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Terça-feira, 27 de Fevereiro de 2024

Coluna Lettera: ‘Saúde!’, por Francielly da Rosa

2022-01-30 às 08:45

Saúde!

Tive o desprazer de manifestar, nas últimas semanas, sintomas da nova chaga que devasta os quatro cantos do mundo. Dirigi-me até o pronto atendimento e por lá permaneci longas e duras três horas. Ainda tenho em meus olhos a face pálida e cansada daqueles enfermos. Em meus ouvidos ainda ecoam as inúmeras vozes que, ao bom ouvinte, relataram, quase todos, os mesmos sintomas. A cabeça exausta, aos rodopios, mal podia deixar-me a sós com meus próprios pensamentos, mas ainda pude ouvir aquelas vozes, ver aqueles rostos, e o descontentamento geral que manifestavam pela demora de atendimento.

Em outras circunstâncias, estaria absorta em alguma leitura de um pequeno livro para passar o tempo, porém, no fundo da bolsa, contemplei apenas a foto horrível do RG e os outros documentos. Era uma das raras ocasiões em que o deixei em casa, e tanta falta  fez o companheiro de sempre. Nenhum panfleto, nenhum papelzinho sequer em que pudesse reter os olhos e afastar, mesmo que dificultosamente, o mal-estar que pairava sobre minha cabeça. Em falta de maior entretenimento, dediquei-me a estudar aquelas pessoas tão curiosas.

Eram doentes de todos os tipos: os que declaradamente tinham sintomas muito leves, talvez atingidos por uma gripe comum, porém, claramente estavam ali pelo atestado. Outros visivelmente doentes e cansados, fato confirmado pela postura em que estavam sentados nas poltronas, e as marcas escurecidas ao redor dos olhos. Talvez os piores  doentes que observei foram os impacientes e ansiosos. Eram pessoas entrando e saindo várias vezes seguidas, fazendo qualquer gesto com as pernas ou mãos que nitidamente comprovavam sua agitação e ansiedade. No pior dos momentos, os impacientes levantaram a voz e agrediram verbalmente os atendentes, exigindo atendimento prioritário, com base em alegações que levavam em conta o “nível” de seu mal-estar.

A verdade é que doente não tem tempo para discutir, tão pouco desrespeitar outra pessoa que tão gentilmente atende um público de mais de cinquenta pessoas, expondo-se ao risco iminente de contágio. Muitos deles já se contaminaram, alguns provavelmente estavam em casa naquele momento, afastados do trabalho pela doença, o que gerou a diminuição do quadro de funcionários, e, consequentemente, a demora no atendimento.

Não é preciso estudos avançados para observar o comportamento humano e compreender algumas coisas, mas o que mais me intriga é um fator talvez indiscutível. Com as festas de final de ano o número de casos suspeitos aumentou consideravelmente, assim como aumentaram as viagens, festinhas, e inúmeros estabelecimentos comerciais lotados. Será que as pessoas esqueceram que o risco ainda existe ou elas simplesmente não se importam mais? Talvez as pessoas tenham se acomodado ao fato de poder usufruir de um sistema de saúde público e gratuito que irá socorrê-las ao primeiro sintoma.

Recostei-me na poltrona. Em meus pensamentos passeavam uma série de afirmações, deduções e fatos absorvidos daquele ambiente agitado. Conclui que o que nos falta não são mais funcionários da saúde, mas empatia, respeito e cuidado. Cuidar de si é cuidar do outro!  Minha rotina, que já era normalmente restrita aos cômodos de casa, com saídas apenas em necessidade e tomando todos os cuidados, fez-se ainda mais enclausurada.

Hoje completo dez dias longe do meu filho, ouço os vizinhos em festas que prolongadamente perturbam-me os ouvidos. Alguém não se cuidou e o mal recai sobre todos nós.

Coluna Lettera

por Francielly da Rosa

Francielly da Rosa é graduada em Letras Português e Inglês pela Universidade Estadual de Ponta Grossa. Atualmente, é mestranda do Programa de Pós-graduação em Estudos da Linguagem, com ênfase em estudos literários, também na UEPG. Ela é escritora, cronista e coautora do livro "Crônicas dos Campos Gerais". Descobre, entre as palavras que lê e escreve, a motivação que sustenta seu viver. Escreve crônicas, contos, poesias e, às vezes, se aventura no gênero romance. Além disso, participa de projetos de incentivo à leitura e de outras atividades culturais. Possui diversas crônicas premiadas e publicadas em jornais e sites locais. Em virtude de seu trabalho como escritora, recebeu duas moções de aplauso da Câmara Municipal de Ponta Grossa. Também foi premiada no Festival Literário de São Caetano do Sul, na categoria miniconto, sendo a única representante da cidade de Ponta Grossa.