Segunda-feira, 17 de Janeiro de 2022

Crônica D’P: ‘Virada de ano, mas em que esquina mudar de caminho?’, por Luiz Fernando Cheres

18/12/2021 às 11:09
Conteúdo exclusivo publicado na Revista D’Ponta #288 Nov/Dez/2021

Passaram-se mais de 15 anos, era 31 de dezembro, e na época o restaurante já funcionava neste mesmo pavimento superior. No meu horário de almoço, com o salão repleto, era impossível escolher a mesa; contudo, estou acostumado: também na vida, poucas vezes escolho meu lugar. Naquele dia vagou uma mesa perto da janela, de onde eu conseguia acompanhar o alvoroço da rua.

Apenas comecei a refeição e, do alto, vi meu pai caminhando com seus passos rápidos. Durante anos ele foi carteiro, e quem já observou carteiros sabe que eles caminham com uma solidez incomum, não oscilam ao acaso como se olhassem as vitrines, não observam corpos ou feições, à maneira dos devassos, nem dão bola para as flores, pois não são poetas e nem parecem apaixonados. No trajeto pragmático dos carteiros, tudo se dirige ao objetivo perseguido, como o movimento seguro e reto de um Deus repartindo as cartas do destino.

Almoçar e ver, do alto, o próprio pai é uma doce experiência existencial. Uma parte da gente, o nosso corpo, se alimenta aqui em cima, enquanto outra parte está lá embaixo; é o fruto contemplando a raiz que o ampara, e assim nutrimos na alma a certeza de que contamos com alguém para nos guiar nos atalhos confusos da vida.

Hoje ainda escolho o ovo malpassado. Aliás, sendo possível, prefiro o ovo apenas aquecido, quase cru, mas isso não se encontra nos restaurantes. No meu ritual, primeiro devoro as saladas. Em seguida, caprichosamente posiciono o feijão na borda do prato e o esmago com o garfo, antes de abrigá-lo sob o arroz e o ovo. Privilegiando a estética, pois os olhos também sentem o gosto, posiciono a carne e os legumes. Sempre manejo o garfo com a mão esquerda, deixando a mão direita para a faca, e jamais mastigo de boca aberta ou falo de boca cheia. Por fim, raramente procuro aquele doce que costuma encerrar as refeições e premiar a gula de vários amigos. Nisso se resume minha etiqueta à mesa, uma conduta que vem dos porões da infância, quando um menino imaginava crescer e ficar igual a seu pai.

Eu quis descer, abraçar meu pai e convidá-lo para almoçar comigo. Se fizesse isso, e se alguma pessoa nos observasse, enxergaria nossas manias idênticas, mas também perceberia que eu era uma cópia mal-acabada daquele homem, imitação mais da casca que do cerne, um plágio sem sua confiança, sua dignidade e coragem. Porém, essa comparação não aconteceu, pois não chamei meu pai, talvez porque tivesse pouco tempo para o almoço, ou quem sabe pela vergonha de gritar na janela ou de correr escada abaixo antes que os passos apressados levassem meu pai a sumir na multidão. Naquele dia eu não almocei com meu pai.

Agora, tantos dezembros depois e quantos planos perdidos, novamente estou neste restaurante, repito o ritual do prato e, tendo sentado no mesmo lugar, talvez até na mesma mesa, lembro o ocorrido e olho pela janela, pela mesma janela, sentindo um fiapo absurdo de esperança de ver meu pai, mas já não vejo meu pai. Se o visse, desta vez berrava na janela, corria na escada sem o menor constrangimento. Dói, e somente dói porque não tenho meu pai na rua. O seu Aparício se foi, com passo firme ele se foi para nunca mais voltar. Um amargo estranho me toma a boca, acabo logo a refeição, pago a conta e ganho a rua.

Tento lembrar para que lado rumou meu pai naquele dia distante. Se não me engano, em direção ao Ponto Azul, ao Calçadão… Todas as minhas poucas virtudes, se as tenho, são cópias dele; mas é certo, algumas coisas não herdei dele: a segurança ao caminhar, a capacidade de sonhar e de perseguir os sonhos. Realmente, com 59 anos de idade neste dezembro de 2021, quase 2022, eu ainda precisaria do velho Aparício para decidir em que esquina mudar minha vida, e para onde.

 

Luiz Fernando Cheres é escritor, autor de Um Beijo Longe dos Lábios e Amar não é Preciso.
Ocupa a Cadeira nº 11 na Academia de Letras dos Campos Gerais.