Sábado, 04 de Dezembro de 2021
foto: Clebert Gustavo

Coluna Lettera: “Como nascem os escritores”, por Francielly da Rosa

19/09/2021 às 11:00

Como nascem os escritores

O semeador saiu a semear suas sementes, e, aproveitando a ocasião, semeou algumas sementes de escritores que, tão logo, germinaram, desenvolveram e deram frutos viçosos. Ah, se assim fosse! Teria eu revelado o segredo da criação! Todos somos capazes de escrever, mesmo dada a complexidade de nossa língua, mas faz-se escritor aquele que melhor articula as palavras, exprimindo o âmago das coisas. Porém, há nisso uma controvérsia, pois, acredito que são os leitores que fazem o escritor.

Mas, a curiosidade com a qual aqui enveredamos circunda a inexorável questão: Como nascem os escritores? Há quem diga que nascem pelas sementes lançadas ao chão, eu, no entanto, tenho minhas dúvidas. Explicarei melhor esse ponto adiante.

Quando era criança, costumava brincar de escrever na despensa de casa, porém eu, ainda em tenra idade, não dominava os saberes necessários da alfabetização e letramento. A escrita, garatuja, fazia sentido para mim, mas aqueles riscos curvilíneos não se faziam entendidos por quem os via. A raiva consumia-me o corpo e alma infantil, sentia-me desapontada, a ânsia em escrever e ser entendida corroía-me, pois queria ser escritora.

Minha mãe assistia, sorridente, à birra e ao ranger de dentes, depois acariciava-me os cabelos e dizia que logo eu aprenderia a escrever. Diferente de mim, uma amiga minha, que quando criança, nunca gostou de ler e escrever, contou-me, há pouco tempo, que tinha descoberto o amor pela escrita, fato que me deixou estarrecida.

Cresci escrevendo, rascunhando, nada de extraordinário! Gostava, apenas isso. Porém, o gosto, por si só, não faz de ninguém escritor! Gostar é relativo; hoje gosto, amanhã não, puro clichê do dualismo humano. Há quem nunca tenha gostado de escrever e tenha se tornado exímio escritor!

A pergunta que nos move neste prólogo, e que me proponho a debater, explica-se, em meu entendimento, da seguinte forma: em algum momento da vida, sabido ou desconhecido, nasceu o germe fecundo da prosa, lírica ou não, e mesmo que infimamente, naquele momento, alguém despertou escritor.  Que se faça a luz na mente criativa! E assim se fez! Pura magia, puro mistério, que engloba a existência dos seres.

Hoje, num mundo repleto de tecnologias, a atenção que se dá e a sensibilidade com que se recebe um texto é muito vaga, quase superficial. A modernidade nos corrói e a cada livro fechado morre-se a luz de um escritor. É preciso estímulo, é preciso viabilizar nossa literatura, é preciso que não se perca a beleza com a qual se vê o mundo, e aí entram os cronistas; observadores e apreciadores das minimalidades da vida.

Pensei sobre isso ao receber uma mensagem sobre um escrito meu, em que um amigo dizia que não leria o texto, porém compartilharia. E a sementinha da tristeza sentou-se em meu coração. Recordei, então, a menininha da infância e a ânsia que tinha de escrever, de ser ouvida, de ser lida! É o que todo escritor quer! Pensei no processo criativo, as noites em claro… A noite é o momento dos escritores!  Creio que o silêncio da noite é o momento oportuno para o grito da liberdade criativa, em que as mentes se concatenam e  criam, cada vez mais velozmente. Porém, acima de tudo, o que faz o escritor é o leitor, numa via de mão dupla, em que ambos coexistem. Onde nasce um escritor também nasce um leitor, e vice-versa.

Num país que mal ouve, mal fala e mal vê, ater-se a tão singela arte, que é transcrever o mundo em palavras, é nobre diferencial! Deixo para você, caro leitor, esta singela reflexão. Aqueles que tiverem olhos para ler… que leiam!

Coluna Lettera

por Francielly da Rosa

Francielly da Rosa é formanda do curso de Letras, pela Universidade Estadual de Ponta Grossa. Professora, cronista, coautora do livro Crônicas dos Campos Gerais. Participante de projetos de incentivo à leitura (Bando da Leitura), e declamação de poesias nas escolas do município de Ponta Grossa, trabalhando, também, com temáticas raciais, no projeto: "Nas teias de Ananse: Biblioteca de Narrativas Afro-indígenas Brasileiras e Africanas na escola", tendo, de igual modo, diversas crônicas premiadas e publicadas em jornais e sites locais. Recentemente foi premiada no Festival Literário de São Caetano do Sul, categoria miniconto, sendo a única representando o Paraná e a cidade de Ponta Grossa.