Segunda-feira, 17 de Janeiro de 2022

Entrevista D’P: Aparecida de Jesus Ferreira – em prol de uma sociedade antirracista

21/11/2021 às 10:53
Conteúdo exclusivo publicado na Revista D’Ponta #287 Outubro/2021

Sete livros que representam a literatura de autoria negra, além de mais outros sete organizados em parcerias, todos eles publicados no Brasil, com abordagens a respeito dos limites e possibilidades para reflexões em prol de uma sociedade antirracista, resumem a vida e obra da professora Aparecida de Jesus Ferreira, procedente de Cascavel (PR), com residência em Ponta Grossa, desde 2009. Doutora em Educação de Professores e Linguística Aplicada -PhD (2005), com pós-doutorado pela Universidade de Londres (Inglaterra, 2015), ela se tornou referência das mais conceituadas em sua área no exterior, ministrando aulas  a partir do curso de Letras da UEPG (graduação e mestrado).

Professora e pesquisadora visitante do King’s College London (2014/15 e 2018) e da University of Bristol (2020), Aparecida Ferreira tem inúmeros artigos publicados em livros e periódicos científicos no Brasil, Inglaterra, Estados Unidos, Angola, Portugal, Colômbia e Espanha. Com grande parte de sua obra também editada em língua inglesa, ela recebe convites para palestras, cursos e outros eventos pelos brasis e mundo afora. Pra quem ainda não conhece a trajetória e trabalhos de Aparecida de Jesus, confira artigos em seu site (www.aparecidadejesusferreira.com), palestras em seu canal do youtube (https://www.youtube.com/c/AparecidadeJesusFerreira/videos), seus livros (http:bitly.com/adquirirlivrossajf) e a entrevista concedida à D’PONTAPONTA a seguir.

 

As Bonecas Negras de Lara, muito provavelmente, seja um de seus livros de maior repercussão. O que levou a pesquisadora e professora altamente qualificada a escrever um livro que, se pressupõe, seja voltado para crianças?

A primeira intenção de escrever o livro foi para dar de presente para minha afilhada e sobrinha neta, para que ela tivesse orgulho do seu pertencimento racial – o nome dela é Lara. Em segundo lugar, o livro teve a finalidade de dialogar com as experiências que eu tenho como professora, trabalhando com formação de professoras/es e, a partir do contato com vários docentes, percebi algumas necessidades que abordo no livro. Por exemplo, exponho no livro questões de diversidade familiar, quando trago as várias possibilidades de família com as experiências das representações das personagens no livro. Outra questão importante que trato no livro se refere à ancestralidade e às histórias contatadas por pessoas mais velhas. O mais importante que aparece no livro é o que tece todas as histórias contadas e é sobre as bonecas negras. Abordar sobre bonecas negras pretende incentivar que mais pessoas queiram ter bonecas negras, e também queiram presentear outras crianças com bonecas negras. As bonecas negras são um artefato cultural, que precisa ser melhor abordado no contexto da escola e também no âmbito das famílias.

Podemos pensar que hoje, comparativamente há alguns anos, pode-se assegurar que nossa sociedade está mais equitativa e antirracista?

Hoje nós temos mais pessoas que estão abordando sobre as questões raciais de forma mais aberta do que era abordado há uns 20 anos atrás.  Tivemos vários avanços no que se refere a políticas educacionais, como por exemplo, políticas de ações afirmativas e cotas raciais, e políticas de inclusão e diversidade no meio empresarial. Precisamos ver essas políticas efetivadas, por exemplo, não vemos com frequência pessoas negras exercendo cargos de gerência, médicas/os, dentistas, engenheiras/os, professoras/es, etc.  É necessário ver as pessoas negras ocupando esses espaços para que de fato possamos dizer que vivemos em uma sociedade equitativa. No Brasil, 56% da população é negra, ou seja, as pessoas pretas e pardas, de acordo com o IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Desta forma, as ações antirracistas são de fundamental importância, para que haja cobranças feitas pela sociedade civil organizada, seja através de associações, sindicatos, coletivos, grupos de interesse diversos, para que as políticas em prol de uma sociedade equitativa sejam efetivadas. Os vários avanços que tivemos na sociedade nesse sentido ocorreram por ações de pessoas organizadas e comprometidas, para que tivéssemos uma sociedade mais equitativa e antirracista.

E em questões relativas à situação da mulher negra?

As mulheres negras no Brasil são 28% da população brasileira, ou seja, trata-se do maior grupo de pessoas no contexto brasileiro. No entanto, há desvantagens sociais com relação às mulheres negras que são desqualificadas de forma interseccionada, por raça, gênero e classe social. Quando vamos ver com relação a emprego, as mulheres negras são as pessoas que recebem os menores salários; com relação à universidade são as menos representadas nos cursos de graduação de maior prestígio social; com relação à moradia são as mulheres negras que moram nas piores condições; e com relação ao atendimento de saúde são as pessoas que têm menos acesso e o pior tratamento. Desta forma, pensar em políticas para o acolhimento às necessidades das mulheres negras torna-se urgente, embora já tenhamos vários exemplos de ações que têm sido feitas por coletivos de mulheres negras, que demonstram a possibilidade de avanços nesse sentido.

Como poderemos chegar a possibilidades de atuação, além da reflexão crítica, com o embasamento de uma postura antirracista?

A reflexão crítica para entender a atual condição das pessoas negras na sociedade brasileira pode ser considerada, sem dúvida, de muita relevância, principalmente para compreender como vivemos em uma sociedade em que o racismo se apresenta de forma estrutural, e que perpassa por ações políticas, do judiciário e pelo sistema econômico. Para termos uma postura antirracista, em primeiro lugar, temos que entender como as nossas relações sociais são mediadas pelo racismo e que impossibilitam que as pessoas tenham acesso a oportunidades. Essas oportunidades, quando são criadas e pensadas, possibilitam que a distribuição de renda seja feita com propósito, incluindo a população negra. Isso é ter uma postura antirracista.

Enfim, como podemos pensar uma sociedade em que todas as pessoas sejam incluídas, até mesmo a partir de seus escritos e experiências?

Para que tenhamos uma sociedade inclusiva e diversa, no que se refere às questões raciais, torna-se importante que haja investimento em formação de pessoas nos locais de trabalho, possibilitando que as pessoas tenham reflexões que levem ao “Letramento Racial Crítico”, que nada mais é do que refletir sobre raça e racismo, e como isso ocorre e afeta as nossas relações sociais, fazendo com que possamos agir em conjunto para termos uma sociedade antirracista e que seja inclusiva. Perguntas como: Quantas pessoas negras têm no meu ambiente de trabalho? Quantas pessoas negras fazem parte do nosso círculo de amizade? Quantas pessoas negras frequentam os mesmos lugares que frequentamos? São perguntas importantes, pois nos traz vários questionamentos, como por exemplo, por que não tenho pessoas negras na mesma quantidade de pessoas brancas fazendo parte das minhas relações sociais? As respostas que individualmente cada pessoa terá para esses questionamentos precisam de alguma forma incomodar, para que esse incômodo traga possibilidades de mudanças nos locais em que atuamos e possamos ter uma postura antirracista e inclusiva.