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Sábado, 24 de Fevereiro de 2024

Coluna Lettera: ‘Cuia de chimarrão’, por Francielly da Rosa

2023-05-22 às 09:58
Foto: Reprodução/Freepik

Cuia de chimarrão

O líquido amargo e quente chegou à boca. Apertava os dentes, segurava a lágrima que insistia em verter dos olhos, a ponta da língua queimada. Fruto da insistência de criança e sua sede em descortinar os novos sabores da vida. O chimarrão quente que acabara de trazer à boca, não lhe seria um dos sabores mais agradáveis que experimentou, mas era uma espécie de metáfora para o momento que compartilhara com a família.

Todos à volta da mesa, rindo, compartilhando palavras, memórias sobre o passado.

“Você lembra de quando nois ia no campo lá de cima pra virá mortal?”

“Lembro!”

“E aquela vez que o João caiu, foi querê se aparecê virá mortal e caiu de cara…”

Todos riam, entre as lembranças que se apresentavam em roda, em riso, em verso. E a criança espiava, ria, imaginava toda a cena repetindo-se mentalmente mais uma vez, perdia-se em riso novamente. A cuia ia passando em círculo, acompanhando a conversa, rindo, dançando e deslizando sobre a mesa. Os olhos de criança dançavam, acompanhavam.

Na segunda volta, a pergunta retornou:

“Quer mais um gole?” Queria. Não gostou do gole amargo e quente que lhe queimara a língua da primeira vez, porém queria estar na posição de possuir a cuia em mãos, de ser parte do círculo, ainda que não tivesse histórias de um passado longínquo para trazer à memória.

Cada movimento era estudado cuidadosamente por aqueles olhos vivos, aqueles ouvidos atentos. Assistia um dos tios levantar da cadeira, olhar profundamente para algum lugar entre o passado e presente. Levava então a mão até o bolso da calça jeans, retirava um maço de cigarros, tomava um entre os dedos, segurava-o entre os lábios. Com os olhos semicerrados, sacava o isqueiro e tentava uma, duas, três vezes acendê-lo, na terceira o fogo surgia, então aproximava o cigarro e tragava vagarosamente. Sempre o mesmo ritual litúrgico. A criança acompanhava tudo aquilo. Sorria.

Os anos trazem o silêncio, apagam as histórias e silenciam as memórias que fluem sempre ao som da viola. O círculo aos poucos diminui, definha. O chimarrão esfria, logo nem existe, é só memória guardava na cuia escondida no fundo do armário. O tempo escoa, amargo e quente, traz água aos olhos, como aquele gole que quando criança trouxe à boca num puxão que lhe queimara a língua.

“Lembra de quando a gente …”

“Foi virar mortal e o João caiu de cara no chão…” – a criança, já crescida, já sabia da história, mas silenciou, ouviu mais uma vez. As risadas surgiram em seguida, baixas, lânguidas, rasas. O círculo agora já não era mais um círculo, eram apenas cadeiras dispersas, memórias vagas, era ausência. A cuia de chimarrão dessa vez não surgiu. Ah! O tempo! Era ele quem passava agora, quente, dolorido, era ele quem queimava a língua e trazia lágrimas aos olhos de todos. O tempo agora tornou-se cuia de chimarrão.

Coluna Lettera

por Francielly da Rosa

Francielly da Rosa é graduada em Letras Português e Inglês pela Universidade Estadual de Ponta Grossa. Atualmente, é mestranda do Programa de Pós-graduação em Estudos da Linguagem, com ênfase em estudos literários, também na UEPG. Ela é escritora, cronista e coautora do livro "Crônicas dos Campos Gerais". Descobre, entre as palavras que lê e escreve, a motivação que sustenta seu viver. Escreve crônicas, contos, poesias e, às vezes, se aventura no gênero romance. Além disso, participa de projetos de incentivo à leitura e de outras atividades culturais. Possui diversas crônicas premiadas e publicadas em jornais e sites locais. Em virtude de seu trabalho como escritora, recebeu duas moções de aplauso da Câmara Municipal de Ponta Grossa. Também foi premiada no Festival Literário de São Caetano do Sul, na categoria miniconto, sendo a única representante da cidade de Ponta Grossa.