Segunda-feira, 19 de Abril de 2021
foto: Clebert Gustavo

Autor de livro sobre o Paraná, jornalista Diego Antonelli lista seis curiosidades da história do estado

04/10/2020 às 15:55

“Correu muito sangue nesta terra para se formar o que hoje é o estado do Paraná”. A afirmação é do jornalista Diego Antonelli, natural de Palmas e formado em Jornalismo pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Autor do livro Paraná: Uma História (Arte & Letra, 2016), Diego se dedica desde 2006 a estudar a história do estado e a influência das diversas etnias que o compõem. E, com o passar dos anos, ele descobriu fatos que nem sempre aparecem nos livros escolares. “Eu sempre senti a carência de a história do Paraná não ser muito contada e discutida. Anos mais tarde, eu conversava com pesquisadores e ia descobrindo diversas histórias que a gente não trata no nosso dia a dia, e era como se eu estivesse descobrindo tesouros”, relata. Para compartilhar esses tesouros, Diego produz livros e reportagens que mostram episódios de uma história quase secreta do Paraná. Confira, a seguir, seis desses episódios.

1) O GRITO DE UM HOMEM SÓ

Até o século XIX, o Paraná era comarca do estado de São Paulo, e o descaso da capitania vinha despertando o descontentamento de parte da população. Em 1821, o capitão Floriano Bento Viana aproveitou que as principais autoridades estavam reunidas em uma praça de Paranaguá para pedir a separação da capitania paulista. “Havia todo um plano traçado por um grupo que buscava a emancipação da comarca, e o Bento Viana tinha sido escolhido para falar, mas foi abandonado pelos colegas. Foi uma traição. Ele só não foi punido porque era benquisto pelas autoridades da época e o Império gostava do trabalho dele”, explica Diego. Apesar da traição, o grito solitário de Bento Viana foi o pontapé inicial para que, três décadas mais tarde, o estado se emancipasse.

2) NAVIOS NEGREIROS E CANHÕES NO LITORAL

No Brasil, a importação de escravos foi proibida em 1830, mas isso não impediu que a prática continuasse. Duas décadas mais tarde, a Inglaterra resolveu fiscalizar com mais rigor o tráfico de escravos, resultando em uma perseguição a quatro embarcações brasileiras, no litoral paranaense, pelo navio inglês Cormorant. Para não ser apreendido, um dos barcos foi afundado pelo próprio comandante. “O assunto é polêmico. O motivo dessa perseguição é que os barcos estariam sendo usados para traficar escravos, porém nada foi encontrado durante a abordagem. Somente mais tarde foi comprovado que os navios haviam desembarcado cerca de 3 mil escravos ao longo da costa brasileira”, aponta Antonelli. A ação gerou revolta, e um grupo de guerrilheiros foi até a Fortaleza da Barra, na Ilha do Mel, para combater o Cormorant. O navio inglês foi recebido com balas de canhão em uma troca de tiros que durou 30 minutos. O conflito deixou um marinheiro morto e só acabou quando a embarcação inglesa saiu da mira dos revoltosos.

3) O IMPOSTO DA DISCÓRDIA

Ao perceber que a receita arrecadada seria menor do que o previsto, o governador da então província do Paraná, Carlos Augusto de Carvalho, estabeleceu um imposto de 1,5% sobre as rendas. A medida enfureceu comerciantes e transformou Curitiba em um palco de guerra entre os dias 27 e 30 de março de 1883. “Como forma de protesto, os comerciantes fecharam as portas e começaram a convocar a população para ir às ruas contra o aumento do imposto. Após diversas tentativas de acordo, os manifestantes marcharam em direção ao palácio do governo proferindo palavras de ordem. Houve um confronto com a polícia e disparos de armas de fogo. Diversas pessoas ficaram feridas e outras foram presas”, relata o jornalista. O episódio ficou conhecido como ‘Motim do Vintém’ e foi determinante para que o governador entregasse o cargo. O imposto, porém, foi mantido.

4) GUERRA POR TERRA EM PORECATU

Na década de 1940, o governo prometeu ceder lotes de terra onde hoje fica o município de Porecatu aos que se aventurassem a desbravar a região. A promessa não foi cumprida e os posseiros se revoltaram quando viram as suas terras serem distribuídas a grandes fazendeiros, empresários e aliados políticos. Usando táticas de guerrilha, eles resistiram aos mandados de reintegração de posse e permaneceram no território. “Mesmo em menor número, os posseiros se distribuíam estrategicamente na mata para poder fugir das tropas militares enviadas pelo governo, vigiar as estradas e promover a expulsão dos que não apoiavam os posseiros”, conta Diego. O conflito só se encerrou em 1951. Estima-se que pelo menos 20 pessoas tenham morrido nos confrontos.

5) O LEVANTE DOS POSSEIROS

Ainda nos anos 50, o interesse em povoar o sudoeste do estado com companhias de terra foi novamente motivo de disputa. O movimento ficou conhecido como ‘Levante dos Posseiros’, durante o qual manifestantes chegavam a pé, a cavalo ou em caminhões para ocupar as cidades e enfrentar as companhias. “Uma grande coincidência nesses dois episódios [este e o de Porecatu, mencionado anteriormente] é o governo da época. Historiadores atestam que o governador Moisés Lupion era sócio das companhias de terra e tinha interesse financeiro na região”, aponta o jornalista. O ápice do movimento ocorreu em 1957, quando cerca de 6 mil posseiros tomaram a cidade de Francisco Beltrão e expulsaram as companhias colonizadoras.

6) QUEBRA-QUEBRA E GREVE DE CARNE

Em 1952, logo após a Segunda Guerra Mundial, a carne se tornou um produto escasso em boa parte do território brasileiro. “O Paraná, em si, não teve falta de carne, mas os açougues aproveitaram para estipular preços muito acima do que a população estava acostumada”, revela Antonelli. A alta no preço enfureceu as donas de casa curitibanas, que pararam de consumir carne e optaram por ovos e verduras. A revolta, entretanto, não ficou só no boicote. “Teve quebra-quebra pelas ruas da capital, com direito a armas de guerrilha, como o coquetel molotov”, acrescenta. A revolta durou aproximadamente um ano e se espalhou por cidades de Minas Gerais, São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Paraná: Uma História (Arte & Letra, 2016), de Diego Antonelli

Por Michelle de Geus | Foto: Divulgação