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Quinta-feira, 22 de Fevereiro de 2024

“Não tenho nada contra a Anitta mas ela é entretenimento, precisamos nos preocupar com a cultura”, afirma a produtora musical Vera Ludmila

2023-11-25 às 16:03

“Mais de 60% dos brasileiros que moram aqui nos EUA votaram no Bolsonaro, então foram anos muito ruins para a imagem do Brasil na minha opinião”, ressalta a produtora

Em bate-papo exclusivo durante o programa Ponto de Vista, apresentado por João Barbierona Rede T de rádios do Paraná, na manhã deste sábado (25), a produtora musical Vera Ludmila Vanatko comentou sobre o cenário atual da música brasileira.

Vera é defensora da cultura brasileira nos Estados Unidos e está à frente da agência musical ‘Vera’s Heartbeat Music’, além de participar de um bate-papo exclusivo sobre cultura, música e entretenimento, direto de Los Angeles (EUA).

Origem e começo nos EUA

A produtora comenta que é filha de um pai tcheco (nascido na República Tcheca) e nasceu no Rio de Janeiro, em 1956, tendo a vivência desde criança nas praias de Copacabana, Ipanema e Arpoador. “Nos anos 60, eu vivia na praia jogando futebol, vôlei e estudando no Colégio Mello e Souza, que era um dos melhores de Copacabana”, destaca. “Na minha casa sempre tiveram festas em todos os finais de semana, porque meu pai convidava seus amigos, que eram imigrantes europeus. O meu avô ajudava muitos imigrantes a entrarem no Brasil, após a Segunda Guerra Mundial”, explica.

Ela também pondera que a cultura sempre se fez presente em sua vida. “A música, o amor, carinho, beleza, cultura e leitura de livros sempre estiveram presentes na minha vida. Quando queriam me deixar de castigo era apenas não me deixar ler as obras de Monteiro Lobato”, ressalta.

Ela assegura que o que a motivou ir para os Estados Unidos pela primeira vez foi o jazz. “No primeiro festival de jazz, em 79 e 80, eu me apaixonei e fui para Nova York. Através da música, eu conheci muitas pessoas na cidade e assim começou a minha história na música em solo estadunidense”, afirma.

Ela pontua que chegou ao país nos anos 1980, em Nova York, e permaneceu na cidade até 1984. “Em 1985 eu fiquei alternando entre Nova York e Los Angeles, e a partir de 1986 eu me mudei para Los Angeles e permaneci na cidade até hoje”, recorda.

Visão do estadunidense sobre o brasileiro e cultura musical brasileira

Vera acredita que o período em que o ex-presidente Jair Bolsonaro esteve no poder foi prejudicial para a imagem do país. “Mais de 60% dos brasileiros que moram aqui votaram no Bolsonaro, então foram anos muito ruins para a imagem do Brasil na minha opinião. Nesse período deixei de falar com muitas pessoas, porque eu não admito e essa não é a minha praia”, explica a produtora. “Realmente foram anos muito difíceis”, complementa.

A produtora comentou que também passou por momentos difíceis relacionados à música brasileira atual em algumas reuniões. “É muito difícil você estar em uma reunião em que quatro pessoas conversam sobre a música brasileira e nenhum deles realmente se sente orgulhosa de estar trazendo o melhor da música brasileira”, pontua.

Ela também disse que se sente revoltada quando alguém destaca a cantora Anitta como o que tem de melhor na música do país. “Isso é um absurdo e eu fico revoltada com um comentário desse, porque não é o que temos de melhor. Com tantas pessoas e músicas novas vindo do Brasil, através de cantores brilhantes, é um absurdo que essa seja a nossa principal referência”, ressalta.

Vera afirma que quando chegou aos Estados Unidos a música brasileira era muito sofisticada e respeitada. “Milton Nascimento, Djavan e João Bosco eram alguns nomes que possuíam muito respeito por aqui. Sérgio Mendes é até hoje também muito respeitado e lota um Hollywood Bowl“, acrescenta.

A associação da cultura brasileira com somente a caipirinha e mulheres malhadas é outro aspecto que incomoda a produtora. “As mulheres brasileiras são incríveis, fortes, batalhadoras, inteligentes, mães, tias, avós, sobreviventes e lutadoras. Quando alguém associa aqui o Brasil à ‘caipirinha e bunda’, não podemos aceitar e eu fico muito revoltada”, pondera. “E isso acaba sendo fruto da imagem que o Brasil vende de si, e é essa imagem que o país está exportando”, diz.

“O Brasil precisa se preocupar em exportar cultura”

Vera pontua que o Brasil possui inúmeras qualidades em relação à sua cultura, e é importante que faça com que isso seja visto também no exterior. “O Brasil precisa se preocupar em exportar cultura em todos os níveis, porque é isso que está faltando. Essa exportação cultural deve acontecer em arte, cinema, música, palestras, informações e afins”, aponta. “Um reflexo disso é o desmatamento na Amazônia, o Rio de Janeiro com esse calor extremo e esses conceitos devem ser revistos. Existe uma diferença entre diversão e cultura, e o brasileiro por vezes se preocupa muito com a diversão, carnaval e afins, e acaba se esquecendo de exportar cultura. Quando começaremos a fazer isso bem feito?”, questiona.

A produtora ainda acredita que o entretenimento está vulgarizando a cultura em nosso país. “Um reflexo disso é a Anitta ser a nossa representante. Eu não tenho nada contra a cantora Anitta, porque ela é uma mulher que se esforça bastante. O meu questionamento é em relação a ela estar sendo a nossa principal representante no exterior, sendo que ela não me representa e eu não sei a quem ela representa de fato”, pondera. “Eu converso muito com o público jovem e eles tentam me explicar a importância que o movimento do funk possui, e eu entendo que é a linguagem que vem das comunidades e favelas do país e isso tudo é válido. Porém a exploração de ‘palavrões’ e situações sexuais nas letras não é algo que considero válido”, complementa.

Novos caminhos para a cultura do país

Ela acredita que o governo Lula pode dar novos caminhos para a cultura do país e auxiliar nesse processo de valorização de artistas e afins. “Eu espero que nosso presidente [Luiz Inácio Lula da Silva] possa dar continuidade ao que está fazendo, dando novos caminhos e ritmos para que a cultura volte a ser um ponto fundamental na vida da população brasileira”, assegura Vera. “Esse é um ponto de extrema importância, porque as pessoas não compreendem de modo geral que se acabar a cultura, tudo se perde. Nós precisamos preservar as coisas, porque se não o fizermos daqui a 100 anos tudo pode ter acabado, e isso também acaba influenciando nas questões climáticas como a preservação da Amazônia e afins [que o atual governo está resgatando]”, finaliza.

Confira a entrevista na íntegra através dos dois blocos:

Bloco 1

Bloco 2