Sábado, 25 de Junho de 2022

D’P Opinião: Preciso realmente vacinar o meu filho contra a COVID-19?

21/04/2022 às 15:57

Após o início da vacinação infantil contra a COVID-19, ainda há quem tenha dúvidas sobre a segurança ou sobre a necessidade de vacinar os pequenos. Para elucidar um pouco sobre a necessidade da imunização dessa faixa etária, basta falar no que se chama de relação risco/benefício. No caso da COVID-19, os benefícios são muito maiores do que os riscos. Entre os benefícios está, em primeiro lugar, a redução das chances de complicações e de morte entre as crianças, pois vale lembrar que agora elas são um dos grupos mais vulneráveis à contaminação, até que estejam vacinadas.

Essa vulnerabilidade pode expor esse grupo a riscos importantes, como a Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica (SIM-P) associada à COVID-19. A SIM-P é uma grave complicação da infecção pelo SARS-CoV-2 em crianças, sendo uma condição que gera inflamações em diferentes partes do corpo, incluindo coração, pulmões, rins, cérebro, pele, olhos ou órgãos gastrointestinais. Segundo informações da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), se somados os casos dos anos de 2020 e 2021, chega-se a 1.412 casos de SIM-P no Brasil desde o início da pandemia.

Neste sentido, e também no que diz respeito a outras complicações, órgãos importantes, como a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), também se manifestaram a favor da vacinação contra a COVID-19 para crianças de cinco a 11 anos, alertando que “embora a COVID-19 seja menos prevalente em crianças e adolescentes, não se pode desprezar a sua frequência nem a possibilidade de evolução desfavorável, principalmente em grupos específicos, como os portadores de cardiopatias congênitas ou adquiridas”.

            “Baseadas em evidências científicas, várias entidades afirmam de forma categórica que a chance de um evento adverso, como a miocardite, é 20 vezes maior em pacientes infantis não vacinados, que se infectam com o Coronavírus, do que em quem tomou todas as doses”

“Avaliando os dados, verifica-se que a maioria dos óbitos por COVID-19 ocorre entre os não vacinados e, infelizmente, muitas crianças ainda fazem parte desse grupo”

De modo a reforçar tal importância, é possível fazer também uma observação em relação ao número de óbitos que vêm ocorrendo recentemente por COVID-19. Avaliando os dados, verifica-se que a maioria ocorre entre os não vacinados e, infelizmente, muitas crianças ainda fazem parte desse grupo.

Além das questões relacionadas às complicações e dos riscos em si, há ainda outro benefício inquestionável, que é a segurança no ambiente escolar e a manutenção das crianças nesse meio. Desta forma, estando protegidos, não haverá a necessidade de novamente, em um futuro próximo, as crianças terem as suas vidas escolares presenciais interrompidas e precisarem retornar por tempo indeterminado ao ensino remoto, ou mesmo do fechamento temporário de turmas em função de surtos isolados nas escolas. A experiência do ensino remoto foi bastante negativa no que diz respeito à socialização e ao aprendizado infantil, segundo muitos estudos realizados na área de educação.

Na história da vacinação no Brasil, pudemos ver a erradicação de doenças graves como a varíola, poliomielite e sarampo. Com a COVID-19 não deve ser diferente. No entanto, para que isso aconteça, será necessário vacinarmos também as crianças. Desta forma, poderemos conter a pandemia. Com o maior número possível de pessoas imunizadas, há uma menor chance de surgimentos de novas e mais agressivas variantes, sendo possível abrandar o quadro atual da doença.

Em relação aos riscos, muitas notícias falsas têm surgido sobre a segurança da vacina. Neste caso, basta verificar que as vacinas de uso pediátrico aprovadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) também foram aprovadas por órgãos como o Food and Drug Administration (FDA), dos Estados Unidos; pela Health Products and Food Branch (HPFB), do Canadá; entre outros. Atualmente, Alemanha, Argentina, Áustria, Canadá, Chile, China, Cuba, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos, França, Grécia, Hungria, Israel, Itália e Portugal vacinam crianças com menos de 12 anos e tiveram a aprovação de seus órgãos de vigilância sanitária.

Apesar de tantas informações positivas no que diz respeito à imunização pediátrica, ainda surgem muitas desinformações que têm atrapalhado em muito o progresso do programa de vacinação infantil contra a doença. Tais notícias falsas têm levado muitos pais a titubearem no momento de levarem os filhos para receber o imunizante. Entre as fake news mais frequentes, está a divulgação de vídeos e mensagens sem fundamentos científicos que afirmam que as vacinas contra a COVID-19 podem causar problemas de saúde em crianças, inclusive a miocardite. No entanto, baseadas em evidências científicas, várias entidades, como a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), afirmam de forma categórica que a chance de um evento adverso, como a miocardite, é 20 vezes maior em pacientes pediátricos não vacinados, que se infectam com o Coronavírus, do que em quem tomou todas as doses necessárias para se proteger do vírus. Ainda alertam que, nos raríssimos casos em que pode se atribuir o evento à imunização, a evolução sempre foi benigna. Desta forma, por não serem observados efeitos adversos ou riscos importantes, pode-se dizer que a vacinação infantil contra a COVID-19 é segura e que os benefícios superam os riscos.

Não podemos tirar das crianças o direito à proteção. Vacina, sim, vacina para todos. As vacinas são a melhor forma de se evitar mortes e sequelas graves decorrentes das doenças imunopreveníveis.

“O maior efeito colateral das vacinas é gerar adultos.”

Quem ama, vacina.

Elisangela Gueiber Montes é doutora em Ciências Farmacêuticas, especialista em Microbiologia e Imunologia, e professora-adjunta da Universidade Estadual de Ponta Grossa

 

Conteúdo publicado originalmente na Revista D’Ponta #289 Março/Abril de 2022.