Domingo, 24 de Outubro de 2021
foto: Clebert Gustavo

Artigo: Cultura, economia e distanciamento social, por Everson Krum

09/03/2021 às 14:57

É fato: para conter o avanço da covid-19 no Brasil é preciso unir isolamento social e vacinação em massa. Qualquer outra combinação não trará resultados efetivos para o principal objetivo que, neste momento, é diminuir a contaminação e, consequentemente, a demanda de pacientes que precisam de leitos clínicos e também de UTIs (Unidade de Terapia Intensiva). Mas afinal: quais motivos nos levam a tanta dificuldade em garantir distanciamento social diante de uma doença que é, notadamente, perigosa e mortal?

A minha experiência em gestão hospitalar, saúde pública e gestão pública me fazem enxergar, ao menos, dois motivos centrais: um de cunho financeiro e outro de cunho cultural. O primeiro (financeiro) diz respeito às necessidades econômicas de parte sensível da população – essa faixa da população que trabalha ou mesmo é dona de pequenas e micro empresas que foram atingidas em cheio pelo distanciamento social e pela diminuição na circulação de pessoas e isso se arrasta há pelo menos um ano.

Esse quesito econômico ganha contornos ainda mais graves quando notamos que não há apoio do Governo Federal a esses pequenos e médios empresários, muito menos aos trabalhadores informais. Não podemos pensar que o Auxílio Emergencial, aprovado por pressão do Congresso e que já é passado, possa ter representado uma política pública efetiva para sustentar o distanciamento social e seus desdobramentos econômicos em um país tão desigual quanto o nosso em 2021.

O segundo (cultural) têm raízes mais profundas na nossa formação social e também explicações de cunho psicológico. Acredito que há uma tendência psicológica de adaptação à proibição, que faz com que progressivamente passemos a discordar e questionar algumas privações, o que é ótimo no ambiente democrático, mas péssimo no cenário pandêmico. A isso se soma à falta de exemplo institucional e também um falso sentimento de segurança com o início da vacinação. É delicado cobrar do cidadão comum algo que o próprio presidente da República e outras autoridades se recusam a fazer, como usar máscara e evitar aglomerações.

Um outro fator que também influencia a questão que aqui considero “cultural” é alimentado pelas informações desencontradas e difundidas pelo próprio Governo Federal no que diz respeito ao envio de recursos para a organização prévia no combate à doença. É preciso entender que os recursos enviados pela União são pífios quando pensamos no enfrentamento de uma pandemia com um sistema público de saúde e que atinge uma parcela muito grande da população “ao mesmo tempo”.

Aos fatores culturais e sociais soma-se ainda uma outra falsa sensação: “isso não é comigo”. Em Ponta Grossa, por exemplo, apesar de termos um grande número de casos, proporcionalmente a doença atingiu até agora cerca de 6% da população (24 mil casos) e 0,12% de mortos (432) em relação a população de 355 mil pessoas da cidade. Isso nos leva a sensação de distância da nossa realidade usual, em um processo de “não é comigo” e de negação daquilo que é óbvio.

A partir destas duas esferas (econômica e cultural) e também dos quesitos que as influenciam, podemos entender os porquês de parte da população questionar o distanciamento e até mesmo a própria vacinação. Para os dois casos, a resposta está na ciência, em diferentes campos do conhecimento.

Entendo que é preciso políticas públicas econômicas para garantir sobrevivência financeira aos nossos cidadãos, ao mesmo tempo que é preciso usar outros conhecimentos científicos para conscientizar os nossos sobre a realidade que vivemos. De um lado, nossos cientistas correm contra o tempo para viabilizar a vacinação em massa, mas também é preciso usar a ciência para termos uma sociedade mais informada e consciente.

Everson Krum – Vice-reitor da UEPG e ex-diretor do HU-UEPG