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Quinta-feira, 22 de Fevereiro de 2024

Coluna Lettera: ‘Memórias em um céu azul’, por Francielly da Rosa

2023-06-09 às 10:05
Foto: Freepik

Memórias em um céu azul

Nós nunca estamos preparados para despedidas. Eu mesma não estava, quando aos treze anos precisei dizer “Até logo, vovó!” Nesse mesmo dia, ouvi alguém dizer que ela se tornaria uma estrela, a mais radiante lá no céu, e a ideia de imaginá-la transmutada em estrela aborrecia-me demasiadamente. Chorei. Chorei copiosas e insistentes lágrimas, que não solveram o desprazer da despedida, tampouco apagaram as palavras dela no meu aniversário do ano anterior, quando a questionei sobre a motivação de contratar um carro de som para a homenagem de mais um ciclo de minha vida. “A vó queria pedir nos teus quinze anos, mas sei que não vou chegar até lá.”  E ela estava certa.

A areia da ampulheta do tempo corre para todos nós, ainda que não possamos dizer com exatidão o momento em que ela cessará. O tempo também insistia em passar para o senhor Herculano, que, quando perguntado sobre momentos marcantes sobre sua vida, respondeu-me com uma longa pausa silenciosa. Eram as lembranças que passavam naquela íris negra contrastada no céu azul que guardava nos olhos, um azul esmaecido, o céu de uma vida inteira pontilhada nas estrelas de seus oitenta e quatro anos.

“- Conte, vô… Lembra quando o senhor veio morar aqui? As coisas que o senhor viveu…” – a neta insistia. E eu o olhava em seu silêncio, ele respondia com um sorriso breve, enquanto a memória viajava. Quem sabe as memórias que trazia consigo?! Talvez, no azul vivo daquele olhar, lembrasse de toda uma jornada, percebesse que os trilhos da vida insistiam em aproximá-lo de um destino final, um caminho muito mais próximo do que do ponto de partida.

Como um relojoeiro, desmontando o relógio antigo do tempo, ele separava as peças minuciosamente, num processo quase cirúrgico, depois, estudava-as demoradamente, observando, avaliando e suspirando. Munia-se então de suas ferramentas e ia pinçando as palavras com cuidado, não podia gastá-las indevidamente, era sábio.

A pele morena, os olhos azuis atrás de grandes pupilas pretas, os cabelos brancos, o silêncio. Quem sabe o senhor Herculano tomasse à memória os dias dourados da infância, da experiência árdua de uma vida de trabalho pesado, dos tempos em que precisava acordar pela manhã com o cantar do galo e ir buscar água no poço, do amor que descobriu no transcorrer do tempo. Ah! Sim! Ele lembrava. Sorriu, um sorriso demorado. S. Herculano montava o relógio do seu próprio tempo. Foi quando rompeu o silêncio.

“- Tem que aproveitar a vida! Tomar um vinho!”

O sorriso veio longo, um sorriso largo, um sorriso que era marca de oitenta e quatro anos. Sorri também.  Ele estava feliz, vivo, contente de sua jornada, ciente de que cada dia precisa ser saboreado como quem degusta uma boa taça de vinho. O seu olhar viajou e pude eu também viajar com ele, e viver por um instante oitenta e quatro anos, perceber a vida com o silêncio e um sorriso.

Naquele momento, éramos transportados a uma manhã ensolarada, e puxamos, nós dois, cada qual uma cadeira na varanda de uma casinha rústica que vizinhava com um campo verde, florido. Ele me dizia, nas curvas daquele olhar silencioso, que todo aquele campo em extensão era a sua vida.

O sol alto no céu azul. Um céu só dele, um céu que ele dividiu comigo. Percebi o tempo sem que o tempo passasse para nós. Guardei o meu caderno de anotações, sorri. Quem sabe todos nós também teremos um extenso campo florido para contemplar nos anos sábios do nosso tempo percorrido. Quem sabe também nós poderemos saborear um novo dia com uma taça de vinho em mãos, e, até, quando for chegada a hora, acolher a morte como uma velha amiga.

Coluna Lettera

por Francielly da Rosa

Francielly da Rosa é graduada em Letras Português e Inglês pela Universidade Estadual de Ponta Grossa. Atualmente, é mestranda do Programa de Pós-graduação em Estudos da Linguagem, com ênfase em estudos literários, também na UEPG. Ela é escritora, cronista e coautora do livro "Crônicas dos Campos Gerais". Descobre, entre as palavras que lê e escreve, a motivação que sustenta seu viver. Escreve crônicas, contos, poesias e, às vezes, se aventura no gênero romance. Além disso, participa de projetos de incentivo à leitura e de outras atividades culturais. Possui diversas crônicas premiadas e publicadas em jornais e sites locais. Em virtude de seu trabalho como escritora, recebeu duas moções de aplauso da Câmara Municipal de Ponta Grossa. Também foi premiada no Festival Literário de São Caetano do Sul, na categoria miniconto, sendo a única representante da cidade de Ponta Grossa.