Quinta-feira, 09 de Dezembro de 2021
foto: Clebert Gustavo

Desenhista de PG faz retratos impressionantes usando apenas caneta Bic; veja imagens

29/11/2020 às 14:52

O que Barack Obama, Janis Joplin, Robert de Niro, Keith Richards e Jimi Hendrix têm em comum? Além da fama, é claro, todos eles já foram retratados pelas canetas do artista ponta-grossense José Ricardo Widelski. Há três anos, ele começou a se aprimorar em uma técnica não muito comum e que precisa de muita prática e talento para chegar à perfeição, como se pode ver nas imagens que ilustram esta matéria.

Paciência também é fundamental. Widelski trabalha apenas com caneta esferográfica azul, preta ou vermelha, da tradicional marca Bic, o que faz com que ele leve de 40 a 50 horas para concluir cada obra(-prima, diga-se de passagem). “Não vejo as minhas obras com tanta perfeição, sempre acho que dá para ficar melhor. Porém, não fico me cobrando tanto igual quando eu desenhava a lápis, se não já abandono de novo”, confessa.

O gosto pelo desenho vem desde criança. Nascido em Ponta Grossa, ele morou em Curitiba dos três aos 27 anos. Certo dia, passando pelo Calçadão da Rua XV de Novembro, na capital, ele parou para ver um rapaz que estava comercializando os seus trabalhos. “Passou um filme na minha cabeça. Cheguei em casa e queria desenhar, mas, infelizmente, não tinha dinheiro nem para comprar um lápis”, relembra. Foi então que a irmã, Michele Widelski, tida por ele como a sua maior incentivadora, comprou papéis e lápis para que o irmão pudesse expressar toda a sua criatividade.

Na época, ele chegou a receber uma encomenda de uma amiga da irmã para desenhar os pais dela. “Me lembro até hoje que ganhei R$ 60,00 pelo desenho, mas acabei deixando de lado a arte”, conta. Quando retornou a Ponta Grossa, em 2005, a arte voltou a encontrá-lo. Por incentivo e patrocínio de um médico da empresa onde trabalhava, Widelski começou a frequentar a Academia Universal. Com a sua saída do emprego, ele também se desligou da escola, mas mantém contato até hoje com ex-alunos e ex-professores, se reunindo uma vez por mês para desenharem juntos.

Neste período, as suas obras ainda eram feitas a lápis. “Mas essa técnica nunca me satisfazia. Antes mesmo de finalizar os desenhos, eu os rasgava”, conta. Novamente ele estava abandonando a arte, até que pegou uma caneta e “foi satisfação aos primeiros riscos”.

Pouco mais de um ano depois, em meados de 2018, José Ricardo foi até à Estação Arte com a sua pasta de desenhos feitos à caneta em busca de um curso para aperfeiçoar a técnica. Ele saiu de lá sem o curso, mas com uma exposição agendada pela chefe do Setor de Artes Visuais da Fundação Municipal de Cultura (FMC), Mariângela Digiovanni. “Confesso que fiquei em choque, mas aceitei o desafio. A exposição ‘Faces do Azul’ foi um sucesso tão grande que a Estação Arte teve que abrir aos sábados para dar conta das visitas”, relata.

Faces do Azul
Com uma técnica que mistura o realismo com o inacabado, Widelski surpreende pela precisão dos traços, que mostram as expressões das pessoas que ele retrata. O seu primeiro desenho à caneta foi do pequeno Michael Jackson, ainda integrante do grupo The Jackson Five. A partir daí, a sua principal inspiração são crianças negras. “O que mexe comigo é a história e o sofrimento delas. Muitas vezes fico emocionado quando reproduzo essas crianças. Procuro focar no olhar, que nos fala muitas coisas”, reflete.

Por falar nisso, o seu sonho como artista é colocar em prática um projeto para crianças carentes, intitulado ‘Papel e Caneta na Mão’, que tem como objetivo incentivar pequenos talentos em comunidades periféricas.
Após o sucesso da exposição na Estação Arte, um ano depois ele foi convidado a expor na galeria do Premium Vila Velha Hotel. Desta vez, Widelski intitulou a sua exposição de ‘Reproduções’, para rebater algumas críticas que recebeu de outros artistas locais. “Falaram que o que eu fazia não era arte, e, sim, cópias. Mas eu não ligo para as críticas. Na verdade, elas só me fortalecem”, afirma.

Inspiração
Com 42 anos de idade, José Ricardo é uma inspiração para o seu filho Pedro, de sete anos, que já sonha em se tornar artista como o pai. “Confesso que fico emocionado quando vejo o meu filho querendo seguir o meu caminho. Ele já fala com convicção que vai ser artista. Eu incentivo e apenas cobro que estude. Deixo ele à vontade para desenvolver a sua técnica, sem regras”, diz.

Mesmo produzindo obras surpreendentes, Widelski não vive da arte. Porém, as tintas e cores fazem parte do seu cotidiano: ele trabalha como pintor de casas há mais de 20 anos. Diz ele que, antes dessa entrevista, nunca tinha parado para pensar aonde quer chegar com o seu trabalho artístico. “Deixo que as coisas vão acontecendo naturalmente. Só espero estar preparado para o que está por vir”, afirma.

Por Eduardo Godoy | Imagens: Arquivo Pessoal