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Terça-feira, 27 de Fevereiro de 2024

Coluna Lettera: ‘Entre Vidas’, por Francielly da Rosa

2023-08-04 às 08:33

*Escrevi esta crônica após a leitura da manchete de um jornal. Inventei para ela uma história que me ocorreu durante uma madrugada insone. E aqui deixo para todos aqueles que quiserem descortinar os mistérios da vida humana.*

 

Entre Vidas

Cresceu  acreditando em príncipe encantado. Queria um para ela. Queria cuidar de uma casinha linda em que os móveis de madeira envernizada estivessem todos cobertos por delicadas rendas e crochês que aprendera a fazer ainda na infância com a avó, sentada aos pés do fogão a lenha. 

Morava na zona rural, por isso, sempre que podia, corria até o ponto mais alto do campo com toda a força que tinha nas perninhas magras e brancas, enquanto o vestido florido lhe cobria os joelhos rajados de cobre do iodo que envolvia seus machucados. O vestido voava e voava a menina e os seus cabelos despenteados, enrolados em uma trança que já não se distinguia. Encontrava o ponto mais alto e ficava nas pontas dos pés, queria ver além. Quem sabe não surgia por detrás dos montes um cavalo branco com uma crina alva e escovada, e nele um belo rapaz de cabelos brilhosos, sorriso branco, oferecendo-lhe a mão enluvada e tomando-a para si, como quem colhe um fruto genuinamente bom e suculento de uma árvore frondosa no meio do campo. 

Com o passar do tempo, descobriu, sem querer descobrir, que príncipes não existiam, ou se existiam escondiam-se dela. Entregou-se ainda na juventude aos poucos encantos de um rapazola franzino, polaco, de falar enrolado, cabelos partidos ao meio, cambaio. O tempo trouxe a vidinha que tanto queria. A casa coberta de panos que se esmerou em bordar, a rotina tão agradável. Levantava cedo e fazia café para o marido, lavava as roupas e depois as engomava, a casa sempre organizada, os móveis lustrosos, um bolo fumegante  no centro da mesa sempre esperando o retorno do amado. Às vezes, quando tinha tempo para si, gostava de ir até a janela e ficar sonhando, relembrando os tempos de menina. 

Tão logo descobriu que se tornara azeda a vidinha agradável. O marido chegava suado, deixava as botas e as meias jogadas na porta, tomava banho e deixava a toalha pingando na cama, andava pela casa em passos pesados arrastando os chinelos. Só agora reparava que o tempo lhe deu boas camadas de tecido adiposo, e percebia isso porque ele fazia questão de andar pela casa sem camisa. À noite, deitava preguiçoso no sofá, deixando aparecer um longo tufo de pelos debaixo do braço que se alastraram pelo peito e barriga. Ela olhava a cena, balançava a cabeça, mas amava tudo isso. Até mesmo suportava o jeito bronco do marido. Passava por ele com olhos cheios de ternura e ele sorria cheio de si, dando-lhe um tapa no traseiro e chamando-a de “minha muié”.

O tempo também lhe trouxe o filho para lhe povoar e modificar o corpo, e agora andava sempre pela casa com uma extensão de si mesma pendurada na barra do avental. A criança a exigia para si, e logo o marido ficou descontente. Quando chegava o café estava frio e faltava a mistura, os panos bordados eram substituídos por lenços, fraldas e brinquedos. A mulher estava sempre cansada. Ele começou a reclamar. “O café está frio”. A mulher ficava calada, às vezes, se desculpava, outras vezes falava que não teve tempo. “Mas que tanto tempo te falta se você não trabalha, não faz nada!?” A mulher se aborreceu. Arrumou um trabalho e colocou o filho em uma creche. Amigos, familiares e conhecidos comentavam: “Que tipo de mãe deixa o filho tão novo na creche?! Pobrezinho!” … “Coitada!”… 

O coitadismo que ouvia começou a irritá-la. Trabalhava pela manhã, à tarde estava cansada, mas não podia estar, a casa exigia dela. Limpava tudo e quando percebia o dia já havia passado, era hora de pegar o pequeno e ainda não havia terminado todas as tarefas. Embalava a criança nos braços em um passo cansado, olhava pela janela e suspirava. Quem sabe surgiria o príncipe encantado para resgatá-la daquela vida. O mato no quintal havia crescido e se alastrava. 

O marido chegava, beijava a esposa já sem vontade, num gesto mecânico. Contava do trabalho, ela ouvia sem vontade, estava perdida dentro de si. Às vezes sentia pena dele, o coitado trabalhava tanto! Depois a pena se extinguiu entre as críticas tão comuns que ele se habituou a fazer. Queria que ela passasse sua roupa, pois ele estava cansado demais para fazer isso. Reclamava do mato no quintal, da janta que ela deixou de fazer, da roupa íntima rasgada, pois ela não comprou uma nova para ele, da fralda suja da criança, do rabisco na parede. Logo a vida agradável lhe cansou. 

Certo dia, pediu as contas do trabalho, saiu feliz, pois não gostava do que fazia. Arrumou a casa como um brinco, comprou novas roupas para o marido e para o filho e com o que lhe sobrou pode até mesmo comprar uma blusa nova para si e arrumar as madeixas. Produziu-se toda, esperando com alegria pelo momento em que o amado chegasse e notasse toda a sua mudança. Olhou pela janela o matagal e correu para capinar e rastelar toda a frente da casa. O marido ficaria contente.

Quando o marido chegou e a viu franziu a testa. Perguntou-lhe a causa de tamanha arrumação, desconfiando que a mulher havia arrumado outro homem no trabalho e por isso agora se arrumava. A mulher contestava, argumentava, logo, não aguentou. Explodiu. Tomou em mãos o rastelo que segurava, apertando-o com força, olhou para a figura à sua frente e desferiu-lhe um golpe de rastelo na cabeça. 

Profundamente indignado e ferido em seu orgulho, o homem dirigiu-se à delegacia a fim de registrar o ocorrido. Não esperava que a mulher chegasse às vias de fato. Sentou diante do delegado para narrar a situação. Suspirou e baixou os olhos. Quando ia tirar o documento de identificação da carteira para entregar ao policial, viu cair no chão uma foto antiga do casal. Pegou-a nos dedos e por um momento viajou no tempo, percebendo as mudanças que a vida e o tempo lhes trouxeram. Só agora percebia que o sorriso tão belo da esposa há muito havia se apagado. Só agora notara o quanto ela se dedicava a casa, ao filho e a ele. Só agora… Tomado de profunda ternura e culpa, percebeu tudo o que poderia ter feito por ela. Quem sabe… sua mulher tivesse mesmo razão! Olhou para o policial com os olhos cheios de lágrimas, desistiu do registro e saiu correndo da delegacia.

Coluna Lettera

por Francielly da Rosa

Francielly da Rosa é graduada em Letras Português e Inglês pela Universidade Estadual de Ponta Grossa. Atualmente, é mestranda do Programa de Pós-graduação em Estudos da Linguagem, com ênfase em estudos literários, também na UEPG. Ela é escritora, cronista e coautora do livro "Crônicas dos Campos Gerais". Descobre, entre as palavras que lê e escreve, a motivação que sustenta seu viver. Escreve crônicas, contos, poesias e, às vezes, se aventura no gênero romance. Além disso, participa de projetos de incentivo à leitura e de outras atividades culturais. Possui diversas crônicas premiadas e publicadas em jornais e sites locais. Em virtude de seu trabalho como escritora, recebeu duas moções de aplauso da Câmara Municipal de Ponta Grossa. Também foi premiada no Festival Literário de São Caetano do Sul, na categoria miniconto, sendo a única representante da cidade de Ponta Grossa.