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Sexta-feira, 23 de Fevereiro de 2024

D’P Política: A minha marca na história

2023-10-24 às 16:59
Fotos: Divulgação

Nos 200 anos de história de Ponta Grossa, quatro ex-prefeitos do município relembram as suas respectivas gestões e revelam os seus sonhos para a Ponta Grossa do futuro 

Por Michelle De Geus

Quando o coronel Cláudio Gonçalves Guimarães assumiu a gestão da Prefeitura Municipal de Ponta Grossa, o Brasil havia se tornado República e a cidade começava a ganhar notoriedade no estado. O primeiro prefeito da história do município esteve à frente do cargo por apenas dois anos, entre 1891 e 1892, num governo provisório, até que fossem realizadas as primeiras eleições municipais.

Nesses 200 anos de história, Ponta Grossa deixou de ser um município essencialmente agrário, abraçou a sua vocação industrial, fortaleceu o comércio e se firmou como polo educacional dos Campos Gerais. Isso só foi possível graças aos esforços de coronel Cláudio e de outros 44 políticos que, entre erros e acertos, comandaram o Executivo do município e contribuíram para o desenvolvimento de Ponta Grossa. Nesta matéria, quatro desses gestores – Otto Cunha, Jocelito Canto, Péricles de Holleben Mello e Marcelo Rangel – relembram as suas gestões e falam sobre os seus sonhos para Ponta Grossa.

Otto Cunha

Otto Cunha governou Ponta Grossa entre 1983 e 1989. “Na nossa gestão, procuramos pensar a cidade para o futuro”, lembra ele, defendendo que a sua mais decisiva contribuição como prefeito foi administrar o município com seriedade, respeitando os recursos dos contribuintes e entregando o município sem dívidas. “Quando eu assumi o governo, a cidade estava em uma situação calamitosa. O quadro era desolador, com muitas contas e poucos recursos”, lembra, citando que o Parque de Máquinas estava sucateado, a folha de pagamento dos servidores estava atrasada em quatro meses e serviços públicos como coleta de lixo, energia, iluminação e telefonia tinham atrasos que variavam de 12 a 24 meses. Além disso, os recursos do ICMS que chegavam aos cofres do município já estavam comprometidos com empreiteiros que recebiam diretamente do Estado por procuração. “Os dois primeiros anos foram dificílimos, mas, ao final do meu mandato, entreguei o município totalmente saneado, com apenas 1% do orçamento com compromissos de longo prazo e com juros subsidiados”, aponta.

Cunha também acredita que tenha deixado contribuições importantes para a mobilidade urbana de Ponta Grossa, como, por exemplo, no caso da retirada dos trilhos ferroviários da região central da cidade. “O município era dividido pelos trilhos da rede ferroviária, o que impossibilitava a implementação de melhorias no tráfego urbano. Através de ações políticas junto aos governos federal e estadual, conseguimos realizar o sonho de unificar os dois lados da cidade”, explica. Para isso, foi necessário construir 21 quilômetros de trilhos ligando os ramais do sul aos de Curitiba. O município promoveu a desapropriação do terreno no Cará-Cará, o Estado executou a terraplanagem e a rede colocou os trilhos. “Com isso, foi possível retirar os trilhos e hoje termos um parque central e uma avenida que corta a cidade de norte a sul”, detalha.

A trajetória de Cunha, assim como de muitos outros políticos, também está marcada por algumas desilusões. O ex-prefeito revela, por exemplo, que encomendou um estudo para a implantação de uma espécie de metrô de superfície ligando o Distrito Industrial à zona norte/oeste da cidade, aproveitando o leito da antiga ferrovia. “O projeto ficou realmente espetacular, pois o sistema atravessaria a cidade em toda a sua extensão. Infelizmente, não foi dada continuidade pelas administrações seguintes. Talvez seja essa uma frustração que eu guarde comigo”, confessa.
Com Ponta Grossa completando 200 anos de história, Cunha afirma que sonha com uma cidade “organizada, inclusiva e socialmente justa”. “Esse contexto traz um desafio de oferecer serviços públicos de qualidade, porque a população precisa ser bem atendida nos hospitais, nos postos de saúde, na educação e no transporte público”, opina, acrescentando que é preciso desenvolver políticas econômicas e urbanas que favoreçam o crescimento sustentável do município. “Gostaria de ver uma cidade muito colorida em todos os aspectos. Uma Ponta Grossa com mais pontes do que muros, uma cidade para as pessoas, espaços e sonhos”, complementa.

Jocelito Canto

“Ponta Grossa é uma cidade que vem crescendo e se desenvolvendo. É um dos municípios que mais cresceram a partir do momento que retomou o seu processo de industrialização”, avalia Jocelito Canto, que governou a cidade entre 1997 e 2000. Ele afirma que esse processo começou durante a sua gestão, quando grandes empresas se instalaram na cidade – entre elas, Tetra Pak, Continental, Beaulieu, Masisa e Sadia –, fortalecendo o comércio e atraindo shoppings centers e universidades. “Ponta Grossa cresceu muito devido a essa abertura que foi dada. Era uma cidade muito fechada, mas passou a ter mais liberdade a partir do momento que eu assumi a Prefeitura e liberei algumas amarras que existiam”, destaca.

O ex-prefeito comenta que, naquele período, havia muita dificuldade de buscar financiamentos e que esse crédito se formou a partir da chegada das novas indústrias. “Na época, a Prefeitura fez um investimento de quase R$ 900 mil com a compra de um terreno no Distrito Industrial para retomar o processo de industrialização. Então, deixou-se de fazer outras coisas, mas era preciso fazer aquele sacrifício para criar uma arrecadação que chegasse no ponto que está hoje”, comenta, ressaltando que, em seu último ano de gestão, o orçamento era de R$ 96 milhões e que atualmente se encontra em R$ 1,5 bilhão. “Tudo isso foi plantado lá atrás. Eu fui o prefeito que mais criou arrecadação para o município e que menos endividou a cidade”, afirma.

Jocelito lembra que, apesar de todas essas conquistas, assumiu o cargo com apenas 31 anos, sendo considerado até hoje o prefeito mais jovem da história de Ponta Grossa. “É evidente que faltou um pouco de experiência para mim. Acho que naquele momento eu era muito jovem, mas estava com muita vontade de trabalhar”, analisa, citando como exemplo a queda na arrecadação, o que levou a dificuldades financeiras e atrasos de pagamentos. “Se fosse hoje, eu acho que teria um pouco mais de experiência para conseguir controlar melhor aquilo. Então, eu cometi alguns erros, mas sempre com a intenção de acertar”, pondera.

O ex-prefeito também comemora acertos e afirma que criou uma nova maneira de governar a cidade. “A minha maior contribuição como prefeito foi quebrar um ciclo que existia, de que quem comandava a cidade era a elite, e mudar o modo de governar”, ressalta, mencionando que a sua gestão investiu em programas sociais e na valorização de entidades assistenciais. “Eu fui um prefeito muito popular, que andava no gabinete móvel, que não se escondia, que atendia a população, que fazia a Operação Bairro nos finais de semana”, cita.

Em sua opinião, Ponta Grossa precisa continuar trabalhando no processo de industrialização, apoiando a vinda de grandes empresas e fortalecendo o comércio. “Eu gostaria de ver Ponta Grossa cada vez mais fraterna e segura. A cidade precisa continuar crescendo, trazendo novas indústrias, valorizando o povo do bairro e, principalmente, melhorando a saúde”, afirma. “Hoje eu sinto que o povo reclama muito da saúde, e essa é a coisa mais importante que uma cidade pode ter. Não tenho dúvida de que é preciso acertar a saúde e que a Prefeitura precisa investir muito nessa área”, indica.

Péricles de Holleben Mello

“A minha principal contribuição para a cidade foi resgatar e fortalecer a identidade local, as enormes potencialidades de Ponta Grossa e dos Campos Gerais, o amor pela cidade e o orgulho de ser ponta-grossense”, garante Péricles de Holleben Mello, que governou o município entre 2001 e 2004, acrescentando que a sua gestão também foi baseada na redistribuição de renda, na participação popular, na promoção da cidadania e na valorização dos servidores públicos. “Em nosso governo, Ponta Grossa avançou significativamente em diversas áreas. Sinto muito orgulho pelo que consegui realizar em um período político difícil e de recessão econômica, no final do governo Fernando Henrique Cardoso e início do governo Lula”, analisa.

O ex-prefeito afirma ainda que tem um sentimento especial e o orgulho de ter comprado, restaurado e transformado o Cine-Teatro Ópera. “Eu fui atacado por todas as forças políticas de oposição, que usavam de uma argumentação vulgar, de aritmética simples, para dizer que a construção de um teatro não era prioridade”, lembra. “Hoje, passados cerca de 20 anos, o Ópera ainda concentra a principal agenda cultural da cidade e é elogiado por todos”, argumenta. No entanto, Péricles admite que também cometeu erros, citando como exemplo a implantação do sistema de software livre que, segundo ele, prejudicou gravemente o gerenciamento contábil da Prefeitura durante a maior parte de seu governo.

Engenheiro civil por formação, ele lembra ainda de obras que tentou realizar na cidade, mas que não conseguiu. “Governei apenas durante quatro anos, e houve muitos projetos, obras e ações que eu tentei, mas não pude realizar ou concluir. É o caso do Lago Olarias, que iniciei, mas só foi concluído 15 anos mais tarde”, cita. O ex-prefeito afirma que foi o responsável pela compra do terreno, a realocação das famílias do entorno, a implantação do loteamento Estrela do Lago, a construção da barragem e a colocação dos gabiões. Outra obra iniciada durante a sua gestão, e que Péricles gostaria de ter concluído, é a restruturação do antigo Mercado Municipal.

Apesar de ressaltar que não será candidato ao governo municipal, Péricles menciona que continua a sonhar e a buscar uma cidade diferente. Ele conta que está estruturando, ao lado de lideranças comunitárias e intelectuais, o projeto “Ponta Grossa 200 Anos: Campos Gerais e Identidade Ponta-Grossense”. A iniciativa é coordenada de forma suprapartidária por várias instituições da sociedade civil em parceria com a Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), e busca, através do resgate de nossa identidade, alternativas de desenvolvimento sustentável para a cidade. “Queremos, a partir de nossas potencialidades, da preservação de nossas joias mais preciosas, como os Campos Gerais e a Escarpa Devoniana, infelizmente em cruel e vergonhoso processo de degradação ambiental, e da criatividade e ousadia de nossa gente, formular diretrizes para a cidade do futuro. É uma forma diferente de comemorar os 200 anos da cidade”, aponta.

Marcelo Rangel

“Ponta Grossa passa pelo melhor momento de sua história. Nós temos, hoje, uma cidade rica, com condições de oferecer melhores serviços, melhores oportunidades e, principalmente, uma cidade mais madura em todos os aspectos”, defende Marcelo Rangel Cruz de Oliveira, que governou o município entre 2013 e 2020, durante duas gestões consecutivas. Rangel destaca que uma de suas primeiras ações como prefeito foi mostrar o quanto a cidade poderia contribuir para o desenvolvimento do estado, trazendo recursos, fortalecendo o comércio e buscando investimentos industriais e multinacionais. “Antes os ponta-grossenses se viam como os ‘patinhos feios’ do estado. A cidade perdia para Cascavel, Foz do Iguaçu, Londrina, Maringá, e ficava sempre na sombra da capital. Quando chegamos à Prefeitura, nós mudamos esse jeito de pensar”, garante.

Ainda dentro da análise de suas duas gestões, Rangel declara que gostaria de ser lembrado como o “prefeito da educação”. “Em qualquer lugar do mundo, para uma cidade se desenvolver, é preciso ter educação de qualidade. É uma transformação que muitas vezes as pessoas não veem no dia a dia, mas que transforma toda a realidade”, avalia, mencionando que, durante as suas gestões, foram construídas 84 novas escolas e implantado o ensino em tempo integral. “Nós transformamos as escolas municipais em exemplo para o país, com o apoio dos professores, dos servidores e também dos pais e mães que viram a transformação de Ponta Grossa na área educacional”, acrescenta.
Rangel garante ainda que não faria absolutamente nada de diferente e que o seu governo foi baseado na opinião das pessoas. “Eu conversava com as pessoas nos bairros, elas me pediam as coisas e eu simplesmente levava essas demandas para que os nossos secretários desenvolvessem as ações. O meu mandato foi baseado no carinho e no amor que os ponta-grossenses têm pela sua cidade, e é por isso que eu saí com uma avaliação recorde”, aponta. “Eu estou muito orgulhoso de ver que Ponta Grossa não é mais aquela cidade que nós víamos no passado e que agora está respirando novos ares”, acrescenta.

O ex-prefeito minimiza eventuais problemas, que chama de pontuais, e reforça que é possível se orgulhar dos avanços de Ponta Grossa na área da educação. “A falta de educação do passado deixou muitos atrasos, então leva um certo tempo para que a gente consiga superar e mudar o pensamento de uma geração. Mas eu não tenho dúvida de que estamos no caminho certo”, afirma, mencionando que o seu maior desejo é que Ponta Grossa tenha uma educação comparável à de países como Finlândia e Coreia do Sul, e que o município seja mais seguro, com menos infrações como vandalismo ou destruição de bens públicos, e que as pessoas tenham mais amor pelo lugar onde vivem.

Conteúdo publicado originalmente na Revista D’Ponta #297