Sábado, 13 de Julho de 2024

Enfoque D’P: Estamos bem de praças?

2023-04-16 às 15:06
Foto: Gabriel Ramos de Lima

Mais ou menos. Das mais de 200 praças existentes em Ponta Grossa, apenas 86 contam com parque infantil, quadra de esportes, campo de futebol ou academia ao ar livre. Além disso, muitas das supostas “praças” da cidade servem apenas como estruturas de trânsito. E, para complicar ainda mais, há uma grande desigualdade em termos de qualidade e número entre as praças do Centro e as de bairros mais distantes

Por Michelle de Geus

Junto às primeiras cidades da história, surgiram também as primeiras praças. Esses espaços existem desde a Antiguidade e desempenham papéis sociais, econômicos e ambientais importantes para a população. Os gregos e os romanos utilizavam as praças para debater ideias, tomar decisões e transmitir conhecimento. Mas elas também já foram usadas para o comércio, casamentos, rituais religiosos e até execuções e funerais. No Brasil, as primeiras praças foram construídas no entorno das igrejas, durante o período colonial. E em Ponta Grossa não foi diferente. A praça Marechal Floriano Peixoto, erguida ao redor da Catedral Sant’Ana, marca o início da urbanização da cidade e serve até hoje como referência turística, ponto de encontro e local de descanso.

Atualmente, segundo a Prefeitura Municipal, Ponta Grossa conta com mais de 200 praças para atividades comunitárias e de lazer. Segundo o secretário municipal de Meio Ambiente, André Pitela, apenas em 2022 foram criadas dez novas praças em lugares estratégicos nos bairros Gralha Azul, Contorno, Uvaranas, Boa Vista e Neves, com aceitação muito positiva da parte da população. Para 2023, há, de acordo com ele, o planejamento para a criação de outras dez novas praças. “Esse trabalho é realizado para que os moradores não precisem se deslocar para o Centro e tenham um espaço de convivência para frequentar com a família no seu bairro”, explica.

Para a pesquisadora Zíngara Rocio dos Santos Eurich, praças da região central, como a Barão do Rio Branco (foto), tendem a ser mais privilegiadas em relação à infraestrutura, enquanto praças de bairros mais distantes não desfrutam da mesma qualidade (Foto: Gabriel Ramos de Lima)

Praças “fake”

No entanto, a pesquisadora Zíngara Rocio dos Santos Eurich, mestre em Gestão do Território e doutora em Geografia pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), afirma que a cidade tem um grande número de praças que, na prática, funcionam como trevos ou rotatórias. “Essas estruturas são responsáveis somente pelo ordenamento viário e não são capazes de promover a sociabilização. O tamanho reduzido e a localização em vias de grande movimento impossibilitam a implantação de qualquer estrutura ou equipamento para que se configurem como praça”, aponta, citando como exemplo a João Maria Cordeiro, localizada no bairro Jardim Carvalho, que serve como rotatória.

Especialista afirma que muitas “praças” da cidade servem apenas como trevos ou rotatórias, deixando de cumprir o seu papel de promover a sociabilização (Foto: Divulgação)

Zíngara ressalta que, além do número de praças, a distribuição desses espaços também é um dado importante para uma análise mais ampla. Em 2018, ela conduziu um estudo que mostrou que Ponta Grossa contava com apenas 100 praças efetivas, o que, à época, correspondia a 1,21m² de praças por habitante. Além disso, a distribuição dessas praças é muito desigual, afirma a pesquisadora. “Há uma concentração dessas estruturas na área central da cidade, bem como em áreas específicas de alguns bairros”, observa. O estudo concluiu que a Colônia Dona Luiza atingia o menor valor, chegando a 0,10m² de praça por habitante. O bairro de maior valor, à época, era o de Olarias, com 4,05m² por habitante. O Centro, por sua vez, registrou 2,71m² por habitante.

Infraestrutura

Conforme a Secretaria Municipal de Meio Ambiente, das mais de 200 supostas praças de Ponta Grossa, somente 86 têm algum equipamento, como campo de futebol, brinquedos ou academia ao ar livre. As principais, ou seja, aquelas que são utilizadas com mais frequência (praças Barão do Rio Branco, Parque Ambiental, Santo Antônio, Monteiro e Parque Linear), recebem manutenção quase diária. “Existem equipes que fiscalizam para identificar equipamentos quebrados, parquinhos que precisam ser arrumados e outros serviços”, detalha Pitela.

“Temos equipes que fiscalizam para identificar equipamentos quebrados e parquinhos que precisam ser arrumados, e realizar outros serviços”, diz o secretário municipal de Meio Ambiente, André Pitela (Foto: Divulgação)

O secretário admite que é possível melhorar a infraestrutura desses espaços e afirma que parcerias público-privadas têm se mostrado eficientes para a manutenção de praças em grandes centros urbanos como Curitiba, por exemplo. “A parceria público-privada é muito boa para garantir a estrutura necessária aos espaços públicos. Porém, é uma ação que ainda precisa ser ampliada, para que novos espaços possam contar com suporte e manutenção através desse formato”, destaca, mencionando que há interesse da Prefeitura em realizar algo nesse sentido. Enquanto isso não acontece, Pitela menciona que o Poder Público seguirá trabalhando pela conservação e revitalização das praças usando recursos próprios. “A Praça Pôr do Sol, por exemplo, já está no cronograma para receber uma ampla revitalização”, revela.

Qualidade desigual

Na visão da pesquisadora, no que se refere à qualidade das praças da cidade, a discrepância entre os espaços situados na região central e nos bairros continua presente. “Os traços principais de uma praça de qualidade são boa infraestrutura, estética, limpeza, manutenção e segurança. Se considerarmos esses aspectos, as praças centrais se destacam pela diversificação de atividades, limpeza e manutenção”, avalia. Entre as praças dos bairros, Zíngara destaca as praças Simón Bolívar e Madre Maria dos Anjos, em Oficinas, e Simão Nasseh e Paola dos Martyres, em Uvaranas.

Para aumentar a qualidade das praças, a pesquisadora defende ser necessário atender às necessidades e anseios da população. “Falta diálogo com os moradores e ações que incentivem o uso desses espaços, como hortas comunitárias e programas regulares de lazer e atividade física, que trazem identidade ao espaço e fazem com que a população se sinta ativa no planejamento, gestão e uso das praças”, argumenta.

“Falta diálogo com os moradores e ações que incentivem o uso das praças, como hortas comunitárias e programas regulares de lazer e atividade física”
Zíngara Rocio dos Santos Eurich, pesquisadora (Foto: Divulgação)

Dos problemas relatados pela comunidade, conforme a pesquisadora, o uso das praças para atividades ilícitas é o principal motivo de insegurança. “A manutenção desses locais, o aumento da fiscalização e a implantação de infraestruturas de segurança poderiam solucionar o problema”, sugere.

Segurança

De acordo com a secretária municipal de Cidadania e Segurança Pública, Tânia Sviercoski, as ações de segurança voltadas às praças seguem os mesmos parâmetros dos demais prédios públicos. “Nos últimos meses, aumentamos a nossa presença nesses espaços. As equipes da Guarda Civil Municipal fazem o patrulhamento constante e, sempre que necessário, são implementadas novas medidas, como a implantação de câmeras de monitoramento”, aponta. “Quando há o acionamento de nossas equipes, seja através de denúncias ou flagrante pelos próprios agentes, são tomadas providências o mais rápido possível, com a devida abordagem e encaminhamento dos suspeitos até a autoridade policial”, completa.

Tânia reforça que o monitoramento das praças é realizado em parceria com a Fundação de Assistência Social, que faz a abordagem e o encaminhamento de pessoas em situação de rua para casas de acolhimento. Quando são identificados usuários de álcool ou outras drogas, estes são orientados para o Centro de Atenção Psicossocial, que presta atendimento integral e trabalha na reabilitação de usuários dessas substâncias.

Memória afetiva

Além de serem espaços de descanso, lazer e atividades comunitárias, as praças também desempenham um papel importante na memória coletiva, lembra Zíngara. “Todos têm em seu imaginário uma praça da cidade, seja aquela de seu bairro ou da área central. Onde quer que seja, sempre há uma lembrança de infância relacionada a esses espaços, que traz um sentimento de nostalgia”, reflete.

“Praças são espaços dinâmicos que se moldam conforme a sociedade muda os seus hábitos e costumes. Não é preciso ficar recriando para sempre a praça tradicional do século 19”, aponta Zíngara. Na foto, a praça Barão de Guaraúna, no Centro da cidade (Foto: Gabriela Ramos de Lima)

Apesar da beleza da nostalgia, a pesquisadora observa que em Ponta Grossa a procura maior das praças está ligada à recreação infantil e que é preciso ampliar e diversificar os públicos que compartilham esses espaços. “Isso acontece não só em função de nossos hábitos, mas também do que nos é oferecido nesses espaços. Há a necessidade de ampliar os programas de atividades nas praças para que as elas recebam um número maior de usuários e também transformar aquelas praças que estão sem uso em espaços atrativos”, opina.

Espaços dinâmicos

Zíngara menciona também que em outros países o conceito estético está tão presente que as praças passaram a ser também espaços de descanso e contemplação. O uso de totens para carregar o celular e a disponibilização de Wi-Fi também já estão presentes em praças mundo afora. “As praças são espaços dinâmicos que se moldam conforme a sociedade muda os seus hábitos e costumes. As praças, principalmente no exterior e em alguns centros urbanos brasileiros, vêm com um design bem mais arrojado e atraente”, comenta a pesquisadora, destacando que não é preciso ficar recriando para sempre a praça tradicional do século XIX.

Conteúdo publicado originalmente na Revista D’Ponta #294 Março/Abril de 2023