, com o uso da nitroglicerina, com objetivo de torná-la adaptável à dinamite. Fracassou de modo retumbante, pois o mundo não estava preparado para a genialidade de um homem além de sua época. A azáfama do julgamento popular não se deu conta do avanço tecnológico a serviço das grades obras de engenharia que seriam possibilitados com a dinamite. Estava feito o encarceramento de mais um notável pensador.

Destarte, obstinado por seu sonho de legar à humanidade um pouco de alma, Nobel aventou um prêmio, que leva seu nome, aos mais proeminentes cientistas. A volta por cima estava posta aos olhos do mundo.

Celebra-se, todo ano, a entrega do mais meritório prêmio da academia, a saber, o prêmio Nobel. As artes e a ciência são, notadamente, elevadas a um patamar dantesco e homérico ao receberem a láurea premeditada por Nobel.

Jesus Cristo, celebrado pela cultura judaico-cristã como filho de Deus, e pelo islamismo, como grande profeta, mostrou, na morte e ressurreição, o como se vive eternamente, abdicando da pessoa divina para viver às expensas do sofrimento humano.

Isso posto, prezados leitores, percebe-se que grandes pessoas são feitas de resiliência. As cicatrizes deixadas pelas açodadas reprimendas, rejeições e maledicências de outrem não podem moldar o que somos, tampouco erigir lôbrego empecilho que nos entorpeça e impeça de crescermos.

Ao repaginarem suas vidas e excelerem-se, José, hebreu, Alfred Nobel, da Suécia, Cristo, da humanidade, reverberaram o poder da autoafirmação, deixando o encarceramento preso em si mesmo, demonstrando superação e sobrepujamento diante das afrontas de um círculo social que não estava preparado para a robustez de almas elevadas.

O poder de elevar a própria alma e não sucumbir às infortúnias adversidades da vida são características indeléveis de pessoas, homens e mulheres, notadamente transcendentes, engenhosas, prodigiosas e grandiosas.

Perder a batalha jamais equivalerá a ser derrotado na guerra. Vanguarda para isso é a ciência, em tempos de obscurantismo; é a Educação, em época de negacionismo; é a Humanidade, em momentos de pandemia e perda de confiança no ser humano.

José Saramago, em seu estupendo “Levantado do chão”, ensina: “ Não faltam cores a esta paisagem. Porém, nem só de cores. Há dias tão duros como o frio deles (…)”. A paisagem, para Saramago, sempre foi notívaga, às vezes, mas jamais deixou de clarificar mentes livres, sublimadas e auspiciosas.

Perdemos, prezados leitores, diversas batalhas, pelas quais nos vemos desafortunados, mas sempre expectamos a metafísica da fé, do altruísmo e da elã, da vivacidade e da gana de fazer-mo-nos vistos pelo que somos, construímos e sonhamos.

Valham-nos vida e liberdade nos momentos em que se fizerem necessárias, pois serão, deveras, muitos, mas jamais percamos a perspectiva da áurea da esperança de sermos nós mesmos, seja ao preço que for, ou à custa do desprendimento da razão alheia.

Meditemos nos versos memoráveis de Vicente de Carvalho:

Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa, que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,

Existe, sim: mas nós não alcançamos
Porque está sempre apenas onde pomos
E nunca pomos onde nós estamos.

Coluna Draft

por Edgar Talevi

Edgar Talevi de Oliveira é licenciado em Letras pela UEPG. Pós-graduado em Linguística, Neuropedagogia e Educação Especial. Bacharel e Mestre em Teologia. Atualmente Professor do Quadro Próprio do Magistério da Rede Pública do Paraná, na disciplina de Língua Portuguesa. Começou carreira como docente em Produção de texto e Gramática, em 2005, em diversos cursos pré-vestibulares da região, bem como possui experiência em docência no Ensino Superior em instituições privadas de Ensino de Ponta Grossa. É revisor de textos e autor do livro “Domine a Língua – o novo acordo ortográfico de um jeito simples”, em parceria com o professor Pablo Alex Laroca Gomes. Ao longo de sua carreira no magistério, coordenou inúmeros projetos pedagógicos, tais como Júri Simulado, Semana Literária dentre outros. Como articulista, teve seus textos publicados em jornais impressos e eletrônicos, sempre com posicionamentos relevantes e de caráter democrático, prezando pela ética, pluralidade de ideias e valores republicanos.