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Quarta-feira, 28 de Fevereiro de 2024

D’P Artigo: “Dois ponta-grossenses em Cuba ”, por Érica Busnardo e João Pedro Busnardo de Souza

2023-04-30 às 15:19
Foto: Reprodução

Se na cabeça de um observador brasileiro pode ser uma tarefa difícil desvencilhar a imagem de Cuba da revolução que lançou a ilha ao centro da geopolítica mundial, para os cubanos a revolta liderada por Fidel Castro constitui apenas a fase mais recente de uma luta pela independência, iniciada seis décadas antes da fuga do ditador Fulgêncio Batista, em 1959. Uma caminhada pelas praças da capital cubana revela, antes dos “barbudos” Fidel Castro, Che Guevara e Camilo Cienfuegos, uma profusão de nomes praticamente desconhecidos pelo público brasileiro, estampados em monumentos, nomes de ruas e nas notas de pesos cubanos.

Da vitória revolucionária, saíram fortalecidas a educação, a saúde e a segurança, colocando o país entre os melhores do mundo nessas questões, fato confirmado pelos próprios cubanos com quem conversarmos quando estivemos em Cuba, em janeiro. Pudemos sentir a segurança quando estivemos lá, como na noite em que nos perdemos pelas charmosas ruelas de Habana Vieja. Nem mesmo as vias mais escuras e solitárias nos amedrontaram. Uma informação prestada aqui, outra ali, e meia hora depois estávamos de volta ao Floridita, o famoso bar imortalizado por Ernest Hemingway.

El Floridita, La Bodeguita Del Médio e La Terraza eram os bares preferidos de Hemingway. No Floridita, ele sentava-se para tomar o seu daiquiri. Na Bodeguita, ele gostava dos mojitos. Dizia Hemingway que ali estava o melhor mojito de Havana. La Terraza era onde ele se encontrava com o seu amigo cubano Gregório Fuentes, o pescador que lhe serviu de inspiração para “O Velho e o Mar”.

La Bodeguita Del Médio, um dos bares prediletos do escritor americano Ernest Hemingway em Havana

Fizemos o percurso de Hemingway, começando pela Bodeguita, para experimentar aquele que, segundo o escritor americano, é o melhor mojito da cidade. Descobriríamos mais tarde que o melhor mojito não está lá. Tomamos outros melhores pelos bares de Havana. Na Bodeguita, além dos mojitos, provamos – e aprovamos – o tradicional Moros e Cristianos (basicamente o nosso feijão com arroz) e, claro, deixamos nossos nomes num pedaço da parede, tomada por tantas assinaturas, datas, declarações e até mesmo um pedido de casamento.

No Floridita provamos o famoso daiquiri. Aqui, Hemingway tinha razão em pedir o drink em dose dupla: o melhor está, de fato, ali.
Outro ponto obrigatório em Cuba é a Plaza de la Revolución, palco de grandes manifestações políticas e culturais. Assim que estacionamos, José, o simpaticíssimo motorista que conduzia o Chevrolet Bel Air 1958 conversível que nos levou até lá, contou-nos que naquele espaço Fidel conseguia reunir um milhão de pessoas. “E as pessoas eram obrigadas a ir?”, perguntei. “Não. Iam porque Fidel era herói”, respondeu-me.

No entorno da praça está a sede do governo e alguns órgãos federais. Num dos prédios, o do Ministério do Interior, Che Guevara nos aparece na fachada, imponente, com a frase “hasta la victoria siempre”, logo abaixo do contorno de seu rosto. Os cubanos contam que Che sempre escrevia essa frase logo abaixo de sua assinatura nos documentos oficiais (ele foi ministro das Indústrias e presidente do Banco Central Cubano). Era a sua marca.

Plaza de la Revolución, em torno da qual estão monumentos em homenagem a figuras importantes da Revolução Cubana, como Che Guevara

Em um prédio vizinho, do Ministério das Telecomunicações, está o contorno do rosto de Camilo Cienfuegos, um dos líderes da revolução cubana não tão conhecido no exterior, mas profundamente respeitado em Cuba. A frase que acompanha Cienfuegos é a famosa: “Vas bien, Fidel”, dita por ele, em resposta a Fidel, que lhe perguntou “¿Voy bien, Camilo?”, em seu primeiro discurso para o povo cubano, após a vitória da revolução.

A história da revolução cubana passa também por outras cidades, como Santa Clara, palco do emblemático combate comandado por Che Guevara, que teve papel fundamental na vitória. Foi lá que ocorreu a famosa tomada do trem blindado, quando 20 homens da revolução enfrentaram e venceram 300 soldados de Fulgêncio Batista.

Os vagões blindados e o trator usado para descarrilar o trem com os soldados de Batista estão no local onde ocorreu o fato histórico, e hoje é conhecido como La Toma del Trem Blindado. Os guias contam uma curiosidade: essa batalha, especificamente, foi comandada por um piá de 19 anos, Ramon Guile. Quando rendido, o chefe da tropa de Batista não acreditou que o jovem comandava a batalha e se negou a negociar com Guile. Che, que comandava outra frente, teve de ir ao local para o rendimento da tropa.

Em Santa Clara está também o Mausoléu que abriga os restos mortais de Che, entregues a Cuba em 1997 (Che foi morto na Bolívia, em 1967). Infelizmente não pudemos visitar a cripta, pois era dia de limpeza e o mausoléu estava fechado. Coube-nos somente a visita à imponente estátua de sete metros do revolucionário com o seu traje guerrilheiro e a emblemática boina.

Ao lado da saúde e da educação, a segurança é considerada um dos grandes destaques de Cuba. “Sentimos isso quando estivemos lá”, conta a autora

E não podemos fechar esse texto sem falar da noite cubana, com salsa e mambo a cada esquina. Não pudemos conhecer a famosa Fábrica de Arte, a melhor noite cubana, que mescla música, dança, arte e cultura, pois estava fechada e só abriria dez dias após a nossa data de regresso ao Brasil. Em compensação, conseguimos assistir a um show dos remanescentes do Buena Vista Social Club, no Guajirito, em Havana, e ouvimos poesias declamadas e dançamos muita salsa na Casa de la Trova e no espaço conhecido como Casa de la Música, um local ao ar livre, na Plaza Mayor da histórica Trinidad (cerca de 300 quilômetros da capital).

Com salsa e mambo em cada esquina, Cuba tem uma noite efervescente e apaixonante, com shows regulares do grupo Buena Vista Social Club

Nestes dias que ficamos em Cuba, percebemos que, apesar das dificuldades provocadas pelo bloqueio econômico, há um povo que se mantém cordial, solícito, alegre, com senso de coletividade e com grande reverência a seus heróis do passado. O espírito de luta permanece e está no ar, atento e forte.

“Percebemos que, apesar das dificuldades provocadas pelo bloqueio econômico, há um povo que se mantém cordial, alegre, com senso de coletividade e com grande reverência aos seus heróis do passado”

 

Daqueles 109,8 mil quilômetros quadrados do país antilhano (um pouco maior do que Santa Catarina), onde o mar do Caribe, o Golfo do México e o Oceano Atlântico se encontram, vieram conosco para o Brasil o rum, é claro (não o de turista; trouxemos aquele que o cubano não exporta, Santiago), os charutos legítimos, a saudade, as histórias para contar e a promessa de voltar.

Pátria ou morte: Cuba antes e depois da revolução

Antes de falar sobre o regime adotado hoje em Cuba, é importante conhecer um pouco sobre a história da revolução. Em 1952, quando o então presidente Fulgêncio Batista dá um golpe de estado e passa a governar de maneira ditatorial, são os Estados Unidos o primeiro país a reconhecer o novo governo. A partir daí, Batista, aliado aos poderosos latifundiários que controlavam as maiores plantações de cana-de-açúcar da ilha, estabelece um regime autocrático e corrupto, concedendo enormes vantagens a empresários estrangeiros, principalmente americanos, enquanto a maior parte da população cubana vivia na miséria.

Cuba se tornou a terra dos cassinos e da prostituição, um país onde mafiosos como Al Capone tinham livre trânsito para se hospedar em hotéis de luxo e organizar o tráfico do rum, a bebida nacional cubana, para os EUA. Estima-se que, antes da revolução de 1959, um em cada quatro cubanos não sabia ler ou escrever. No campo, essa taxa era quatro vezes maior do que nas cidades, enquanto a mortalidade infantil entre camponeses era o dobro da registrada na população urbana. A situação era especialmente ruim para as mulheres: mais de dez mil cubanas se dedicavam à prostituição em 1958, de acordo com um cálculo.

“Estima-se que, antes da revolução de 1959, um em cada quatro cubanos não sabia ler ou escrever. A situação era especialmente ruim para as mulheres: mais de dez mil cubanas se dedicavam à prostituição em 1958”

 

Revoltados com a miséria, desigualdade e subserviência econômica de seu país, um grupo de estudantes universitários de classe média começa, no início dos anos 1950, a organizar um movimento para derrubar a ditadura de Batista. A revolução liderada pelo advogado recém-formado Fidel Castro triunfa no primeiro dia de 1959, com a fuga de Batista da ilha. As transformações são rápidas: em abril, os cassinos são fechados e as praias privadas são abertas ao público. E, em maio, o governo publica uma lei de reforma agrária, estabelecendo um limite máximo para a posse de terras.

Escola em Cuba. Nas paredes, fotos de Fidel Castro e Che Guevara, considerados heróis por parte da população até hoje

Começam também as nacionalizações de negócios estrangeiros, quando centenas de refinarias de petróleo, usinas açucareiras, companhias de telefonia e eletricidade, e bancos, muitos desses obtidos de maneira ilegal por cidadãos americanos durante a ditadura de Batista, passam para as mãos do Estado cubano.

Em 1961, os EUA tentam retomar o domínio da ilha, mas são novamente derrotados. Esgotadas as opções militares, mudam de tática, e, em 1962, o presidente John F. Kennedy institui um bloqueio comercial, o qual, seis décadas depois, ainda está em vigor contra a pequena ilha caribenha.

CURIOSIDADES E DICAS

→ Nas nossas andanças, vimos estátuas e bustos de grandes personagens que fizeram a história de Cuba. Só não vimos de Fidel. A guia explicou: Fidel não gostava do culto à personalidade. A única estátua de Fidel está em Moscou (Rússia), inaugurada em novembro do ano passado

→ Ensinamos cubanos a sambar e o significado da palavra saudade. Essa foi mais difícil de explicar

→ Cubanos são noveleiros de carteirinha. A mais lembrada e falada é “Avenida Brasil”. Atualmente está passando por lá “Bom Sucesso”, de 2019

→ Nas escolas, o uso do lenço sobre o uniforme é obrigatório e distingue o nível escolar: o azul é usado por alunos do 1.º ao 3.º ano e o vermelho para os alunos dos 4º, 5º e 6º anos

→ Se forem a Havana, não comprem charutos de vendedores ambulantes na rua. Falarão de uma cooperativa e que, especialmente naquele dia, é o festival do charuto, portanto, o preço estará pela metade. É mentira. Você comprará charutos de qualidade duvidosa. Compre em lojas, ou em Viñales, a 180 quilômetros de Havana, direto com o produtor

→ Tenha sempre trocados para as gorjetas. Nós dávamos 50 pesos. Alguns agradeciam, enquanto outros olhavam de cara feia. Os nossos amigos argentinos davam um dólar (algo em torno de 120 pesos)

→ Procure hotéis próximos do Centro. Você economizará muito em transporte.

Contando com praias lindíssimas, Cuba era uma espécie de balneário dos Estados Unidos até a explosão da revolução liderada por Fidel Castro

Conteúdo publicado originalmente na Revista D’Ponta #294 Março/Abril de 2023