Segunda-feira, 27 de Maio de 2024

Enfoque D’P: Não dá mais

2022-09-03 às 17:08

Em 2021, o número de divórcios atingiu o recorde no Brasil, com mais de 80 mil casamentos desfeitos. Em Ponta Grossa, não foi diferente. Desde 2017, a cidade registra um crescimento contínuo nas separações. Mas, afinal, por que muitos casais estão indo do “até que a morte os separe” para o “vamos nos separar”?

Por Michelle de Geus

Educação dos filhos, divisão das tarefas domésticas e finanças são algumas das brigas mais comuns entre os casais e, quando eles não conseguem mais dialogar, essas discussões podem levar ao divórcio. No ano passado, Ponta Grossa registrou 316 separações em cartórios, segundo a seção Paraná do Colégio Notarial do Brasil (CNB) e o Portal da Transparência do Registro Civil. E, nos três primeiros meses deste ano, já foram registradas mais de 90 separações na cidade. Ambos os dados apontam para uma tendência de aumento no número de divórcios no município, que vem ocorrendo desde, pelo menos, 2017. Mas, afinal, por que muitos casais estão indo do “até que a morte os separe” para o “vamos nos separar”?

“Ninguém gosta de estar só. Por isso, a busca por alguém para compartilhar a vida acaba sendo um caminho natural, mas muitas pessoas ainda não estão preparadas para enfrentarem juntas os desafios do cotidiano”, explica a advogada Alcione Aggio, destacando que infidelidade, problemas financeiros e violência física ou psicológica estão entre as causas mais comuns dos divórcios e que discussões sobre educação dos filhos, divisão das tarefas domésticas e problemas de finanças estão entre as queixas mais constantes. “Quem dera existisse uma fórmula mágica para o casamento durar a vida toda. Não há dúvida de que tolerância e ajuda mútua contam muito. Nos unimos a alguém para nos tornarmos seres humanos melhores, não piores”, aponta.

Por que antes os casamentos duravam mais?

Por que, então, os casamentos de antigamente duravam mais? Na visão da advogada, é preciso tomar cuidado para não romantizar as uniões do passado, pois, muitas vezes, elas duravam mais, sim, mas ao custo da felicidade feminina. “A mulher era educada para servir e agradar sempre. A submissão feminina era a regra”, aponta a advogada, lembrando que as decisões eram sempre tomadas pelo marido e que à mulher cabia apenas obedecer, sem direito a escolha individual ou opinião própria. “O homem era o chefe e provedor da casa, e a função da mulher era voltada exclusivamente para os afazeres domésticos, cuidar do marido e educar os filhos”, completa.

Além disso, as mulheres que pediam divórcio eram vítimas de preconceito. Durante séculos, a separação não era legalizada, com o divórcio sendo instituído no Brasil somente em 1977. Antes disso, existia o chamado “desquite”, no qual apenas se estabelecia a separação de corpos e a divisão de bens. “A mulher desquitada sofria sérios preconceitos sociais por estar em tal situação e era tida como ‘inadequada’ perante a sociedade”, observa Alcione, mencionando ainda que o medo de não conseguir se sustentar levava muitas mulheres a permanecerem no relacionamento a qualquer custo. Segundo ela, isso começou a mudar com o empoderamento feminino observado nas últimas décadas, que colocou a mulher em igualdade com o homem. “A independência financeira libertou a mulher da submissão. Elas passaram a ter o mesmo grau de instrução, mais oportunidades de trabalho e o poder de escolher entre usar ou não o sobrenome do marido”, menciona.

“A busca por alguém para compartilhar a vida é um caminho natural, mas muitas pessoas ainda não estão preparadas para enfrentarem juntas os desafios do cotidiano”

ALCIONE AGGIO, advogada

Falta de comunicação e “investimento”

Na visão da psicóloga Adriana Gomes, que atende em Ponta Grossa, uma das principais causas das separações é a falta de comunicação e de diálogo. “Durante o casamento, é preciso sempre alinhar as expectativas e conversar sobre tudo, sobre ter ou não ter filhos, educação das crianças e como que serão divididas as contas, sem deixar nada subentendido”, aconselha. “Cada um deve colocar o que concorda e o que discorda para tentar chegar a um ponto em comum. Nós voltamos para aquela máxima de que ‘o tratado não é caro’”, acrescenta.

Outro motivo que, segundo ela, leva muitos casais a se separarem é a falta de investimento na união. “O casal precisa olhar com carinho para o casamento e investir no relacionamento ao longo do tempo. De repente os dois não fazem mais nada romântico em casa, não pegam um cinema ou não fazem pequenas coisas que dão um tempero para a relação”, exemplifica, acrescentando que o tédio e o descuido com as necessidades sexuais do outro também podem afastar o casal. “Dialogar sobre as necessidades sexuais, trazer coisas para apimentar a relação e priorizar os momentos a dois ajuda a manter acessa a chama do desejo”, indica.

Criatividade e admiração

Adriana reforça que o casamento precisa ser alimentado com novidade e criatividade. “A paixão ama a novidade e a rotina torna a relação desinteressante. O casal precisa ter o cuidado de não deixar o casamento cair na rotina e ambos terem o propósito de sempre inventar alguma coisa nova, seja uma comida diferente, ir a um restaurante novo ou conhecer um lugar”, sugere. “Outro ponto que nunca se deve perder de vista é fazer com que o parceiro se sinta admirado. Por exemplo, se o seu marido ama futebol, você não precisa acompanhar, mas você pode escutar de verdade”, cita. Além disso, a psicóloga afirma que é fundamental fazer com que o outro se sinta amado, com elogios e pequenas demonstrações de carinho em público. “Se o seu esposo é um ótimo pai, fale isso para ele na frente de outras pessoas”, ensina.

Nem todo divórcio é inevitável, na visão dela. Uma forma de resgatar a relação, conforme Adriana, consiste em explorar os gostos em comum. “Quando vocês se conheceram, provavelmente existiam músicas, filmes, passeios de que ambos gostavam, e voltar a essas coisas pode unir mais o casal”, explica. O único casamento que não pode ser salvo, na opinião dela, é aquele em que não existe mais respeito e há violência.

“Durante o casamento, é preciso sempre alinhar as expectativas e conversar sobre tudo, sem deixar nada subentendido”

ADRIANA GOMES, psicóloga

E quando o divórcio é inevitável?

Com 12 anos de experiência como terapeuta de casal, a psicóloga Leiliane Silva do Nascimento, que também atende em Ponta Grossa, observa que a separação não precisa ser necessariamente um momento de dor e sofrimento, “embora ao final seja preciso, sim, elaborar o luto pelo que se perdeu”. Segundo ela, algo que ajuda as pessoas que passaram pelo processo do divórcio é elas terem consciência de que lutaram para o relacionamento dar certo. “A certeza de que fizeram todo o possível e que, mesmo assim, não puderam continuar juntos é o que traz paz para um final de relacionamento. Nós não nos casamos para sermos infelizes e nos separarmos. Então claro que há um momento de tristeza, mas é possível amenizar esse sofrimento”, garante.

A terapeuta ressalta que o respeito deve estar presente também quando o casal vai conversar sobre o divórcio, para que decidam amigavelmente o que fazer em relação à guarda dos filhos, à divisão do patrimônio e aos demais assuntos. “A melhor forma possível para terminar um casamento é conversando, e o respeito é básico em qualquer relacionamento. O casal precisa deixar a ganância e o orgulho de lado e conversar para tentar resolver essas questões”, aconselha.

A questão dos filhos

De acordo com Leiliane, crianças menores podem acreditar que são as responsáveis pelo término do casamento dos pais, mas não é por causa dos filhos que os casais geralmente se separam. “Muito pelo contrário. Na maioria das vezes, as crianças são o motivo pelo qual os pais insistem em manter a relação. O que, às vezes, é muito ruim. Eu sempre falo que é melhor os pais estarem felizes, mas separados, do que juntos e se tratando mal, criando um ambiente desagradável para o crescimento daquela criança”, opina.

Segundo a psicóloga, a forma de tornar o divórcio o menos traumático possível para os filhos depende das atitudes dos pais. “Quando o casal toma essa decisão de forma consciente e responsável, com consideração mútua, e conduz o processo da forma mais amigável possível, isso com certeza vai refletir nas crianças”, explica. “Sejam honestos e claros com as crianças sobre o que está acontecendo. Amem os seus filhos e, independente de onde você mora ou com quem você se relaciona, contribua com a educação deles, não só escolar como emocional. Em resumo, esteja presente”, aconselha.

“Diante de qualquer problema, não devemos ignorar e fazer de conta que nada aconteceu. Conflitos não resolvidos se acumulam, gerando ressentimento e frustração”

LEILIANE SILVA DO NASCIMENTO, psicóloga

Quem faz dar certo é o casal

Na visão da terapeuta, o casal é responsável por fazer o casamento dar certo. Segundo ela, é preciso abandonar a ideia de que existe uma “alma gêmea” com a qual a relação será perfeita. “Nós nos casamos acreditando que o outro é a nossa alma gêmea e que o casamento vai ser perfeito, mas se depara com outra realidade”, comenta, destacando que, para fazer o casamento dar certo, cada um precisa desempenhar o seu papel, investir tempo no relacionamento e aprender a resolver conflitos. “Diante de qualquer problema, não devemos ignorar e fazer de conta que nada aconteceu. Pelo contrário: temos que ter autocontrole para saber a hora certa de falar e resolver as pendências. Conflitos não resolvidos se acumulam, gerando ressentimento e frustração”, conclui.

Conteúdo publicado originalmente na Revista D’Ponta #290 Agosto de 2022.