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Domingo, 25 de Fevereiro de 2024

Artigo: “São três anos de Pandemia”, por Everson Krum

2023-03-10 às 09:20
Foto: Geraldo Bubniak/AEN

O dia 11 de março de 2023, com o decreto da OMS, marca o terceiro ano do início da pandemia de Covid-19, das imagens horríveis, dramáticas e impactantes de doentes e muitos cadáveres devido à milhares de mortes em um único dia, algo inimaginável até então. Afetou o mundo inteiro desde o final de 2019, inicialmente a partir do norte da Itália, primeiro epicentro, e com a globalização, ganhando em pouco tempo, proporções mundiais. Desde a Ásia, o vírus se espalhou rapidamente, transformou muitos aspectos da vida cotidiana, sendo um possível marco histórico da humanidade.

No Brasil, o primeiro caso de Covid-19 foi confirmado em 26 de fevereiro de 2020, sendo que na cidade de Ponta Grossa, o primeiro caso foi confirmado em 24 de março e o primeiro óbito na cidade ocorreu em junho do mesmo ano. Desde então, a cidade registrou uma contagem total, sem diferenciar novos e reinfectados, mais de 93 mil casos e 1625 mortes.

A pandemia também teve muitas consequências inesperadas, algumas positivas e outras negativas. Dentre algumas heranças positivas da pandemia temos a aceleração do ensino, trabalho e comércio on-line, o reconhecimento dos profissionais de saúde, da ciência e das pesquisas, o avanço da telemedicina e da Saúde Digital, que permitiram que muitas pessoas continuassem seus estudos e tratamentos médicos durante o distanciamento físico. Outro aspecto positivo foi a adoção de medidas de higienização para prevenir doenças, como a lavagem das mãos, sendo que esta não deveria ser deixada de lado.

No entanto, a pandemia também deixou uma herança negativa de doenças mentais e o aumento de discursos de ódio e fake news em redes sociais, numa outra pandemia da desinformação. Também houve falta de insumos, oxigênio, equipamentos e de medicamentos, excessiva dependência de produtos importados e insuficiência da indústria nacional. Tivemos muitas notícias falsas e sem comprovação científica, que circularam pelas redes sociais, algumas divulgando tratamentos milagrosos (ozônio retal !!) e até questionando a veracidade e a agressividade do novo coronavírus.

Assim, muitas pessoas acreditaram em tratamentos ineficazes e não comprovados cientificamente e menosprezaram a letalidade do vírus e a efetividade das vacinas.

Vale ressaltar que a ciência e o conhecimento humano foram duramente testados. Pesquisadores e especialistas que trabalham arduamente com produção de conhecimento e de dados, que são fiscalizados e revisados por outros pesquisadores antes de publicar um artigo científico, foram muitas vezes desprezados e criticados por estudiosos e propagadores de besteiras das redes sociais, alguns chamados de influenciadores, pseudo celebridades com ganho financeiro por visualizações e curtidas, uma inversão de importância e relevância.

No início da pandemia, os tratamentos para a doença eram desconhecidos, empíricos e intuitivos, o que causou muitas mortes e incertezas, levando tempo até a verdadeira caracterização da doença. No entanto, com ciência e o advento das vacinas, o cenário mudou significativamente. As vacinas foram felizmente desenvolvidas e aprovadas em tempo recorde, e foram fundamentais para a curva descendente de casos e mortes.

É importante relembrar que uma das medidas mais adotadas pelos governos para tentar controlar a propagação do vírus foi o lockdown
parcial e o fechamento de comércios não essenciais. Embora essas medidas tenham sido fundamentais para reduzir a disseminação do vírus, ocasionaram muitos efeitos negativos no turismo, entretenimento e na vida das pessoas, com aumento das desigualdades sócio econômicas, cuja repercussão vemos neste momento.

O lockdown parcial e a interrupção das atividades também tiveram um inegável impacto na saúde mental das pessoas, especialmente daquelas que ficaram isoladas em suas casas por longos períodos de tempo. A falta de contatos físico e social e a incerteza do futuro levaram a ansiedade, depressão e outros problemas emocionais. Além disso houve um represamento de doenças crônicas não transmissíveis e o pior, o acúmulo de consultas, exames e procedimentos eletivos, que agora transbordaram e pressionam o sistema público.

Um grande e especial destaque vai para os valorosos profissionais de saúde, heróis e guerreiros que desde o início, no pior da pandemia, enfrentaram o desconhecido, arriscando suas vidas e de seus familiares, para salvar o próximo. Devemos eterna gratidão e agradecimento, faltando a valorização financeira. É preciso destacar que nosso SUS saiu e continua fortalecido, devendo receber agora o reconhecimento com mais investimentos e mudança do modelo de financiamento.

Esperamos que nos próximos anos possamos ouvir a ciência séria e de referência, que continuemos a consolidar e reforçar os acertos, aprender com os erros, combater a desinformação e fake news e construir um futuro melhor, respeitoso e mais saudável para todos.

Everson Augusto Krum é doutor em Hematologia pela Escola Paulista de Medicina da UNIFESP,
foi vice-reitor da UEPG e é ex-diretor do HU-UEPG