Domingo, 06 de Abril de 2025

Artigo: ‘Luzes e sombras das pesquisas eleitorais’, por Fabio Anibal Goiris

2025-04-05 às 10:25
Foto: Divulgação/TSE/Arquivo

As pesquisas eleitorais sempre foram um tema polêmico, desde que começaram a ser feitas pelo chamado Ibope em 1945. O Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope), foi uma empresa brasileira de pesquisas de mercado, opinião e política. Ao longo de nada menos que oito décadas de existência, foi uma das maiores companhias do seu ramo da América Latina. Inclusive qualquer sucesso midiático de alguma pessoa era motivo para dizer que fulano “tem ibope” ou “dá ibope”. Contudo, em janeiro de 2021 a empresa encerrou suas atividades.

Assim, a partir de 1945 até hoje, as pesquisas de intenção de voto passaram a ser comuns nas eleições brasileiras. Muitos institutos surgiram e as técnicas e métodos por eles utilizados foram se aperfeiçoando. Mas, no Brasil, nesses 80 anos, o único elemento que permanece atual são as polêmicas sobre pesquisas eleitorais. Desde 1986, o TSE, Tribunal Superior Eleitoral, permite e controla a divulgação dos resultados de pesquisas eleitorais (Resolução no 13.090 do TSE). Qual a razão de divulgar/controlar as pesquisas eleitorais? A razão é lógica e psicológica: porque se acredita que as pesquisas eleitorais e a divulgação pela mídia de seus resultados têm o poder de influenciar o voto do eleitor. Inclusive porque, no Brasil, é muito comum o conceito de que o eleitor “não quer perder seu voto” (como nos jogos de azar ou de futebol) ou, então, não quer passar pelo constrangimento de “votar (apostar) no perdedor” (como numa corrida de cavalos). Os cientistas políticos brasileiros já escreveram rios de tinta sobre este tema tão complexo, que envolve a alienação (no sentido de Marx) e a desinformação (no sentido de Noam Chomsky).

Não é por acaso que a UEPG através de um trabalho de extensão universitária criou um site com o nome de Projeto de Combate à Desinformação. Além disso, o site Cultura Plural é um projeto de extensão do Curso de Mestrado em Jornalismo da UEPG que procura a difusão cultural de maneira a contribuir para a produção do saber científico ancorado nas demandas sociais. Estas iniciativas mostram que a cidade de Ponta Grossa pode estar passando por uma transição em direção a um melhor entendimento (e à própria democratização) da cultura política eleitoral, com reflexo nas pesquisas eleitorais. Nem é preciso repetir que a região dos Campos Gerais vem sofrendo de séculos de permanência de um conservadorismo político que procrastina, de forma aguda e persistente, uma evolução da ‘cultura política democrática’. Estas ações universitárias que visam o aumento da informação política e a diminuição da alienação deveriam ser multiplicadas em todas as instancias sociais, até chegar ao mais longínquo eleitor.

A professora Genilda Alves de Souza, da Fundação Casper Libero, assinala que a maioria das pessoas ainda desconfia das pesquisas ou desabona esse instrumento de análise da realidade, particularmente das pesquisas eleitorais. Ou seja, grande parte dos eleitores afirmam que a pesquisa vem sendo “manipulada”, “fraudada”, “comprada”, etc., e não poderia ser usada como parâmetro de análise da realidade. Outro fator de desconfiança é que as pesquisas eleitorais são entendidas como o resultado do interesse de grupos e de pessoas que apostam num candidato e, para tentar lucrar com isso, “compram” as pesquisas eleitorais. De qualquer modo, as pesquisas eleitorais influenciam de forma acentuada a muitos eleitores, os quais chegam ao ponto de optar pelo chamado “voto útil” (aquele voto dado a certo candidato, pelo simples fato de estar na frente nas pesquisas), ou ainda, no outro extremo, deposita seu voto no candidato que não tem chances de ganhar, como forma de protesto.

Os seres humanos, historicamente, sempre trataram com grande respeito a matemática e a estatística. Os índices de natalidade, de mortalidade, de doenças como o câncer e a covid/19, fazem parte de um conjunto de números de grande interesse social. Assim, de forma similar, na política eleitoral, os números (leia-se discurso estatístico), tentam outorgar neutralidade, objetividade e mais do que tudo, precisão, às notícias que falam de candidatos a cargos públicos. As notícias praticamente deixam de ter humanidade e passam a oferecer tabelas, listas, sequências numéricas que, ao final, possam dizer quem irá ganhar as eleições. Mas, não se pode negligenciar que a interpretação dos dados é feita por humanos, o que sempre complica o teor dos resultados finais. Além disso, os resultados estatísticos podem ter conclusões que estejam incorporando algum grau de erro. Os resultados eleitorais devem ser entendidos como relativos e provisórios (alguns o definem como semelhantes a uma fotografia do momento). Não devem ser percebidos como dados permanentes e absolutos. A notícia dada pelo jornalismo pode, nestes casos, aumentar ainda mais a alienação uma vez que o eleitor acredita nos números e nas estatísticas das mídias, por vezes dominados pela espetacularização.

De acordo com o sociólogo Alberto Carlos Almeida a desconfiança sobre os dados das pesquisas eleitorais pode surgir de três elementos: 1) as amostras devem incluir informações sobre a técnica de amostragem usada, o tamanho da amostra (número de entrevistas); 2) sobre o questionário da pesquisa; é preciso saber que tipos de perguntas foram feitas e 3) sobre o trabalho de campo; qual o perfil dos entrevistadores (são de esquerda ou de direita!) e qual o percentual de erros que podem ter afetado a coleta de dados. Estes dados já demonstram a complexidade da realização das pesquisas eleitorais e, sobretudo, a seriedade com que devem ser encaradas. As pesquisas têm por objetivo refletir (ou descobrir!) o pensamento e a tendencia ideológica de uma determinada população. Isto implica também em conjecturar sobre as perspectivas de alteridade e de democracia ainda tão obscuras e certamente incrustadas no universo psicanalítico ou freudiano da política.

Da observância daqueles métodos de pesquisa surgiu uma nova era para as pesquisas eleitorais. Nos últimos anos estas pesquisas avançaram muito, se sofisticaram e progrediram em uma direção humanista. A introdução do sistema de dois turnos nas eleições de prefeitos, governadores e do presidente da República foi um indiscutível avanço democrático. A incorporação diversos métodos usados pelos institutos foi outro avanço. Os levantamentos podem ser feitos presencialmente, por telefone e até pela internet, utilizando amostras e questionários diferentes. Parece aumentar também a confiança do eleitorado nas informações divulgadas pelos institutos de pesquisas. Há uma elevação do nível de qualidade do trabalho estatístico desenvolvido. Por exemplo, as pesquisas de “boca de urna” passaram a ter mais credibilidade e, ao que parece, pode tornar mais arriscada a manipulação de dados. Pode-se concluir que as pesquisas eleitorais são um meio útil (e quem sabe se tornem até imprescindíveis) à tomada de decisões por parte de eleitores e também de candidatos.

Fabio Anibal Goiris autor é professor da UEPG. Graduado em Direito. Mestre em Ciência Política pela UFRGS. Realizou curso de Sociologia Política na Universidade de Londres. É autor do livro: ‘Estado e Política: a histórias de Ponta Grossa – PR’