Sábado, 25 de Junho de 2022

Enfoque D’P: Guerra Urbana – forças de segurança explicam a disputa de facções em PG

18/04/2022 às 14:19

por Michelle de Geus

Gabriel, 22 anos. André, 16 anos. Junio, 19 anos. William, 22 anos. Essas são  apenas algumas das pessoas que perderam a vida de forma violenta nos dois primeiros meses de 2022 em Ponta Grossa. Somente de janeiro a fevereiro, o município registrou nada menos que 15 homicídios. A maioria deles, segundo a Polícia Militar (PM), foi consequência de disputas entre dois grupos criminosos rivais e tem como pano de fundo o tráfico de drogas.

Realidade mais do que conhecida nas grandes capitais, as disputas entre facções estão se interiorizando, explica Tânia Sviercoski, secretária municipal de Cidadania e Segurança Pública. “Existe uma rivalidade de dois grupos criminosos que estão em confronto por pontos de vendas de drogas na cidade, e isso só ocorreu porque o trabalho das forças de segurança tem sido efetivo na apreensão de armas e entorpecentes”, aponta. Segundo dados da Guarda Civil Municipal (GCM), em 2021 houve um aumento de 80% no volume de apreensões de drogas; de 38% na apreensão de armas; e de 78% no cumprimento de mandados de prisão.

De acordo com Tânia, um dos objetivos do trabalho realizado pela Polícia Militar, Polícia Civil e Guarda Civil Municipal, que atuam em conjunto no combate a essas facções, é chegar aos “cabeças” dos grupos. A secretária afirma que já se tem a identificação de pessoas que estão à frente de vários crimes e que algumas delas até já foram até presas. “Foram realizadas algumas prisões importantes de traficantes, que geraram essa disputa pelos pontos de venda deixados por indivíduos que foram retirados de circulação. Essa é uma realidade que tem sido determinante para o aumento do número de homicídios no município”, comenta.

Além das prisões realizadas nos meses de dezembro e janeiro, também foram retiradas de circulação armas que estavam sendo utilizadas nos homicídios. “A GCM está muito atenta a essas situações e retirou de circulação muitas armas e drogas, e deu apoio às demais forças de segurança para efetuar prisões importantes”, afirma. “Todo esse trabalho é realizado visando diminuir a criminalidade, e nós temos feito um esforço expressivo e atuado em conjunto com a Polícia Civil e a Polícia Militar para enfrentar a violência em nossa cidade”, acrescenta.

Tânia Sviercoski, secretária municipal de Cidadania e Segurança Pública: “Foram realizadas prisões importantes de traficantes, que geraram essa disputa pelos pontos de venda deixados por indivíduos que foram retirados de circulação”

Tânia lembra que a Secretaria Municipal de Cidadania e Segurança Pública (SMCSP) tem a incumbência de prestar apoio para a Polícia Civil na investigação dos crimes e para a Polícia Militar na estruturação de ações preventivas. “A Guarda Civil Municipal, a Polícia Civil e a Polícia Militar estão trabalhando intensamente para reduzir esse número de homicídios”, garante.

 

Tráfico em expansão

Em sua maioria, os homicídios ocorridos nos primeiros meses deste ano, segundo o tenente-coronel Renato dos Santos Taborda, comandante do 4º Comando Regional de Polícia Militar (CRPM), decorreram de desacertos de dívidas referentes à comercialização de entorpecentes ou de disputas pelo domínio de pontos de venda. “O tráfico de drogas é praticado de longa data, sendo que, nos últimos anos, houve um aumento nessa prática e, com isso, surgiram novos grupos disputando territórios”, aponta.

Segundo o tenente-coronel, as facções criminosas, possivelmente, se instalam em Ponta Grossa quando vislumbram a possibilidade de expandir a sua área de atuação e de exercer a prática ilícita de forma rentável. “Muitas vezes, a transferência de presos de um estabelecimento penal para outro faz com que aquele grupo criminoso passe a buscar espaço na região para onde o preso foi realocado”, exemplifica.

De acordo com Taborda, a chegada de novos traficantes a uma determinada região impulsiona a prática de diversos outros delitos, como furto, roubo, homicídio e receptação. “Quando um grupo criminoso busca se estabelecer em uma área, pode cometer diversos crimes para afastar outros criminosos e buscar espaço e autonomia naquela região, incluindo assassinatos”, aponta.

Renato dos Santos Taborda, comandante da Polícia Militar: “Quando uma facção busca se estabelecer em uma área, pode cometer diversos crimes para afastar outros criminosos e buscar espaço naquela região”

Cautela

Apesar do cenário que vem deixando perplexa a sociedade local, Taborda observa que é preciso analisar os dados com cautela antes de afirmar que Ponta Grossa vive uma “onda de assassinatos”. “No mês de janeiro houve, sim, um aumento na quantidade de homicídios, mas não podemos afirmar que a nossa cidade teve uma explosão na quantidade desses crimes, pois a maioria deles está relacionada a grupos criminosos com envolvimento no tráfico de drogas”, afirma.

Taborda explica que, dos 12 assassinatos registrados em janeiro, seis foram em decorrência de acertos de contas entre grupos criminosos rivais. “Essa seria, talvez, a grande causa no aumento das mortes violentas no início deste ano, o que levou as forças de segurança pública a atuarem de forma mais integrada no combate direcionado, resultando em uma significativa redução desses índices já no mês de fevereiro, surtindo excelentes resultados”, enfatiza.

Para ilustrar o seu argumento, o tenente-coronel observa que, em 2020, foram registrados cinco homicídios no mês de janeiro; em 2021, foram registrados quatro no mesmo mês; e, em 2022, o número saltou para 12. “Agora, se pegarmos o comparativo do mês de fevereiro, pode ser constatado que houve uma diminuição considerável”, pondera. “Enquanto, em fevereiro de 2020, foram registrados 11 homicídios, no ano seguinte ocorreram seis mortes violentas e, em 2022, houve uma queda para três ocorrências no mesmo mês”, completa.

 

            Intensificação

Embora não possa revelar detalhes da investigação, o delegado Nagib Nassif Palma, chefe da 13ª Subdivisão Policial (SDP) de Ponta Grossa, garante que há uma intensificação nos trabalhos preventivos e ostensivos, inclusive com a composição de uma força-tarefa envolvendo os órgãos integrantes da segurança pública. “A Polícia Civil, conforme prescreve a Constituição, é a instituição responsável pela investigação dos crimes e busca informações visando o esclarecimento dos fatos e provas que subsidiem uma eventual condenação dos autores”, descreve.

Nagib acrescenta que, se de um lado a Polícia Militar tem intensificado o policiamento ostensivo em pontos de maior vulnerabilidade, a Polícia Civil reforçou os setores de inteligência na busca e troca de informações. “Nós trabalhamos incansavelmente para identificar absolutamente todos os integrantes das organizações criminosas, assim como para esclarecer as suas condutas ilícitas”, reforça.

“À Polícia Militar compete o policiamento ostensivo com caráter preventivo, atuando também assim que o crime é praticado. A Guarda Civil Municipal foi criada inicialmente para proteger o patrimônio público, mas hoje também está inserida entre os órgãos de segurança pública e auxilia no combate à criminalidade”, conclui.

 

            Estratégias

Criado em 2010, o Gabinete de Gestão Integrada Municipal (GGIM) tem sido fundamental para traçar estratégias de combate à criminalidade em Ponta Grossa. O órgão reúne representantes da Guarda Civil Municipal, da Polícia Civil e da Polícia Militar periodicamente para discutir medidas que vêm sendo adotadas no município e o andamento de ações integradas entre as forças de segurança. Uma das pautas da última reunião do GGI, ocorrida em dezembro de 2021, foi relacionada ao aumento do número de homicídios.

 

CRIMINALIDADE EM NÚMEROS

Número de homicídios em Ponta Grossa

Total em 2020: 54 homicídios

Total em 2021: 73 homicídios

2022 (até fevereiro): 15 homicídios

 

Comparativo mês a mês

Janeiro de 2020: 5 homicídios

Janeiro de 2021: 4 homicídios

Janeiro de 2022: 12 homicídios

 

Fevereiro de 2020: 11 homicídios

Fevereiro de 2021: 6 homicídios

Fevereiro de 2022: 3 homicídios

Fonte: Diário dos Campos

 

 

DEMOGRAFIA DA MORTE

Divisão por bairro

 

Uvaranas: 3 homicídios

Cará-Cará: 3 homicídios

Neves: 2 homicídios

Vila Cipa: 2 homicídios

Contorno: 2 homicídios

Nova Rússia: 2 homicídios

Chapada: 1 homicídio

 

Divisão por sexo

Homens: 14 homicídios

Mulheres: 1 homicídio

 

Idade média das vítimas

29 anos

Fonte: Diário dos Campos

 

Conteúdo publicado originalmente na Revista D’Ponta #289 Março/Abril de 2022.