Quinta-feira, 09 de Dezembro de 2021
foto: Clebert Gustavo

Coluna Lettera: ‘Questão de tempo’, por Francielly da Rosa

24/10/2021 às 10:00

No silêncio do meu quarto, a solidão arrebata-me a psique, e ali, contemplo minha incompletude e pequenez. O tempo nos corrói, e nesta façanha que é a vida, emaranhamo-nos. Na quietude do cômodo, viajo, sonho, embarco em uma calma retrospectiva, então percebo que não sou quem era ontem, e amanhã serei outra pessoa.

Ali, naquele momento, faço planos, rabisco algo no papel, espreito o céu e sua mescla de cores divinas. Diariamente o mesmo espaço celeste consegue ser tão diferente e belo, abóbada celeste em que repousam nuvens alvas, berço daqueles que sonham, lar de olhos brilhantes e admirados. Imagino que lá de cima, eu, mero cisco, sou também observada. Ah! Quem sabe os mistérios que jazem no cosmos!

Observo o tempo passar… Como o tempo passa! O café esfria, os amores se renovam, as feridas se curam e renascemos, assim como o céu que todo dia se apaga, depois surge em cores extraordinárias. Ainda, à noite, podemos contemplar as pequenas luzes acesas, lares dos pirilampos, e refúgio dos poetas e sonhadores.

Em meio ao meu devaneio, volto a rabiscar, escrevo, apago, amasso a folha, começo novamente, processo que se assemelha à vida, se assim pensarmos, num grande ciclo de renovações. Envoltos na areia do tempo não nos damos conta da efemeridade de nossa existência, ou quando damos, às vezes, é tarde demais.

Nesse momento deparamos com a ansiedade diante de um futuro incerto e tornamo-nos seres reflexivos que, ante a solidão e o medo, refazem seus passos, de modo a cumprir tudo o que não foi feito até então. O tempo, que era tão longo, torna-se curto; anos passam num piscar de olhos, a vida desabrocha, perde suas preciosas pétalas e,  por vezes, restam apenas arrependimentos.

Em nossa inferioridade, abarrotados pela rotina, sempre almejando o que não temos, frequentemente, deixamos de nos ater ao agora e admirar as pequenas belezas da vida, que, se fossem citadas aqui, alongar-se-iam em infinitas possibilidades. Deixo para você, caro leitor, a tarefa de pensar sobre isso. Tudo é questão de tempo e de como você o aproveita.

Por isso, antes que o dia termine e os olhos se fechem para sempre e você não consiga  dizer o que sente, ouvir sua música favorita, admirar as cores do céu, ou provar uma nova comida, viva o hoje! Sorria hoje! Enquanto há chance, enquanto há tempo para desfrutar do prazer de viver e amar como se não houvesse amanhã, pois, o amanhã talvez não chegue… tudo é questão de tempo e ninguém sabe quanto tempo tem!

Coluna Lettera

por Francielly da Rosa

Francielly da Rosa é formanda do curso de Letras, pela Universidade Estadual de Ponta Grossa. Professora, cronista, coautora do livro Crônicas dos Campos Gerais. Participante de projetos de incentivo à leitura (Bando da Leitura), e declamação de poesias nas escolas do município de Ponta Grossa, trabalhando, também, com temáticas raciais, no projeto: "Nas teias de Ananse: Biblioteca de Narrativas Afro-indígenas Brasileiras e Africanas na escola", tendo, de igual modo, diversas crônicas premiadas e publicadas em jornais e sites locais. Recentemente foi premiada no Festival Literário de São Caetano do Sul, categoria miniconto, sendo a única representando o Paraná e a cidade de Ponta Grossa.