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Terça-feira, 27 de Fevereiro de 2024

D’P Artigo: “A comunicação da massa”, por Jeferson de Souza

2022-11-13 às 15:46
Foto: Benzoix

A tecnologia nasce boa, mas a humanidade a corrompe. Senão como explicar o que viraram o Facebook e os áudios de dois, três minutos no WhatsApp? Brincadeiras à parte, a tecnologia sempre foi mídia. Sim, ela media as relações, e a mais recente revolução digital é uma das transformações sociais mais importantes de que se tem notícia desde a Revolução Industrial.

Tecnologia é a ciência da técnica. Ela é aliada da humanidade desde sempre, mas foi quando dominamos uma tecnologia específica, a do fogo, que a nossa comunicação deu um salto quântico. Passamos a ter a proteção ideal para sair das cavernas e nos sentir mais seguros frente aos perigos da savana. Essa tranquilidade permitiu que pudéssemos deixar de viver o momento presente, o agora, para contarmos histórias e vislumbrarmos o futuro. Ok, deve ter sido aí que surgiu a ansiedade pelo que viria e a depressão de remoer e chorar o mamute perdido. Mas, sério, foi aí que o jogo virou. O que é o dinheiro, uma empresa, uma marca? Fruto da imaginação humana. No mundo material não existe. “Epa, dinheiro existe no mundo material”, pode dizer alguém. Não com o valor atribuído – caso contrário, o real brasileiro, o dólar americano e o guarani paraguaio valeriam a mesma coisa, pois são feitos do mesmo papel-moeda. É a crença no valor que faz o valor. É um pacto: eu creio, tu crês, eles creem.

Enfim, a revolução digital, como qualquer tecnologia, traz mediação. Do latim “mediatio”, “mediação”; de “mediari”, “intervir, colocar-se entre duas partes”; de “medius”, “meio”. As pinturas rupestres são tecnologia, papiros também, imprensa idem. Telégrafo, telefone, rádio, TV, internet etc. Sim, a tecnologia sempre esteve presente na comunicação. A linguagem é uma das primeiras tecnologias inventadas pelo ser humano para se comunicar. Lembre-se que, por trás de cada software e aplicativo que você usa, há uma “linguagem” de desenvolvimento. A pandemia nos deu um empurrão para a “mediação dos comuns”, aquela que vem crescendo desde as priscas eras do ICQ, do Orkut, das salas de bate-papo do UOL. Agora, cada um carrega em si o dom de ser mídia. Veja o sucesso de influenciadores que não fazem nada além de fotografar e filmar cada minuto de sua miserável existência.

A tecnologia é uma extensão do corpo humano. Ou você consegue sair tranquilo de casa sem o seu smartphone? Já ouvir falar em F.O.M.O (sigla em inglês para “fear of missing out”)? Não? Risos. É o medo de “ficar por fora”! Responda: ao despertar, você se espreguiça e dá “bom dia” ao seu amor ou já vai logo abrindo o aplicativo de mensagens, a rede social? O que você faz por último no seu dia, antes de fechar os olhos para dormir? É disso que estamos falando.

“A pandemia nos deu um empurrão para a ‘mediação dos comuns’. Agora, cada um carrega em si o dom de ser mídia”

As tecnologias de comunicação pautam a nossa vida. Mas é preciso contar “stories”, quer dizer, histórias. O rádio já foi fogueira na sala das famílias, o cinema ainda aquece o meu coração, e a TV também – mas cada vez menos, confesso. Esse aparelho ainda hoje (nas casas que o possuem) é cercado de poltronas confortáveis, cadeiras estilosas ou uma cama para cochilarmos diante de uma programação ruim, cada vez mais comum. Somente o “streaming” pode nos salvar.

Miremos o smartphone, este órgão humano tão importante quanto o fígado. Se, por duas horas, você deixar de receber uma mensagem, com certeza vai achar que tem algo de errado com ele. Vai fazer um “check-up” geral, cuidar dele como se fosse a sua prole recém-parida. Ai que dor, quando ele cai no chão! Se quebrar a tela, então, teria sido melhor perder uma unha. Mas pense que a voz é a tecnologia mais antiga, já que aprendemos a falar antes de escrever, e as imagens são aquele blá-blá-blá, “falam por mil palavras”. A biblioteca do mundo (o Google que tudo sabe) também está ali, neste aparelho, que faz hoje qualquer ser humano ser mídia. Sim, cada um de nós é mídia em potencial. Para os “palestrinhas”, adeptos de falar muito e ouvir pouco, esse é o oásis no desértico mundo que clama por diálogo. Temos acesso a uma profusão de informações, muitas vezes rasas como um pires, mas o que queremos mesmo é falar, mostrar ao mundo o quanto somos bons, inteligentes e ricos. Imagine se todo mundo resolvesse, na hora do almoço, depois de pegar a marmita, abri-la no meio do calçadão e sair mostrando aos transeuntes a sua comida. Seria hilário, mas é o que acontece nas redes sociais. Absolutamente normal. Enfim, somos peixes pequenos nessas redes. Estamos presos na falta de conteúdo. Falta? Ok, excesso, que é a mesma coisa, quando não se tem foco. Bom lembrar que quem usa o produto determina como vai usar. É aquela história: com faca, dá para passar manteiga no pão, raspar respingo de tinta no azulejo ou cortar o dedo do vizinho.

Pode piorar.

“Precisamos de mediadores. Sim, tutores. Jornalistas, editores, gente que chafurde nessa lama e nos diga: ‘Aqui tem coisa boa!’”

“Ah, mas as coisas estão muito rápidas!” Imagine o que Gutemberg fez pela humanidade. Foram impressos mais livros no primeiro século após a invenção da imprensa do que haviam sido copiados à mão em toda a história da Europa até Gutemberg. Tipo o que o digital faz hoje, quando nem o seu dedo nervoso dá conta de passar um “post” atrás do outro como se não houvesse amanhã. Aliás, quantas vezes você se pega boiando durante horas na internet e o hoje vira amanhã?

Assim como não era possível ler todos os livros antigamente, não é possível acompanhar todos os tiktokers do universo – ou do metaverso. Sabe o que anda faltando? Verso. A poesia perdeu o fôlego diante do imediatismo. Resultado? Sugiro às autoridades de saúde colherem amostras do esgoto da cidade. Se não tiver vestígios de Rivotril lá, eu volto a morar na caverna. Aliás, não seria má ideia. Desde que tenha Wi-Fi ou 5G, né, seguimores?

A pseudoliberdade que o usuário tem de escolher é a pior das masmorras, diante de tantas opções ruins. Precisamos de mediadores (opa). Sim, tutores. Jornalistas, editores, gente que chafurde nessa lama e nos diga: “Aqui tem coisa boa!”

Jeferson de Souza é jornalista, professor de Neurocomunicação da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e coordenador adjunto do MBA Neuroestratégia e o Pensamento Transversal e do Seminário de Neurociências Aplicadas, na ESIC Internacional.

Divulgação

Conteúdo publicado originalmente na Revista D’Ponta #292 Setembro de 2022.