Domingo, 24 de Outubro de 2021
foto: Clebert Gustavo

Artigo: A resposta da Universidade à crise energética, por Everson Krum

09/07/2021 às 14:12

Há uma clara impressão de que o Brasil voltou no tempo em duas décadas (ou mais). Desde 2021, nosso país tem passado por problemas que há muito pareciam superados, como a evasão na vacinação de doenças até então erradicadas e agora enfrentamos um problema de crise hídrica e energética que nos faz lembrar o ano de 2001. Diante deste cenário de retorno a problemas já conhecidos, qual é o papel da Universidade?

No primeiro caso, a queda na vacinação contra várias doenças, como sarampo e poliomielite, tem explicações culturais. O acesso inadequado à informações falsas sobre vacinas têm feito uma geração de pais e mães acreditarem que a vacinação colocaria os filhos em risco. Neste cenário, o papel da Universidade se dá em duas frentes: a primeira é conseguir convencer essa parcela da população sobre a importância da ciência, através de uma comunicação mais direta, e a segunda é a de seguir formando profissionais capazes no campo da saúde para enfrentar o desafio.

Dito isso, o segundo desafio parece ser aquele mais profundo do ponto de vista estrutural. Em 2001, o Brasil viveu assombrado pelo medo do “apagão” causado pela crise hídrica (pouca chuva e muito consumo de água) e a crise energética (pouca produção de energia em hidrelétricas e necessidade de recorrer às termelétricas). Não podemos ficar dependentes somente de uma matriz energética, precisamos ter mais opções e alternativas sustentáveis. Diante deste cenário, o papel da Universidade é ainda mais importante.

Acredito que a Universidade tem papel de vanguarda, ou seja, deve liderar movimentos paradigmáticos e que mudem como fazemos e pensamos coisas comuns da vida. Neste caso, a primeira atitude a se adotar diz respeito à implementação de mecanismos de produção de energia alternativa no ambiente universitário – é preciso que o exemplo e as alternativas venham da Universidade e atinjam, pouco a pouco, a nossa sociedade.

Neste caso, o primeiro passo poderia ser a implementação de um sistema de energia fotovoltaica, aquela produzida por partículas de luz solar em colisão com átomos de silício, estes últimos presentes em painéis solares. Isso representaria um investimento considerável, em um primeiro momento,  economia considerável a curto e médio prazo para os cofres públicos, além de servir como exemplo.

Com a implementação de um sistema como esse, por exemplo, poderíamos enfrentar um outro problema: a falta de estacionamentos cobertos. A instalação de sistemas como esse de captação de energia fotovoltaica nos traria uma diminuição muito considerável nas contas de energia, sem falar da solução do problema do estacionamento (em dias de chuva ou sol extremo).

A proposta pode parecer futurista, mas não é. Precisamos agir agora porque as mudanças climáticas estão ocorrendo a cada ano. No Brasil e no mundo as universidades sempre foram sinônimo de inovação e desenvolvimento, não podemos mais deixar esse papel de lado. Por mês, gastamos mais em contas de luz do que gastaríamos com a instalação de um sistema do tipo fotovoltaico. Além disso, as contas de luz diminuiriam e o excedente da energia fotovoltaica poderia ser revendido à Companhia Paranaense de Energia (Copel).

Vale ressaltar que a COPEL tem editais públicos para seleção de financiamento de projetos de eficiência energética que contemplem entidades públicas (modalidade conhecida como fundo perdido) e particulares (com juros muito baixos). Em Curitiba, a UFPR já tem estacionamento coberto, os prédios da Prefeitura e do Tribunal de Justiça (TJ-PR) já possuem sistemas de produção de energia fotovoltaica.

Vivemos um momento chave no Brasil para as universidades. É preciso usar o conhecimento produzido na academia para melhorar a vida da população brasileira e também enfrentar nossos dramas mais imediatos, como a falta de variedade na nossa matriz energética. A seca do Alagados e nossos problemas de captação de água no Pitangui são sinais de que as crises energética e hídrica estão mais próximas do que imaginamos.

Por Everson Krum, vice-reitor da UEPG