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Sábado, 24 de Fevereiro de 2024

D’P Artigo: “Como nasce uma cidade grande”, por Miguel Sanches Neto

2023-09-29 às 14:05
Foto: Fábio Ansolin

Como nasce uma cidade grande

 

Principalmente nasci em Ponta Grossa. 

Isso aconteceu no dia primeiro de março de 1993, quando ocupei uma vaga de professor da UEPG.

Era para ser uma estadia provisória até eu conseguir outra universidade em algum centro econômico do país. Cheguei sem vontade de lançar raízes, deixando em Curitiba esposa, livros e um quintal que eu mesmo cultivava, onde havia plantado, com minhas mãos ancestrais de agricultor, um plátano.

Mas logo fiz amizades, a cidade me abriu portas de casas hospitaleiras e sequer fui ficando porque já fiquei de vez, sem planos de partida. Orgulhosamente, comecei a pagar IPTU em endereços sucessivos – este é o salvo-conduto para habitar uma cidade.

Construí uma casa no Órfãs. Minha filha nasceu. E, quando vi, pertencia de uma maneira natural à cidade que até meses antes era apenas um ponto no mapa impresso, na era pré-GPS.

Pergunto-me: como arrisquei construir uma carreira nacional de escritor morando onde não havia editoras, feira de livros, grandes veículos de literatura, outros escritores de circulação nacional e toda esta vida literária que facilita tanto a trajetória de escritores que estão em São Paulo, Rio ou Porto Alegre? Era quase uma opção de marginalizar-me. E, no entanto, foi aqui que pude me inventar literariamente. 

Trajetória viável porque cheguei a Ponta Grossa mais ou menos na mesma época em que a internet se popularizou, com uma fase inicial de uso do fax, que ainda guardo aqui na estante – um Samsung FX 100. Não vou esquecer nunca meu endereço de e-mail provincianamente provocativo: [email protected]. Ponta Grossa até no nome do provedor. 

Era um bairrismo que me agradava. Foi com esse e-mail que mandei colaboração para os jornais e revistas que me convidaram como colaborador. Desde Ponta Grossa, fiz parte da criação da legendária revista Bravo!, em São Paulo, que reuniu uma grande equipe iconoclasta comandada por Wagner Carelli. Fui assim me tornando um escritor nacional baseado no interior, com livros publicados por grandes editoras.

– Você mora no Mato Grosso? – várias pessoas me perguntavam nesse período, talvez por confundirem a cidade com Ponta Porã.

Aos poucos, fui sendo o escritor de Ponta Grossa, com o que havia nisso de Denominação de Origem e também de equívoco, uma vez que meus livros têm como espaço central a minha mítica Peabiru. Tornar-me ponta-grossense foi apropriar-se indevidamente de uma localidade. Peço sempre licença para me apresentar como tal.

Há quem me questione sobre esse pretenso pertencimento. Por que você se diz daqui? Posso variar a fraude conforme o momento, porque um escritor nunca está contente com uma única resposta, com uma cidade, com uma vida.

Nossa verdadeira cidade natal não é onde nascemos. É onde nascem coisas boas para nós.

Porque é aqui que estão os meus livros.

Porque só pude ser escritor a partir do momento em que conquistei alguma estabilidade financeira.

Etc.

Mas é fato. Foi aqui que mais tive nascimentos transformadores. Além do empego digno, uma casa própria – sonho de todo pobre é ter emprego e casa própria. As amizades que estarão no meu velório – mas que não seja já, por favor. Os filhos com o nome da cidade na certidão de nascimento. 

Ponta Grossa não é o drummondiano retrato na parede que dói. É a pessoa ao lado que ampara. É saber-se de outro lugar e só se sentir de fato à vontade aqui. Como um exílio que nos devolve amorosamente ao sítio onde antes nunca estivemos.

Confesso. Só entrei na urbe para me inscrever no concurso da universidade. E foi ela que me deu uma identidade, a ponto de ser tratado hoje como professor, o que virou um nome próprio. Deu-me tudo. Do emprego ao empréstimo, da escrita ao escritório, dos amigos aos algozes, das rugas às rusgas, do meu tudo ao meu nada. Sempre e sempre abençoada.

– Dos qualé que eu sou? – vocês me perguntam.

Ora, ora, sou ponta-grossense por parte da UEPG. 

Tenho vivido nesta condição 15% da idade do município. Pouco em alguma medida. Muito para quem apenas queria dar um tempo até arrumar coisa melhor para fazer. A coisa melhor estava e ainda está aqui. 

Depois de uma temporada em Portugal, onde fiz o meu estágio de pós-doutorado, na migração do aeroporto de Madri, o funcionário perguntou de que parte do Brasil eu era.

Não tive dúvida: pronunciei o nome da cidade para onde eu voltava.

– Já estive lá, gostei muito das paisagens – ele me disse. E começamos uma conversa de velhos amigos.

Porque é isso uma cidade. Uma senha para aproximações. Por isso sempre busquei conhecer a história de pessoas, frequentar lugares antigos, contemplar prédios centenários, em uma busca de permanente infiltração amorosa. Sou a testemunha afetiva de um tempo que não me pertenceu e que, no entanto, também é meu.

– Mas esta sua Ponta Grossa não tem problemas? – me pergunta um ou outro.

Claro que sim, e sei bem a dimensão deles. São tantos que acabamos chamados, você e eu, para ajudar a diminuí-los. Porque só pode elevar o dedo em riste quem também estende mãos generosas. Se critiquei tanto a maneira de administrar a universidade, era minha obrigação passar pela prova de propor uma universidade diferente, mais próxima da comunidade. E isso foi me empurrando para cargos e encargos, que me enredaram e me roubaram o tempo que eu sonhava dedicado apenas à literatura. 

Deu no que deu. Tornei-me poeta e reitor. O primeiro adventício a ocupar o cargo, não sem enfrentar muita e suja resistência. Não sem provocar protestos e cartas ofensivas contra a minha ousadia de falar da e pela cidade.

O fato é que, amado ou apenas suportado, aqui estou, prestações de IPTU em dia, como se pode comprovar pela certidão negativa de débitos, comemorando os 200 anos da cidade, embora ela tenha o seu marco temporal na Capela Santa Bárbara, que é de 1727. 

Ali é para mim o centro histórico de Ponta Grossa. Quando posso, vou até o seu pátio, sento em um dos bancos, à sombra de árvores silenciosas, e penso nos jesuítas ocupando o território que ainda pertencia à Espanha e já sonhando uma conexão cosmopolita, que atraísse mais gente.

As cidades nascem principalmente com aqueles que escolhem se mudar para ela, mesclando, aumentando, tornando vívida uma paisagem que antes era de campos desertos e sesmarias. 

 

Miguel Sanches Neto nasceu em 1965 em Bela Vista do Paraíso (norte do Paraná) e passou a infância em Peabiru. É escritor, professor e atual reitor da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG)