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Sábado, 24 de Fevereiro de 2024

Coluna Lettera: ‘A carta de Natal’, por Francielly da Rosa

2021-12-05 às 11:03

Todos os dias o menino ia à escola com as roupas amarrotadas e usava os mesmos sapatos, tinha os cabelos raspados e, na pele morena, os olhos negros, tais quais belas jabuticabas, transbordavam energia e alegria. Era um menino extremamente inteligente, hiperativo, porém, sempre apresentava a desculpa de que nada sabia, por isso, não poderia fazer as atividades propostas.

Os dias passaram e ele mostrou-se um menino muito educado, amoroso e prestativo, sempre ajudando a professora. As condições em que ia para as aulas permaneciam iguais, sempre as mesmas roupas e calçados, cadernos sujos e materiais faltando, mesmo assim nunca lhe faltava o sorriso no rosto e os braços sempre abertos para um caloroso abraço na recepção. Às vezes trazia nas miúdas mãozinhas uma florzinha murcha, que provavelmente retirou de algum campo a caminho da escola, entregando-a com muito carinho e delicadeza para a professora.

Num belo dia, a professora viu uma aluna ir até o menino e olhá-lo com desdém, dizendo em alto e bom-tom que ele precisava de um banho e roupas novas, pois todo dia ia com o mesmo tênis furado e fedido. O menino, envergonhado, sorriu, as palavras enrolaram-lhe a língua, então pôs-se em pé, pronto para enfrentá-la, e o sorriso continuava em seu rosto; para ele tudo era uma brincadeira, mas bem se sabe que seu comportamento apenas mascarava a dor que aquelas palavras lhe provocaram.

Logo chegou dezembro, mês do Papai Noel, todos os alunos escreveram cartas e fizeram desenhos contando o que queriam, e, ao serem questionados sobre o significado do Natal, disseram ser o dia de ganhar presentes! Todos pediram, bonecas, carrinhos, bicicletas, menos aquele menino, que fez duas cartas distintas, uma entregue secretamente à professora.

Numa carta havia um pedido comum, o desejo de ganhar um carrinho de controle remoto; na outra, escondida, dizia que antes de qualquer brinquedo queria roupas e calçados, mesmo que fossem usados, não apenas para ele, mas também para o irmão mais novo. A professora conteve as lágrimas diante do menino e sorriu, mas em casa chorou com a carta nas mãos… a professora era eu.

Em épocas festivas recordo-me do menino, assim como penso nas inúmeras crianças que passam pelas mesmas dificuldades. As escolas trazem realidades dolorosas, além da diferença de valores construídos pelas famílias. Atualmente, nossas crianças desconhecem o verdadeiro significado do Natal, não conhecem realidades diferentes, não sabem o que é respeito, empatia e doação, valores que deveriam ser construídos pela família. Por isso, reflito, penso se nós realmente compreendemos e difundimos o real significado dessa data.

Quando o Natal chegar você verá sua mesa farta, dará ao seu filho o presente tão desejado, estará rodeado por familiares, trocando embrulhos, sorrindo para as fotos, e lá, no cantinho de sua janela, estará o menino, ao som da música que diz: “Então é Natal, e o que você fez?”

Coluna Lettera

por Francielly da Rosa

Francielly da Rosa é graduada em Letras Português e Inglês pela Universidade Estadual de Ponta Grossa. Atualmente, é mestranda do Programa de Pós-graduação em Estudos da Linguagem, com ênfase em estudos literários, também na UEPG. Ela é escritora, cronista e coautora do livro "Crônicas dos Campos Gerais". Descobre, entre as palavras que lê e escreve, a motivação que sustenta seu viver. Escreve crônicas, contos, poesias e, às vezes, se aventura no gênero romance. Além disso, participa de projetos de incentivo à leitura e de outras atividades culturais. Possui diversas crônicas premiadas e publicadas em jornais e sites locais. Em virtude de seu trabalho como escritora, recebeu duas moções de aplauso da Câmara Municipal de Ponta Grossa. Também foi premiada no Festival Literário de São Caetano do Sul, na categoria miniconto, sendo a única representante da cidade de Ponta Grossa.