Sexta-feira, 12 de Agosto de 2022

Vinhos & Viagens: ‘Conheça vinhos considerados “fora da curva” produzidos na região de Colares em Portugal’, por Patrícia Ecave

02/06/2022 às 15:44

A Filoxera foi uma praga que devastou as videiras em toda Europa, e em outros países produtores de vinho no século XIX, causando uma crise de vários anos no setor vitivinícola. Hoje você vai conhecer um pouco sobre uma das raras regiões do mundo que não foi atingida por essa praga e que produz vinhos diferentes e de excelente qualidade.

Minha visita desta vez foi na vinícola Ramilo Wines. A família sempre esteve no mercado do vinho, contudo costumavam comprar vinhos de terceiros para comercializar, mesmo tendo as próprias terras. Com a chegada das novas gerações, as coisas mudaram e os filhos Nuno e Pedro, desafiados pelo pai, decidiram cultivar as próprias vinhas e produzirem seus vinhos diferenciados. A propriedade foi comprada pelo avô em 1937 e lá já estavam vários equipamentos, um lagar antigo, mantido até os dias atuais para a vinificação, e a casa que, segundo informações da família, é datada de 1885 e está localizada em Alqueidão, Mafra.

Nuno Ramilo, proprietário

Atualmente a Ramilo Wines é gerida pelo proprietário Nuno Ramilo e é uma vinícola familiar que tem vinhas de 50 e de 15 anos. Ela está localizada no limite do Concelho de Sintra com o Concelho de Colares (entre Sintra e Mafra). As vinhas estão divididas em duas quintas, uma delas na região de Colares, uma das menores regiões de Portugal e uma zona bastante limitada, próximo ao mar. As vinhas em Colares são todas plantadas em solo de areia sendo, portanto, uma espécie de mancha quando vistas de cima, e o que é plantado fora dessa mancha específica pertence à regional de Lisboa. Em Colares os terrenos são arenosos e para efetivação do cultivo é necessário abrir trincheiras no solo e, com uma broca, escavar um metro ou mais de profundidade para plantar a vinha diretamente no barro. Conheça um pouco mais das duas quintas a seguir.

Lagar antigo da família

A Quinta Casal do Ramilo está no Vale do Rio Lizandro onde se encontram neblinas matinais, brisas atlânticas e noites frescas. Conjugue-as com as tardes de calor abrasador proporcionadas por encostas íngremes de pedra calcária e vistas deslumbrantes para a serra de Sintra. É assim que crescem as uvas nessa quinta, sem pressa e com um equilíbrio perfeito entre frescura e maturação. ​As condições geológicas apresentam bastante umidade, muitas nuvens, mas ao meio do dia geralmente tem sol e se busca aproveitar o máximo dessa radiação.

A Quinta do Cameijo em Colares (Terroir de pé-franco1) comprova o dito popular que diz que os grandes vinhos nascem de condições difíceis, pois é um desses exemplos. Solos secos, fortes ventos salgados, umidade e climas fortemente nublados. Na Quinta do Cameijo, as vinhas de pé-franco crescem junto ao solo, no calor abrigado das areias da região. Por isso o trabalho é imenso e quase todo artesanal para produção desses vinhos. A região ainda conta com muitos ventos marítimos e os antigos viticultores perceberam que, se plantassem nessa areia, ela própria refletiria a radiação, contribuindo para o amadurecimento da uva. Este é um fator muito interessante, para que esse amadurecimento aconteça é estritamente necessário que a uva esteja próxima da areia, portanto se trata de uma plantação rasteira. As uvas crescem nesse terreno arenoso, conforme explicou Nuno: “No verão é preciso colocar pequenos canos para subir os cachos para que não apodreçam em contato com o solo, é um processo bastante trabalhoso”.

Nas outras regiões de Colares, de terreno diferente, tenta-se plantar nas encostas e em zonas mais abrigadas, é o que acontece na Ramilo Wines que está próximo do Rio Lizandro, o vale do rio corta bastante os ventos marítimos e oferece certa proteção, além disso as vinhas ficam posicionadas a sul para melhor aproveitamento.

Outro dado interessante é o resgate da casta Vital que começou a ser recultivada em 2013 nas terras da Ramilo Wines. A Vital é uma uva branca autóctone cultivada nas áreas de IGP2 de Lisboa, Tejo, Península de Setúbal, Beiras e Transmontano. É uma uva apropriada para vinhos leves e jovens, revela aptidão para blends com castas de mais estrutura como  Arinto e Sercial, dando origem a vinhos com uma graduação média, frutados, equilibrados e delicados enquanto jovens; o armazenamento desses vinhos em barricas leva a uma melhoria do envelhecimento.

Patrícia Ecave e Nuno Ramilo

Muito se fala na extinção da uva tinta Ramisco que está extremamente ligada à região de Colares. É uma sobrevivente da filoxera e, como citado anteriormente, cultivada em terreno arenoso, de maturação lenta, tem elevada acidez natural, bons taninos, os vinhos produzidos se beneficiam do envelhecimento em garrafa ou madeira, resultando em finos e elegantes, ainda apresentam frescura e grau alcoólico reduzido.

Vinhos degustados:

Ramilo Vital Branco 2019 – coloração dourada, fermentou um dia com a casca, teve maceração de 24h e depois foi feita a prensagem. Sempre que se lança uma colheita, se engarrafa a próxima, permanecendo no mínimo um ano em garrafa. Um vinho original e com personalidade, diferenciado em razão da região, incomum e muito agradável.

Ramilo Doc Colares Malvasia 2019 – feito em chão de areia em pé franco, 50% do vinho fermentou com a casca, o que confere uma coloração mais forte, um caráter diferenciado, notas de flor de laranjeira, caramelo salgado e, por ser um vinho bastante intenso, Nuno Ramilo recomenda beber sozinho ou então com comidas fortes, até mesmo feijoada ou outros pratos mais intensos.

Ramilo Vinhas Velhas tinto 2017 –  um varietal de castelão, completamente tradicional, é feito no mesmo lagar de pedra em que o avô e bisavô de Nuno faziam, com pisa da uva, prensada em prensa antiga e manual, apresenta elegância, profundidade, salinidade, caráter marítimo, atlântico e ótima persistência.

Primeiro vinho, da esquerda para direita

Ramilo Colares Ramisco 2017 – Feito em vinhas de pé-franco, com videiras rasteiras, um trabalho extremamente artesanal. As videiras ficam aproximadamente a 1 km do mar, muito abrigadas na areia e conseguem amadurecer bem a uva, são vinhos que tem uma grande longevidade, são capazes de manter suas qualidades 20 anos após engarrafado.

Embora já tenham outras experiências sendo desenvolvidas em outras regiões, Colares é onde a casta Ramisco se desenvolve de forma consistente, com boa qualidade, é um vinho de intensidade, salinidade, apresentando notas de balsâmico, eucalipto e quanto mais recebe aeração e oxigenação mais características vão surgir, oferecendo ainda ótima persistência, um excelente trabalho que vem sendo desenvolvido pela Ramilo Wines.

 

Ramilo Wines

Tel.+351 967 444 46

Email: [email protected]

 

1Pé-franco: a espécie de uva vitis-vinífera europeia em certa época foi atacada pela filoxera que devastou as vinhas na Europa e em outras regiões do mundo; trata-se de um inseto que ataca as raízes das vinhas. As videiras americanas que não eram vitis-viníferas eram resistentes a esses insetos, portanto a cura passou a ser o enxerto da videira europeia em videira americana. A particularidade de Colares onde o solo é arenoso é que para a videira sobreviver é necessário escavar 1,2 ou 3m e plantar no barro, pois o inseto não vive na areia e nem a essa profundidade, por essa razão que Colares é um dos poucos locais na Europa e no mundo onde ainda hoje se plantam videiras como se plantavam 200 anos atrás e que se chama pé-franco.

2 IGP: Indicação Geográfica Protegida.

Vinhos & Viagens

por Patrícia Ecave

Patrícia Ecave é jornalista, digital Influencer e sommelière paranaense. Trabalhou com radiojornalismo, assessoria de imprensa, eventos, produção de vídeos, funcionalismo público, gestão administrativa e gestão de pessoas. Realizou viagens enogastronômicas e cursos no país e no exterior, como Vale dos Vinhedos, Cone sul e Europa. Organiza workshops, cursos, jantares harmonizados, treinamento de equipes e consultoria geral. Escreve sobre viagens, vinhos e gastronomia.