Sábado, 13 de Abril de 2024

Subnotificação, falta de testes e resultados imprecisos; entenda o que está por trás do aumento das mortes por COVID-19 em PG

2020-09-01 às 12:01

Desde o início da pandemia de COVID-19, o portal D’Ponta News divulga diariamente o número de pacientes diagnosticados com o coronavírus em Ponta Grossa e de vidas perdidas em decorrência da doença. Nas últimas semanas, o número de mortes acelerou, enquanto o registro de novos casos não seguiu o mesmo ritmo no município.

De acordo com dados da Fundação Municipal de Saúde (FMS), Ponta Grossa tem 2.997 casos confirmados e 54 óbitos por COVID-19. Apenas em agosto, nos últimos três dias (de 29 a 31 de agosto), foram 11 mortes causadas pelo coronavírus, uma média de uma vida perdida a cada seis horas.

Um indicador importante para acompanhar o avanço da pandemia é a taxa de letalidade. Ela é calculanda dividindo o total de óbitos pelo total de pessoas infectadas. Na prática, a letalidade mostra o risco de um paciente com COVID-19 vir a morrer por causa da doença. 

A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que a taxa de letalidade da COVID-19 esteja atualmente em 0,6%. “Essa é uma taxa de letalidade mundial, calculada com base nos países que já estão em desaceleração do coronavírus. Isso não é uma realidade no Brasil ainda”, explica o médico Rodrigo Manjabosco, secretário-adjunto de Saúde de Ponta Grossa.

Em Ponta Grossa, a taxa de letalidade do coronavírus está em 1,8%. “Não vejo que essa taxa seja considerada anormal. Se compararmos com os municípios maiores do Paraná, nós estamos abaixo do que a taxa dessas grandes cidades”, enfatiza. Ele lembra que em municípios como Cascavel e Londrina a taxa de letalidade fica entre 2% e 3%.

Entretanto, Manjabosco admite que taxa de letalidade cresceu nos últimos dias e atribui isso ao comportamento da população. “Nós estamos num momento de ascensão de casos, onde a mortalidade vai realmente começar a aparecer e os pacientes que são suscetíveis estão começando a ser contaminados, principalmente em virtude das pessoas estarem relaxando a quarentena e as medidas de prevenção”, alerta. 

Descompasso pode indicar subnotificação de casos

A médica infectologista Gabriela Margraf Gehring destaca que o número de óbitos nem sempre vai acompanhar o número de casos e novos pacientes diagnosticados. “Às vezes os números de casos estão diminuindo, mas os pacientes são muito graves, ficam muito tempo em ventilação mecânica e acabam indo à óbito após muitos dias de internação”, frisa

Ela lembra ainda que a taxa de letalidade varia de acordo com a localidade, disponibilidade dos serviços de saúde e condições econômicas. “A gente não pode dizer que todas as regiões têm a mesma letalidade. Ela varia se os pacientes estão bem informados de forma a procurar atendimento de forma adequada, se possuem condições financeiras para ter um oxímetro em casa para monitorar a saturação e se existem serviços médicos de excelência à disposição”, exemplifica.  

Entretanto, ela não descarta a possibilidade da diferença indicar uma subnotificação de casos de coronavírus no município. “Com certeza, tem muito mais casos do que os números que a gente vê divulgados oficialmente. A gente não consegue testar todo mundo e pacientes com quadros leves, que não são idosos, gestantes ou possuem comorbidades acabam não sendo testados e não entram para as estatísticas oficiais” relata.

“Se o paciente tem contato com caso positivo e tem quadro gripal, a gente consegue coletar o exame via plano de saúde. Porém, via SUS existem critérios e a gente não consegue coletar de todo mundo”, comenta. Ela acrescenta que o critério adotado pelo Ministério da Saúde é de testar apenas pacientes em estado grave ou que se enquadrem nos grupos de risco.

A infectologista lembra ainda que o exame não tem 100% de sensibilidade e o resultado pode ser um falso negativo. “O paciente tem um quadro clínico super característico, ele faz a coleta para o exame e o resultado vem negativo, mesmo assim isso não afasta que ele tenha a doença. Para manejar a gente vai interpretar esse paciente como positivo, mas ele não vai entrar as estatísticas porque ele não positivou o exame”, exemplifica.   

Subnotificação, falta de testes e exames imprecisos são alguns dos fatores que ajudam a explicar a recente diferença entre o número de novos casos de COVID-19 e mortes em decorrência da doença em Ponta Grossa.