Sexta-feira, 12 de Agosto de 2022

D’P Esporte: Esporte para a vida toda

20/06/2022 às 10:27
Foto: Reprodução

por Enrique Bayer

Contando com um dos raros campos de golfe do país, Ponta Grossa tem uma sólida tradição na prática desse esporte, que atrai um número cada vez maior de praticantes em busca de distração, serenidade e companheirismo

Se você pratica golfe, já deve ter percebido que não há muitas opções de campos para a prática do esporte no Brasil. Esse é um dos fatores que dificultam o crescimento do esporte no país, que viu o número de praticantes da modalidade crescer após as Olimpíadas do Rio, em 2016, quando o esporte estreou nos Jogos Olímpicos.

Em Ponta Grossa, quem busca a prática do golfe se encontra semanalmente, às quartas-feiras, no Ponta Grossa Golfe Clube. O espaço é fruto do entusiasmo da colônia japonesa na região e foi fundado no dia 30 de junho de 1982 por um grupo de oito imigrantes, moradores de Ponta Grossa e Palmeira. No início, havia nove buracos.

Em 2004, o clube finalmente se tornou um campo com medidas oficiais, quando, após outras expansões, os sócios compraram uma área adjacente, que permitiu a construção de novos buracos, possibilitando que o campo tivesse a quantidade oficial: 18.

A busca por aprimoramentos ficou mais evidente em 2013, quando o local passou a ter gestão empresarial, com a elaboração de um planejamento estratégico e a contratação de uma equipe de gerência.

O clube também foi um importante avanço na criação da Federação Paranaense de Golfe. Para que uma federação seja constituída, são necessários, no mínimo, três clubes. Na época, os dois clubes existentes no Paraná – o Curitibano e o Graciosa Country Club – eram filiados à Federação Paulista de Golfe e impedidos, portanto, de constituir federação própria. Pode-se dizer, assim, que o Ponta Grossa Golfe Clube foi o marco decisivo para a criação da Federação Paranaense, surgida em 1983.

Agora, o clube faz parte da Federação Paranaense e Catarinense de Golfe. Isso porque o estado vizinho, assim como acontecia com o Paraná antes de 1982, não tem três clubes para formar federação própria.

Democrático

Para o médico César Oda, golfista e presidente do Conselho Deliberativo do Ponta Grossa Golfe Clube, um dos encantos do esporte é o fato de ele poder ser praticado, inclusive profissionalmente, por pessoas mais velhas, como é o caso de Philip Mickelson, que em 2021, então com 51 anos de idade, tornou-se a pessoa mais velha da história a ganhar um major de golfe, o PGA Championship.

Oda, agora com 65 anos, diz que pode – e pretende – jogar golfe por, pelo menos, mais 15 anos. “Nesse sentido, o golfe é muito democrático. Acho que eu nunca vi um esporte que permita tanta diferença de idade entre os praticantes”, afirma.

Outra característica do esporte apontada pelo médico é a variedade de materiais que se usa na prática. Ele explica que, por terem mais força, os profissionais geralmente usam tacos de aço, que permitem que a bola vá mais longe. Já no caso dele, que agora é um senhor, o taco é de fibra e a base, em vez de ferro fundido, é de alumínio ou titânio, a depender do taco.

Para o médico César Oda, o golfe é um esporte democrático. “Acho que eu nunca vi um esporte que permita tanta diferença de idade entre os praticantes”, afirma

De acordo com Oda, o que afasta muitas pessoas do esporte não é, como alguns imaginam, o custo dos equipamentos, mas sim o pequeno número de campos no país – 117 no total. Apenas um deles, o do Rio de Janeiro, é público – e ainda assim é necessário pagar para jogar. Para efeitos de comparação, os Estados Unidos têm aproximadamente 16 mil campos de golfe – dos quais dois terços são públicos.

Os equipamentos, apesar de importados, são relativamente baratos, graças à sua durabilidade. Oda conta que comprou o seu atual conjunto de equipamentos há mais de dez anos. O conjunto, que inclui tacos, bolas e calçados, custou mil dólares. A expectativa é que ele dure ainda mais dez anos sem apresentar muitos problemas.

Não é incomum que, no ato da compra do conjunto, os vendedores auxiliem o jogador na escolha do equipamento. E a compra depende de muitos fatores, como idade, altura e força muscular. Tudo isso para que o material mais apropriado seja escolhido. As lojas, aliás, costumam ficar dentro dos próprios clubes – mas esse ainda não é o caso de Ponta Grossa.

Escola

O que existe no clube da cidade é uma escola para quem deseja começar a praticar o esporte. E o professor é uma referência nacional do golfe: Enzo Miyamura, natural de Curitiba, hoje com 35 anos, que já foi o amador mais bem ranqueado do Paraná e o terceiro melhor do país.

Miyamura conta que o contato com o clube local é de longa data. “Desde juvenil eu participava de torneios no clube. Ao longo dos últimos nove anos, quando trabalhei como coordenador técnico e gerente da Federação Paranaense e Catarinense de Golfe, a relação ficou melhor e mais intensa”, aponta.

A partir desse bom relacionamento, veio o convite do presidente-executivo do clube, Giuliano Bernardi, para coordenar a escola. O plano diretor apresentado foi a motivação necessária para aceitar o convite.

Na escola, as aulas são individuais, mas ocorrerá em breve o lançamento de programas de introdução ao esporte. “Queremos atender diferentes públicos – crianças, juvenis e adultos. Fornecemos o material e cobramos somente o custo da aula e das bolas de treinamento”, informa.

Desafio e autoconhecimento

Perguntado sobre o que o atrai no golfe, Miyamura rebate: “Você gosta de desafio? Gostaria de se conhecer melhor? Se a sua resposta for sim, venha conhecer o golfe. O golfe é um esporte individual, praticado em meio à natureza, que traz uma série de benefícios para a saúde e o bem-estar. O primeiro desafio é conseguir acertar a bola, algo que pode parecer simples, mas o swing [golpe] do golfe exige um trabalho que envolve toda a musculatura e as articulações do corpo”, detalha.

“O golfe é um esporte individual, praticado em meio à natureza, que traz diversos benefícios para a saúde e o bem-estar”, diz Enzo Miyamura, professor da escola de golfe do Ponta Grossa Golfe Clube

Caso a sua resposta à pergunta de Miyamura seja “Sim, eu gosto de desafio”, talvez agora seja a hora de experimentar o golfe. O esporte está crescendo no país: eram menos de 80 campos há 15 anos – agora são 117. No mesmo período, o número de golfistas praticamente dobrou e hoje são cerca de 20 mil atletas, metade deles federados.

De acordo com a Golf Datatech, empresa americana especializada em pesquisas do mercado golfe, o esporte movimentou cerca de R$ 5,3 bilhões no quarto trimestre de 2020. Conforme os dados, o golfe é um dos esportes mais praticados em todo o mundo, com 66 milhões de praticantes.

Em 2016, quando o golfe estreou nas Olimpíadas, os torneios da modalidade pelo mundo distribuíram U$ 270 milhões em premiações. No Brasil, a CBGolfe estima que o esporte movimente, direta e indiretamente, cerca de R$ 400 milhões por ano.

Saúde mental

Se precisássemos destacar uma característica marcante do golfe em Ponta Grossa, certamente seria a promoção do bem-estar. Quando perguntados sobre o impacto do esporte em suas vidas, todos os entrevistados dessa matéria citaram a boa convivência com outros praticantes da modalidade.

Miyamura, que já terminou um ano em oitavo lugar no ranking nacional de profissionais, garante que “independente de qualquer resultado, falo com propriedade que a minha principal conquista foram as amizades”.

Oda também destaca a atmosfera amigável e leve inerente ao esporte. “O golfe tem esse bom ambiente. A maioria das pessoas está realizada, no sentido de estar de bem com a vida. Nesse aspecto, o golfe é um ótimo exercício para a saúde mental”, observa.

“Fazer a tacada com serenidade é fundamental, especialmente no nível de competição. Então, dá para dizer que a concentração é tão importante quanto o físico – e é aí que ele gera emoção, adrenalina. Sendo assim, o golfe é desafiador nesse aspecto mais mental do esporte”, completa o médico.

Expansão

Manter e fortalecer o clima de amizade que o golfe e o Ponta Grossa Golfe Clube proporcionam está agora sob a responsabilidade de Giuliano Bernardi, presidente do clube. Ele conta que, apesar do nível recreativo da maioria dos praticantes na cidade, o clube já recebeu eventos internacionais. Foi o caso da primeira etapa do Gárzon Gorila Tour 2022, que contava pontos para o ranking mundial e aconteceu de 18 a 20 de março deste ano.

E o futuro do golfe na cidade é promissor. Bernardi explica que há um projeto em andamento que pretende transformar o clube em um country club – o que significa que o local pode passar a ofertar serviços como piscina, academia, sauna e quadras de tênis, squash e beach tennis.

O Ponta Grossa Golfe Clube pretende expandir o público através de iniciativas público-privadas, conta o presidente Giuliano Bernardi

Outros pontos destacados por Bernardi são a recente reforma da sede social, que agora pode receber eventos com até 250 pessoas, e a inauguração do Garden Golf, um restaurante aberto ao público e que funciona nos finais de semana.

O presidente revela ainda que o maior objetivo para o futuro é expandir o público do clube e que isso deve ser realizado através de iniciativas público-privadas. “A ideia é habilitar o clube para receber verbas de leis de incentivo ao esporte. Estamos correndo atrás dessa documentação. Isso vai fazer com que a gente amplie, por exemplo, o nosso impacto social, com mais crianças envolvidas na escola, que também é um objetivo nosso”, finaliza.

Como funciona

O jogo de golfe consiste em completar um circuito de 18 buracos usando um taco e uma bola. Ganha o jogador que completar o circuito em menos tacadas. Geralmente, estimam-se 72 tacadas para completar o curso. É por isso que as pontuações podem ser negativas (quando o jogador completou o circuito em menos tacadas do que as previamente determinadas).

Cada buraco começa com uma tacada da área do tee e termina quando a bola é embocada no green. Um tee é um suporte usado para apoiar ou elevar uma bola parada antes do golpe com o taco. O green é o local onde está o buraco.

Variam, entre os buracos, as distâncias, formatos e obstáculos (relevo, lago, bancos de areia e árvores). Por isso, a partida não tem uma duração determinada.

Normalmente, o jogo é individual, mas pode ser jogado em duplas ou até em grupos de quatro pessoas.
Para que o golfe possa ser jogado entre competidores de diferentes níveis, estabelece-se o handicap, uma vantagem no número de tacadas de acordo com a habilidade do jogador.

Quando uma bola for batida para um lugar onde não é possível realizar uma tacada – um lago, por exemplo –, cabe ao jogador estimar a trajetória aproximada da bola e colocá-la novamente em jogo, movimento geralmente penalizado com uma tacada a mais na contagem.

No golfe, os jogadores são responsáveis por aplicar as regras neles mesmos. Entre as normas de conduta do jogador, espera-se que ele jogue em “ritmo célere”, que preze pela segurança de todos e que não distraia outros jogadores. Se um jogador souber que infringiu uma regra que seja passível de penalidade e, de maneira deliberada, deixar de aplicá-la, o jogador pode ser – e geralmente é – desclassificado.

Conteúdo publicado originalmente na Revista D’Ponta #290 Junho de 2022.