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Quarta-feira, 28 de Fevereiro de 2024

Crônica D’P: Gênesis, por Kleber Bordinhão

2023-10-14 às 16:04
Foto: Reprodução

— Ali ó, Jairo, perto daquela touceira!
— Calma, já disse que precisa ser em lugar mais alto. Não se começa uma cidade pela parte mais baixa da região.
— Olha, por mim a gente dava um perdido e voava para o litoral. Já imaginou viver pertinho do mar?
— Deixa disso, Edite. Vamos ajudar o pessoal das fazendas, precisamos de um lugar alto e bonito. Vai que eles colocam a gente na bandeira, assim, como homenagem!
— Mas que mania de grandeza! Você sabe que já somos o símbolo da paz né, quer honra maior do que essa?
— Tá bom. O que você acha daquele monte onde está a figueira bonita ali?
— Tanto faz. Olha, Jairo, eu ando tendo uns maus presságios sobre isso tudo, desde que essa ideia surgiu, venho tendo uns pesadelos esquisitos.
— E pomba tem pesadelo? Eu nunca tive.
— Pois pomba tem pesadelo, sim. Lembra daquela vez que sonhei que os pintinhos da Dodô tinham desaparecido? Não deu outra!
— Edite, já falamos sobre isso. Você sabe, eu sei, a Dodô sabe, todo mundo sabe para que se cria frangos e qual é o fim deles.
— É claro que eu sei, mas no meu pesadelo eles estavam rodando em espetos numa caixa brilhante, Jairo. Foi horrível, não gosto nem de lembrar.
— Não gosta, mas lembra sempre que pode.
— Olha, já faz uns dias que tô sonhando com umas coisas esquisitas.
— Que coisas, Edite?
— Tudo muito estranho. Assim, do nada, me vêm umas cenas… Essa noite sonhei que estava presa num banheiro, todo feito de vidro azul transparente.
— E o que tem isso a ver com o pedido que fizeram pra gente?
— Ora, desde que vieram com essa história de escolhermos o tal do marco zero da nova cidade, eu já tive pesadelo com árvore que dobra esquina, com cocô humano em forma de araucária e que você e eu girávamos em torno do núcleo de um átomo!
— E o que é um átomo?
— Aí que tá, eu não sei, Jairo, EU NÃO SEI!
— Calma, minha querida, não precisa chorar. Isso é quebrante, mau-olhado, coisa dessa galinhada invejosa, só porque não conseguem voar, não aguentam ver outras aves subirem na vida. Vem aqui comigo dar uma olhada nessa figueira, olha só que coisa linda.
— É linda mesmo, mas vão derrubar.
— Derrubar por quê, Edite?
— Ué, Nhô Zarto não prometeu erguer uma capela no lugar que a gente pousasse?
— E precisa cortar a árvore? Podem fazer do lado. Você sempre pensando o pior. E outra, se derrubarem, é em nome do progresso. Tenho certeza que a capela vai ter o nome de uma linda santa e vai durar séculos aqui!
— Ai, e tem isso ainda, o nome.
— Da santa?
— Da cidade, Jairo. Eu também sonhei com isso, vai se chamar Ponta Grossa.
— Eu acho tranquilo, melhor que a ideia maluca da tua tia.“Rolândia.” Vê se isso é nome de cidade.
— Mais respeito com a tia Rolinha, ela é uma ave de idade. Olha, Jairo, já deu né? A cidade vai crescer aqui mesmo e com sorte a gente ganha umas praças para os nossos descendentes comerem pipoca. Podemos voar daqui?
— Sabe, Edite, gostei dessa ideia da praça. Já posso até imaginar uma estátua nossa bem no centro dela, com uma frase em latim: AVIS DE ETERNUM, ou só ADE mesmo.

Conteúdo publicado originalmente na Revista D’Ponta #297