Sábado, 18 de Maio de 2024

Enfoque D’P: Longe de casa

2022-09-10 às 09:25

Quatro ponta-grossenses – um humorista, uma cantora, uma comissária de bordo e um engenheiro civil – relatam a difícil, mas altamente compensadora, experiência de mudar de país e viver em um lugar onde não conheciam nada – nem a língua, nem as pessoas, nem a cultura

Por Michelle de Geus

O número de brasileiros que vivem no exterior vem crescendo desde 2015 e bateu recordes nos últimos anos. De acordo com o Ministério das Relações Exteriores, em 2020 havia 4,2 milhões de brasileiros morando fora do país. Todos os anos, dezenas de ponta-grossenses seguem o mesmo caminho e deixam o seu país natal. A quilômetros de distância de casa, eles sofrem com a saudade da família e dos amigos em um lugar onde não conhecem ninguém, mas também passam por experiências que levarão para a vida toda. Em comum, eles têm o desafio de aprender um novo idioma, conseguir trabalho e se integrar a novas culturas. A seguir, os ponta-grossenses Gui Augusto, humorista, Bianca Rocha, cantora, Amanda Neme, comissária de bordo, e Willyam Henry Bowens, engenheiro civil, relatam como é a desafiadora experiência de morar em outro país.

Estados Unidos

Desde criança, o humorista Gui Augusto sonhava em conhecer a terra do Tio Sam e, quando recebeu o convite para fazer um show no país, não pensou duas vezes e embarcou com a esposa para o exterior em fevereiro deste ano. “A primeira coisa que passou pela minha cabeça, quando entramos no avião, foi Deus. Nós sempre oramos pedindo direção, e Ele sempre confirmou que era isso mesmo, mas claro que bate aquele medo. É o medo do novo, de você não saber o que encontrará em um país totalmente diferente e com outra língua”, confessa.

Gui vive na cidade de Newark, em Nova Jersey, a menos de 20 minutos de metrô de Nova York. Além de já ter perdido mais de uma hora tentando pegar um metrô em direção à Times Square [famosa praça localizada na esquina Broadway com a 7a Avenida], ele comenta que já levou alguns sustos quando ainda não conhecia a cidade. “Uma vez, nós pedimos informações para uma moça americana que prontamente começou a andar na nossa frente indicando a direção. No meio do caminho, lembramos que nos falaram para nunca seguir esse pessoal, porque eles cobram caro quando chegam ao ponto final, e, se você não der dinheiro para eles, pode até apanhar. Acabou que nós fugimos no meio da multidão e nunca mais vimos essa pessoa”, lembra, aos risos.

Hoje muito mais ambientado, Gui já pôde participar de grandes eventos em Nova York. Um exemplo foi o lançamento do documentário “Halftime”, sobre a carreira e a vida da cantora Jennifer Lopez. “Nós recepcionamos a Jennifer Lopez no tapete e até o [ator] Robert De Niro chegou para a festa. Eu fiquei muito honrado de poder acompanhar o documentário com os artistas antes do mundo inteiro”, relata Gui, acrescentando que ele e a esposa costumam acompanhar gravações de filmes na cidade, já que é possível saber onde e quando as cenas serão filmadas. Recentemente, eles assistiram às gravações do filme “O Maestro”, com o ator Bradley Cooper, que será lançado em 2023.

“É claro que bate aquele medo. É o medo do novo, de você não saber o que encontrará em um país totalmente diferente e com outra língua”

Gui Augusto, humorista, atualmente nos Estados Unidos

Respeito e oportunidade

O humorista conta que, apesar de sempre acompanhar músicas, séries e filmes em inglês, ainda não dominava totalmente o idioma quando chegou ao país. “Nós aprendemos na prática, conversando com os americanos, mas eles respeitam muito, porque percebem que estamos tentando aprender. Eles não zombam. Pelo contrário, tentam ajudar e ensinar”, afirma, acrescentando que as maiores dificuldades estão sendo as gírias e abreviações.

Até o momento, o principal choque cultural experimentado por Gui foi a organização no trânsito. “Eles têm um respeito muito grande pelo pedestre e, quando a pessoa pisa na faixa, o carro tem que parar. No sinal amarelo, o carro já tem que reduzir”, detalha. Outra coisa que o humorista afirma ter estranhado é o poder de compra. “É incrível o valor de um tênis, de uma calça, de uma camisa de marca. Um tênis que no Brasil custa entre R$ 700,00 e R$ 800,00, aqui você encontra por US$ 20,00. É um país que realmente dá oportunidade”, compara.

Canadá

A cantora e compositora Bianca Rocha, que fez história cantando em bares de Ponta Grossa, cresceu sonhando em fazer carreira musical e conhecer o mundo. A oportunidade de mudar com o companheiro para Montreal, no Canadá, surgiu em 2019, e a decisão foi tomada rapidamente. “Nenhum de nós estava contente com o resultado das eleições presidenciais, e eu particularmente fiquei com muito medo dos retrocessos que estariam por vir, principalmente em relação à violência contra as mulheres”, aponta. “Como temos uma filha, pensamos que seria o momento de aproveitar essa oportunidade e, de certo modo, protegê-la dessa insegurança que me inquietava”, explica.

A cantora conta que nunca havia vivido fora do país, mas acreditou que seria apenas questão de tempo para se encaixar no mercado e sentir-se segura para a aventura. “Eu acredito que as vivências sempre nos constroem e nos modificam. Eu gosto dessas mudanças. Então não tive medo de me arrepender dessa decisão, mesmo sabendo que isso ainda pode acontecer um dia”, pondera.

Logo nos primeiros meses em solo canadense, Bianca conheceu músicos brasileiros e foi convidada a fazer parte da banda que acompanha o músico Rodrigo Simões. “Isso me ajudou a conhecer o meio de trabalho e a aprender como as coisas funcionam. Hoje eu tenho o meu projeto autoral, que está se desenvolvendo bem, graças a esses encontros da vida”, comemora.

“Eu acredito que as vivências sempre nos constroem e nos modificam. Eu gosto dessas mudanças. Então não tive medo de me arrepender dessa decisão”

Bianca Rocha, cantora, atualmente no Canadá

Adaptação

Como não dominava o idioma, Bianca precisou tomar aulas de francês. “As aulas são oferecidas pelo governo para imigrantes e recebemos uma remuneração pelos estudos, pois entende-se que você deixa de trabalhar para estudar”, aponta, acrescentando que ficava surpresa ao receber, todos os meses, o cheque pelo correio. Outra coisa que a cantora estranhou foi a sensação de segurança. “Aqui não existe a necessidade de vigilância constante. Eu acho bem triste a violência ser tão naturalizada na nossa cultura que nos sentimos estranhos quando estamos seguros”, reflete.

Embora garanta que foi bem recebida e acolhida pelos canadenses, Bianca relata que sofre assédio sexual eventualmente. “Já fui abordada algumas vezes por homens mais velhos e, quando respondo que eu sou brasileira, passam a me olhar diferente e a fazer comentários sobre a minha aparência”, relata. Ela acrescenta que sempre ignorou esse tipo de abordagem, mas não esconde que fica incomodada. “Infelizmente, a imagem do turismo sexual ainda está presente no imaginário de algumas gerações. Por isso eu sempre abordo temas feministas nos meus shows”, complementa.

Tolerância ao diferente

A cantora observa que a experiência de viver fora do país tornou-a uma pessoa mais tolerante e aberta ao diferente. “Morar fora te deixa exposto, te transforma no diferente, você aprende na pele sobre respeitar e ser respeitado, e exercita isso o tempo todo”, avalia.

Dubai

“Eu sempre tive o sonho de ir para os Estados Unidos, juntar dinheiro, voltar para Ponta Grossa e comprar um fusca verde limão”, conta, aos risos, a comissária de bordo Amanda Neme. “O que mais me motivava a sair do país era a falta de oportunidades. Eu queria mais e sabia que eu tinha potencial”, acrescenta. Ela fez um intercâmbio em Dallas (EUA) e, ao retornar, foi incentivada por um amigo a fazer o curso de comissário de voo. Após algumas entrevistas, em 2011 Amanda recebeu uma oportunidade de emprego em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos (EAU).

No início do trabalho, a empresa enviou um motorista para buscá-la no aeroporto e disponibilizou-lhe uma acomodação. Mas as primeiras impressões do novo país não foram muito positivas. “Eu percebi que o motorista estava perdido e comecei a ficar com muito medo. Fiquei mais assustada ainda quando cheguei ao edifício onde eu ia morar e do outro lado da rua só havia areia”, lembra. Outro momento difícil foi quando ela chegou ao apartamento e não conseguiu se conectar à internet para falar com a família. “Eu fiquei muito desesperada e saí na rua chorando tentando achar uma ‘lan house’. Os primeiros meses foram bem difíceis e, sim, eu cheguei a me arrepender da decisão”, confessa.

Apego à religião

O maior desafio da vida em Dubai, para Amanda, foi se integrar a um novo modo de vida e a uma cultura tão diferente. “A primeira vez que os árabes rezam é 30 minutos antes do nascer do sol. Então, 4h30 o alto-falante da mesquita perto do edifício onde eu morava já tocava e me acordava”, lembra. Os muçulmanos fazem cinco orações diárias, em horários diferentes. “Outra vez, eu estava caminhando no final da tarde e um homem parou o caminhão, estendeu um tapete no chão e começou a rezar. Eu não esperava ver um apego tão forte à religião”, conta.

Entre as coisas que até hoje a surpreendem, a comissária de bordo cita o fato de algumas mulheres ficarem totalmente cobertas pela burca e também o Ramadã, período de 30 dias em que os muçulmanos não se alimentam do nascer ao pôr do sol. “Mesmo não sendo muçulmana, eu não posso comer nem beber na rua. Se eu for vista fazendo isso, posso ser multada”, detalha.

E, por falar em comida, a alimentação foi outra coisa que despertou estranhamento na ponta-grossense. “Uma vez, eu vi algo parecido com uma coxinha em uma lanchonete e dei uma mordida cheia de vontade, mas era uma comida indiana muito apimentada”, recorda. Amanda, no entanto, revela que não teve maiores problemas para se comunicar em Dubai, pois o inglês é amplamente falado na região. “Eu tentei aprender o árabe e falo o básico, mas é uma língua muito difícil, até porque tem muitos dialetos dentro dela e vários sotaques diferentes”, explica.

“O que mais me motivava a sair do país era a falta de oportunidades. Eu queria mais e sabia que eu tinha potencial”

Amanda Neme, comissária de bordo, atualmente em Dubai

Nova mentalidade

Aos poucos, Amanda se adaptou à nova vida. Hoje ela se diz grata por tudo o que viveu e afirma que passou a ver o mundo de outra maneira. “Quem não viaja, fica com uma mente muito bitolada. A pessoa tem a impressão de que aquilo que ela vive é o mundo, mas ele é muito maior do que Ponta Grossa”, brinca. Apesar de afirmar que a cidade sempre estará em seu coração, Amanda diz que não tem planos de voltar à Princesa dos Campos. “Pelo menos não no futuro próximo. Mas, se um dia a vida me levar de volta, eu vou de braços abertos”, garante.

Alemanha

“A primeira coisa que eu pensei quando desembarquei no aeroporto foi: ‘Vamos fazer isso dar certo, porque só tem plano A, não tem plano B’”, conta o engenheiro civil Willyam Henry Bowens, que se mudou para a cidade de Bremen, no norte da Alemanha, há quatro anos e meio. “A minha família tem raízes alemãs e desde criança eu tive um pouco de ligação com isso. Dentro de mim, eu sabia que esse era o país onde eu queria morar – ou, pelo menos, experimentar por um tempo”, afirma.

Bowens confessa que foi uma decisão difícil e que um dos momentos mais duros foi se despedir da família. “Eles te levam ao aeroporto, e aí você tem que dar tchau sabendo que vai ficar sem vê-los fisicamente por um tempo. A única coisa que abala em morar fora do país é a distância da família, porque o resto nós damos dá um jeito”, observa o engenheiro, acrescentado que, apesar da insegurança, tinha convicção de que estava fazendo a coisa certa. “Nós sempre questionamos as nossas decisões, mas a verdade é que eu teria me arrependido se não tivesse me mudado”, reflete.

Arregaçando as mangas

Apesar de sua família ter raízes germânicas, a maior dificuldade para Bowens foi com o alemão, idioma que ainda não dominava, o que lhe impunha algumas barreiras. “Quando você muda de país, você nasce de novo. Quando eu me mudei para cá, eu era como uma criança aprendendo a falar uma língua do zero”, relata, observando que, embora a maioria dos alemães dominem o inglês, eles valorizam os estrangeiros que se esforçam para aprender a língua local.

O engenheiro não esconde que os primeiros meses foram árduos e que teve de se esforçar muito para se manter. “Quando você muda de país, precisa arregaçar as mangas, olhar o que tem disponível para fazer e conseguir colocar comida na mesa”, aponta. “Eu já fiz de tudo nesse meu caminho. Já trabalhei em profissões que não eram tão valorizadas, inclusive lavando prato em restaurantes”, completa.

“A primeira coisa que eu pensei quando desembarquei no aeroporto foi: ‘Vamos fazer isso dar certo, porque só tem plano A, não tem plano B’”

Willyam Henry Bowens, engenheiro civil, atualmente na Alemanha

Lição de vida

Bowens observa que mudar de país é um “processo incrível” e de “aprendizado intenso”. “É uma experiência extremamente interessante você conhecer outros lugares e morar fora. Na verdade, a lição que eu tiro para a vida é que nós nunca perdemos, nós só ganhamos ou aprendemos alguma coisa”, destaca. Embora não pretenda retornar para a cidade, o engenheiro destaca que mantém um carinho especial por Ponta Grossa, principalmente pela família e pelos amigos que ficaram.

Muita pesquisa e zero medo

Aos poucos, a saudade dos amigos e da família já não machuca tanto, a nova cultura começa a soar mais familiar, o idioma deixa de ser uma barreira e a comida ganha novos sabores. Seja por apenas uma temporada ou para a vida toda, quem já viveu fora do país garante que não se arrepende. Para quem está pensando em embarcar nesta aventura, eles aconselham a pesquisar o máximo possível sobre o país e a não ter medo. Embora não escondam que é uma decisão difícil, esses quatro ponta-grossenses expatriados são unânimes em dizer que fariam tudo de novo.

Conteúdo publicado originalmente na Revista D’Ponta #291 Agosto de 2022.