Domingo, 14 de Agosto de 2022

Enfoque D’P: Eu ainda estou aqui

26/06/2022 às 11:30

por Enrique Bayer

Se por um lado os idosos ganham mais longevidade e qualidade de vida graças aos avanços da ciência, por outro lado precisam conviver com uma sociedade que discrimina os mais velhos. Apesar de mais ativos e saudáveis, eles têm um espaço cada vez menor no mercado de trabalho, na comunidade e no próprio núcleo familiar

Em 1950, a expectativa de vida do brasileiro era de 50 anos. Com o avanço da medicina e dos indicadores de desenvolvimento humano, esse índice aumentou significativamente e hoje o brasileiro vive, em média, cerca de 76 anos. Apesar disso, o aumento da longevidade e da qualidade de vida vem afetando a forma como parte da sociedade enxerga os idosos, que muitas vezes são alvo de violência e discriminação.

Em Ponta Grossa, vivem mais de 22 mil pessoas acima dos 65 anos, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Embora ainda sejam ativos e saudáveis, os idosos encontram dificuldades para se inserir em diversos espaços, seja no mercado de trabalho ou no ambiente familiar. Além disso, a falta de acesso a renda, saúde e educação não possibilita um envelhecimento participativo e faz com que muitos não queiram chegar à velhice.

Preconceito tem nome

“Etarismo” é o nome usado para designar a discriminação por idade que atinge os idosos. “Infelizmente, o preconceito com pessoas idosas não se constitui um fenômeno exclusivamente atual. O fato é que, com o aumento da expectativa de vida e do número de idosos no Brasil e no mundo, esse comportamento se tornou mais evidente em todos os espaços”, nota Jacy Aurélia Vieira de Sousa, coordenadora da Residência Multiprofissional em Saúde do Idoso do Hospital Universitário da Universidade Estadual de Ponta Grossa (HU-UEPG) e professora-adjunta da instituição. Jacy destaca que uma das consequências do envelhecimento populacional é o retorno de muitos idosos ao mercado de trabalho, onde eles têm encontrado diversos desafios, como a readequação às funções, a adaptação às novas tecnologias e a discriminação.

“Embora as pessoas mais velhas tenham existido desde sempre na humanidade, a rejeição à velhice é muito presente em nossa sociedade”, complementa a assistente social Maria Iolanda de Oliveira, professora do curso de Serviço Social da UEPG e coordenadora do Núcleo de Assistência Social, Jurídica e de Estudos sobre a Pessoa Idosa (NASJEPI). “No ideário coletivo, a pessoa mais velha é um peso. Precisamos entender que a velhice está em nós e em todas as faces da vida, não só quando chegamos aos 60 anos”, afirma, citando que a maior violência contra uma pessoa idosa é ela ter sido uma criança fora da escola. “A criança que não tem acesso à educação tem todas as condições de chegar a ser um idoso vulnerável. Precisamos superar as desigualdades sociais para um envelhecimento mais ativo e participativo”, completa.

 

“Precisamos superar as desigualdades sociais para um envelhecimento mais ativo e participativo”, Maria Iolanda de Oliveira, professora do curso de Serviço Social da UEPG

Vulnerabilidade e dependência

Segundo Maria Iolanda, não existe uma faixa etária específica que sofra mais preconceito, mas a discriminação aumenta devido ao acúmulo de fatores que tornam o idoso mais vulnerável. “Pessoas idosas mais vulneráveis costumam enfrentar, além do preconceito com relação à idade, a discriminação pelo fato de serem pobres, viverem com deficiências, possuírem doenças, serem mulheres que vivem sozinhas, pertencerem a grupos minoritários, entre outros”, enumera. A professora assinala ainda que outro fator importante para o etarismo é a dependência, seja ela física, cognitiva ou financeira. “A pessoa idosa sofre mais preconceito a partir do grau de dependência em que ela se encontra. Quanto maior o grau de dependência, maior a discriminação”, enfatiza.

O sábio ancião

Mas nem sempre foi assim. Em muitas sociedades tradicionais ou “primitivas”, o idoso era percebido como uma espécie de guardião dos saberes e da cultura local. “Especialmente com o advento da Revolução Industrial, o valor das pessoas passou a ter relação com a sua capacidade de produção, ou seja, o indivíduo vale enquanto é útil para a sua comunidade”, explica Jacy, ressaltando que, graças a esse contexto histórico, social e econômico, a imagem do sábio ancião cedeu espaço para o preconceito. “O olhar para o idoso foi se alterando e ele passou a ser visto como um fardo para sociedade”, avalia.

Além da questão da utilidade, Maria Iolanda defende que a conotação pejorativa da velhice se deve também à fluidez das informações no mundo moderno. “Tudo acontece muito rápido. As pessoas mais jovens e adultas não têm tempo ou paciência para ouvir os relatos das pessoas idosas como acontecia nas sociedades primitivas”, compara. Entretanto, ela destaca que ainda há espaço para compartilhar informações entre diferentes gerações. “Quando um jovem ensina uma pessoa idosa a usar o celular, por exemplo, ele pode aprender a ser mais paciente e a ter mais atenção”, frisa.

Causas diversas

De acordo com a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), existem pesquisas sobre o fenômeno do etarismo desde a década 60 nos Estados Unidos e na Europa. “Esses estudos apontam o etarismo como consequência de diversos fatores, sejam eles pessoais, como a ansiedade em envelhecer e o medo da morte; entre grupos, onde ocorre um contato com muitos idosos vulneráveis e com poucos saudáveis; ou mesmo sociais e econômicos, especialmente em países em desenvolvimento”, explica Jacy, destacando que o preconceito pode ser institucional, interpessoal ou autoinfligido e estar presente em diversos setores, como, por exemplo, entre prestadores de cuidados de saúde, no local de trabalho, na mídia e até mesmo no sistema jurídico.

Mercado de trabalho

Um dos maiores reflexos do etarismo se encontra no ambiente corporativo, desde a busca por vagas de trabalho, que muitas vezes são limitadas a determinadas idades, até a dificuldade de se manter no cargo à medida que a idade avança. “O mercado de trabalho, como reflexo de uma sociedade capitalista, tende a valorar o indivíduo pela capacidade de produção. Entretanto, o que se percebe é que as relações intergeracionais dentro da empresa proporcionam ganhos importantes”, analisa Jacy, ressaltando que a experiência e a forma de se trabalhar para resolver determinados problemas são exemplos de coisas que a empresa perde quando só tem colaboradores jovens ou quando não ouve a opinião do funcionário mais velho. “Empresas que possuem apenas funcionários jovens perdem todo o potencial das pessoas idosas que retornam ou desejam permanecer no mercado de trabalho com a disposição de atrelar a experiência profissional com a pessoal e, assim, contribuir para o crescimento das empresas”, enfatiza.

O que se perde

Não são apenas as empresas que saem perdendo ao marginalizarem os mais velhos: a sociedade, como um todo, também perde. “A diversidade, em qualquer ambiente, promove oportunidades de aprender com o outro e de praticar a empatia”, salienta Jacy, observando que, ao excluir os idosos, a sociedade perde parte de sua história e várias oportunidades de avançar em diversas áreas. “Um ambiente com diversidade etária estimula questões fundamentais, como a representatividade e, com isso, o entendimento de que envelhecer é parte da vida”, complementa.

Como combater

Na visão de Jacy, o envolvimento de toda a comunidade é fundamental para dar mais visibilidade aos idosos. “Lutar contra o etarismo, estimular o envolvimento dos idosos na comunidade, atender às demandas desse grupo etário e reconhecer a importância do papel exercido por eles também são ações indispensáveis nesse processo”, indica. Segundo ela, essa valorização inclui o atendimento às demandas específicas do grupo e a boa execução de políticas públicas voltadas à pessoa idosa. “Além disso, estar informado quanto a seus direitos e combater o etarismo, mesmo que dentro do próprio ambiente familiar, é importante para quebrar o ciclo de discriminação e intolerância”, sublinha.

Para Maria Iolanda, a sensibilização a respeito da importância dos idosos na sociedade começa dentro de casa, com os familiares. “É no convívio entre as diferentes gerações que as crianças aprendem que o envelhecimento faz parte da vida e a necessidade do respeito para com os mais velhos”, afirma. Na opinião dela, é preciso promover ações educativas e combater piadas relacionadas a idade, linguagem preconceituosa, generalizações, associações equivocadas e a infantilização dos mais velhos. “Acredito que a questão é parar de achar que velho é o outro e reconhecer que cada pessoa vive de envelhecimento. É importante pensar que não adianta acrescentar anos de vida se não houver acréscimo de vida a esses anos”, aponta, acrescentando que a qualidade de vida na velhice depende de como se pensa os espaços urbanos e as políticas públicas de renda, saúde e cultura.

“O que se percebe é que as relações intergeracionais dentro da empresa proporcionam ganhos importantes”, Jacy Aurélia Vieira de Sousa

Políticas públicas

Em Ponta Grossa, um dos exemplos de políticas públicas voltadas à inclusão dos mais velhos é a formação de grupos de convivência para pessoas idosas nos Centros de Referência em Assistência Social (CRAS). O INSS também desenvolve ações como cursos, oficinas, dinâmicas e passeios culturais.

O município conta ainda com o Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa Idosa, dedicado a promover, proteger e defender os direitos dessa parte da população, e com o Ministério Público, que acolhe denúncias de violações desses direitos.

Além disso, a UEPG conta com o Núcleo de Assistência Social, Jurídica e de Estudos sobre a Pessoa Idosa (Nasjepi), que desenvolve campanhas de sensibilização para a valorização da pessoa idosa, e a Universidade Aberta para Terceira Idade (UATI), que promove atividades físicas e culturais.

No âmbito nacional, o Estatuto do Idoso, como parte da Política Nacional do Idoso, pauta as políticas públicas de atendimento às demandas da população idosa no Brasil. E, no Paraná, há a Linha Guia de Saúde do Idoso, que desde 2017 orienta o trabalho na atenção básica nessa área, servindo como um modelo de atenção à pessoa idosa.

COMBATENDO O PRECONCEITO POR IDADE
→ Promova ações educativas
→ Evite piadas relacionadas a idade, linguagem preconceituosa, generalizações e associações equivocadas
→ Não infantilize os mais velhos
→ Valorize o papel dos idosos na sociedade e saiba aprender com eles
→ Desenvolva e execute políticas públicas voltadas a essa faixa etária

Conteúdo publicado originalmente na Revista D’Ponta #290 Junho de 2022.